Na batucada da vida
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quarta-feira, 07 de janeiro de 1998
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
DivulgaçãoA inauguração do Estação Plaza Show somou-se aos acontecimentos positivos de 97Um ano que termina, outro que começa. Nessa maré em que se alternam as perdas e ganhos, a vida cultural curitibana registrou seus prós e contras. Assim como viu nascer um empreendimento de fôlego, o Estação Plaza Show, complexo de diversão inédito no Brasil, presenciou o abalo sísmico num dos ícones culturais do Paraná - o pedido de concordata da Livraria Ghignone.
Com seus sólidos 77 anos de vida e uma história que se mistura com o Paraná e o Brasil, a empresa não aguentou o peso dos prejuízos acumulados nos últimos tempos. Tem um prazo de dois anos para quitar as dívidas que chegam a R$ 1,4 milhão. Aquilo que parecia improvável aconteceu, e este foi um dos pontos amargos do ano que terminou.
Outros tropeços aconteceram. Para o cinéfilo e cineasta Tionkim, o horror verificado com maior intensidade em 1997 foi o fechamento das tradicionais salas de cinema. A morte desses endereços é certa e foi devidamente anunciada quando das inaugurações dos novos shoppings - extinguem-se os cinemas de rua que ressurgem em pequenas salas nos últimos pisos dos shoppings.
DivulgaçãoDificuldades à parte, a banda Skuba está entre as que conseguiram gravar um CD no ano passado
Não sou contra a modernidade nem contra o progresso, mas ver um cinema se acabar para mim é um horror, uma crueldade, relata Tionkim. Parece que você está vendo um palácio de sonhos ruir à sua frente. São construções que foram projetadas como um templo; as salas mais novas não têm o mesmo encanto. São todas impessoais.
No transcorrer de 1997 deixaram de existir os cines Lidos 1 e 2, Rivoli, Astor Champagnat, Itália e Palace Itália (estes últimos, apesar de situados em shoppings, tinham suas qualidades, ressalva Tionkim) e o Cine Condor. Com o desaparecimento do Condor se encerra toda uma época.
Ele ainda guardava resquícios dos dias de glória, quando as filas davam voltas no quarteirão, a sala era ampla, as telas grandes. Dessa fase resta somente o Cine Plaza, na Praça Osório, mas que também está à venda e não detém a mesma importância que o prédio tido como luxuoso em anos passados. (O São João, poderia estar incluído na lista, mas há anos dedica-se ao filme pornô).
Arquivo FolhaO desaparecimento do Cine Condor encerrou toda uma época de glória do cinema
Novas produçõesSe tem esse aspecto ruim, do lado contrário da dor vem a luz. É Tionkim quem faz o balanço: 1997 foi um ano histórico nas produções paranaenses. Nunca se viu tantos filmes sendo rodados, finalizados, negociados, lançados e exibidos.
Apenas como exemplo, o cineasta enumera O Tesouro, de Alternir Silva; Pela Porta Verde, de Nivaldo Lopes; Fuirei, de Guido Viaro; História de um Passado Perdido, de Luciano Coelho; Valdir e Ruth, de Eloi Pires Ferreira, Atraídos, de Maurício Yared (rodado em 96, mas finalizado em 97).
Rosinha, Minha Sereia, de Berenice Mendes (em execução); A Revolução dos Angicos, de Geraldo Piolli; Amanhã Seremos Felizes, do próprio Tionkim; Anjo da Escuridão, de Paula Sukow; O Dia para Desaparecer, de Beto Carminatti (em fase de finalização), Que Fim Levou o Vampiro de Curitiba?, de Estevão A.S.
Os cursos desenvolvidos pelo Mis, o curso de pós-graduação da Universidade Tuiuti, organizado por Denise Araújo e o curso de roteiro ministrado por Ruy Guerra, na Puc, e o Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba contribuiram para esses bons momentos do cinema no Estado.
