O autêntico fandango paranaense não é só uma dança mas uma festa completa. Ainda hoje é usado como pagamento de mutirões entre os agricultores de Guaraqueçaba. Depois do trabalho, a turma se reúne para bater fandango e comer especiarias preparadas para esse dia.
Essa festa tão tradicional com música retirada de instrumentos construídos pelos próprios lavradores, que são também artesãos e pescadores, tem sido tema de pesquisas e trabalhos de registros em vídeo, livretos e CDs. Semana passada, o grupo Viola Quebrada gravou com a Família Pereira de Guaraqueçaba para a produção de dois CDs sobre o fandango.
Um dos discos será só com a Família Pereira tocando as diversas modas de fandango como Anu, Queromana, Tonta, Andorinha, Cana Verde, Marinheiro, Tiraninha, Sabiá, Lajeana, Dandão e Feliz. O outro CD, com os músicos do Viola Quebrada também terá só de músicas de fandango. O lançamento do CD duplo está programado para o final do ano.
Para a gravação em estúdio com a Família Pereira foi montado um tablado para os festeiros baterem o fandango. Entre eles é assim que se fala: em vez de dançar eles batem o fandango, numa referência ao sapateado com os tamancos de madeira.
Os primos Nilo, Anísio e Leonildo, mais os irmãos Zé e Arnaldo, além do Agnaldo e do Heraldo todos Pereira passaram três dias em Curitiba batendo fandango. Os instrumentos usados por eles (rabeca, viola e cavaquinho) foram feitos pelos primos mais velhos com cambará, cedro e canela.
Nos instrumentos há uma curiosidade que chama a atenção. Na viola é fixada uma corda a mais que só chega até a metade do instrumento e não é apertada com os dedos. Essa corda, os Pereira chamam de grilo ou cantadeira, por ser ela a responsável por dar o tom ao cantador.
Com mais de 50 membros, a Família Pereira vivia em Rio dos Patos em Guaraqueçaba e lá, meio isolados do resto do município (para chegar leva-se três horas de barco mais três horas a pé), reuniam-se para bater o fandango, como única forma de diversão.
O músico e pesquisador Rogério Gulim do grupo Viola Quebrada entrou em contato com a Família Pereira há mais de 15 anos. Ele foi até Rio dos Patos conhecê-los e realizar a pesquisa musical para um livro sobre a família. Esse livro nunca foi lançado e os músicos não sabem o porquê.
O primeiro CD do Viola Quebrada, que dedica-se à música caipira, já teve uma faixa dedicada ao fandango. O segundo ganhou duas faixas com participação de três dos Pereira e agora, os dois CDs que estão sendo produzidos são totalmente de fandango e foram realizados pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Grupo Positivo.
Vivendo muito próxima à miséria, a Família Pereira sobrevive da agricultura de subsistência e reclama das leis de proteção ambiental que não levam em conta a sobrevivência dos nativos. ''A nossa casa vive rodeada de micos-leões-dourados, a gente cuida da natureza e sabe o que pode tirar. Mas se alguém pega a gente com um punhado de palmito, ou se a gente corta uma árvore, pode ser preso. Se um raio derruba uma árvore a gente tem que pedir autorização do Ibama para usar a madeira, mas tem gente que não é nativa tirando tudo'', reclama seo Leonildo, mestre violeiro.

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