Repensando espetáculosA produtora Regina Vogue tirou os últimos dias para analisar a performance teatral de 1997. O resultado não motivou-a a sair jogando confete e serpentina pelo ar. Não acredito em prejuízo; tudo vale a pena, disse ela para a Folha2. Onde a coisa desandou, a gente vai repensar sobre o acontecido.
Para Regina, que cada vez mais se dedica ao teatro infantil - e fica magoada com o pouco espaço destinado a ele pela mídia - o ano que passou foi de aprendizagem. Sob todos os aspectos, a começar pela falta de dinheiro que atingiu todo mundo.
O público está sem dinheiro, o governo nos pregou um susto com o pacote econômico, a Lei de Incentivo à Cultura ficou emperrada algum tempo. Tudo isso faz com que a gente amadureça. Agora temos que ver para que lado está indo a cultura, o que o público espera dos seus artistas. Não é só fazer espetáculos, temos que ver se ele está bem feito.
1998 que espere. Regina Vogue e Lala Schneider vão estrelar As Santas, peça que o diretor Edson Bueno está escrevendo especialmente para elas, a pedido de Regina. Estar no mesmo palco, dividindo uma encenação, é um sonho acalentado há anos pelas duas atrizes. Analisaram diversos trabalhos, mas nada que tenha caído no gosto de ambas. A pena de Bueno é poderosa. Será uma comédia refinada, adianta a produtora e atriz, que não abre mão de um segundo projeto, Maria Pipoca, de Fátima Ortiz. Nesta montagem ela será a pipoqueira.
Músicos e discosA falta de perspectivas vivida pelos músicos é a nota dissonante na área musical. Especialmente na música erudita. Sem espaço onde se apresentar, sem reconhecimento dos meios oficiais, uma leva de valores paranaenses está buscando outras praças onde possam evoluir artisticamente e sobreviver de seu talento.
Esta é uma velha história, que mais uma vez se repetiu em 1997, e que deverá ocorrer em 98. Não há previsões de melhores dias no horizonte. Os últimos valores curitibanos a alçarem vôo, por sinal são dois violonistas: Orlando Fraga, que em meados do ano mudou-se para Nova York, e Norton Dudeque, que nos próximos dias embarca para a Inglaterra.
Intérpretes da música popular defendem-se tocando na noite, e ocupando o palco do Teatro do Paiol em projetos da Fundação Cultural de Curitiba. Falta um movimento - ou política - que aproxime o público dos artistas. Assim como faltam espaços para shows mais elaborados.
Apesar dos pesares, com ou sem público, o Clube dos Compositores incentivou apresentações de seus associados, e no Teatro Universitário de Curitiba o compositor e instrumentista Waltel Branco levou seus amigos para noitadas memoráveis na série Entre Amigos. Sergio Albach (clarineta) e João Egashira (violão) desenvolveram no mesmo teatro um trabalho de fôlego, mostrando a um público restrito e apaixonado a beleza do choro.
Com maiores ou menores dificuldades, as produções de CDs estiveram na ordem do dia para músicos como Waltel Branco, Rosy Greca, Mari Leonel, Gerson Bientinez, e bandas como o Grupo Fato, Bartenders, Blindagem, Mansão Silva, Boi Mamão, Skuba, etc.
Portas cerradasTudo bem, a produção digital é mais viável que nos tempos do vinil. Mas algumas lojas deixaram de existir pelo alto custo que representava manter as portas abertas. Curitiba deixou de contar, no início de 1997, com a única especializada em música brasileira, a Maracangalha. Funcionava ao lado do Conservatório de MPB, e era o xodó dos artistas e professores que vinham de São Paulo e Rio dar aulas na cidade.
Ali perto, na Treze de Maio, havia outra loja, a Jukebox, que se especializou na música jovem internacional. Servia como point da garotada. Resistiu até onde deu. Porém, na mesma Treze de Maio, a abertura de uma nova livraria, a Arcadia, trouxe a oportunidade a artistas plásticos e performers de utilizarem seu espaço. Além dos leitores, é claro. Em compensação, também nas redondezas, no lado da Fundação Cultural, a loja Sebo de Elite, de discos e livros, está queimando o estoque para fechar as portas.


