Na Amazônia, navegar é preciso
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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Luciano Delfini<br> Agência Estado 
Manaus - Que a floresta amazônica abriga em seus ecossistemas um universo em espécies vegetal e animal, os biólogos estão aí pra nos dizer. Que é entrecortada pelo rio mais longo e caudaloso do Planeta - o Amazonas -, o qual guarda a maior bacia hidrográfica do Globo, basta uma olhada num mapa da região para não haver dúvida. Que o papel de seu bioma é vital para o equilíbrio da Terra, haja vista as discussões mundo afora sobre meio ambiente. Agora, dar-se conta de suas verdadeiras proporções, só mesmo estando diante de tamanha riqueza natural. E certamente, uma boa maneira é cruzar a floresta, ou pelo menos parte dela, navegando por seus rios.
De Santarém, no oeste do Estado do Pará - cidade que tem o privilégio de assistir ao encontro dos rios Tapajós e Amazonas -, partem barcos com destino a Manaus, capital do Estado do Amazonas e metaforicamente chamada por muitos de ''porta de entrada da floresta''. Na verdade, são muitas essas ''portas'' de entrada ou saída, e certamente Santarém é uma delas.
Os cerca de 756 quilômetros que separam fluvialmente as duas cidades são percorridos em dois dias e duas noites de viagem. O destino contrário, de Manaus a Santarém, pode ser encurtado em algumas horas, uma vez que o barco navega no sentido da correnteza do rio Amazonas.
A viagem é feita naquelas embarcações em que os passageiros se acomodam em redes - em rede própria, pois o bilhete não inclui o fornecimento de uma. Mas não se preocupe. Se você não tem estado de espírito ou saúde para dormir duas noites na rede, os barcos têm cabines (os camarotes) com duas camas em beliche e ar-condicionado. Considerando o calor que faz na região, facilmente beirando os 40 graus, particularmente, o ar-condicionado pode fazer a diferença.
No embarque, o clima de viagem já contagia as pessoas. Famílias indo visitar parentes ou voltando pra casa após um feriado, por exemplo, turistas estrangeiros em busca dos encantos da floresta amazônica, jovens deixando Santarém para começar uma vida em Manaus, a tripulação do barco fazendo os ajustes finais e auxiliando as pessoas em suas acomodações e muita carga nos porões - alimentos, sacarias, peças industriais - com destino à ''metrópole'' da região Norte. No início da viagem, o fenômeno do encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas, com temperaturas e velocidades de correnteza diferentes, que não se misturam e formam uma extensa linha - em parte disforme; em parte, uniforme - separando duas cores distintas, introduz o viajante ao que essa natureza pode proporcionar.
Bem-vindo ao rio Amazonas
Aos poucos, as águas esverdeadas do rio Tapajós vão se afastando e quem assume a viagem até o destino final são as águas barrentas do Amazonas. As embarcações que fazem esse trajeto não dispõem de atrativos como os grandes navios de cruzeiro, salvo um bar no terraço do barco onde é possível ficar até mais tarde jogando conversa fora, ouvindo histórias dos nativos e tomando uma cerveja. É uma viagem para apreciar a paisagem e se encantar com imagens que só quem cruza a floresta tem o prazer de ver.
Pra onde quer que se aponte o olhar, a visão se depara com o limite entre a floresta, de árvores grandes, típicas do bioma da Amazônia, e seu maior rio. O trajeto é feito quase todo próximo à margem do rio, que ora se mostra mais estreito, ora sendo quase impossível enxergar a margem oposta. O pôr-do-sol logo no primeiro dia da viagem, em plena selva, transforma as cores locais e deixa os passageiros em estado de contemplação por longos minutos.
O segundo e mais longo dia de viagem - um dia inteiro e uma noite - revela, finalmente, detalhes que até então pareciam cenas de programa de TV. As comunidades ribeirinhas vão aparecendo aos poucos, distantes umas das outras. Para um típico morador da cidade grande, a primeira questão que pode vir à tona é: ''Como essas pessoas vivem tão isoladamente?''. Pergunta tola, praticamente sem resposta, de quem já tem preconcebida uma referência de habitat.
Algumas comunidades são bem pequenas, com poucas casas às margens do rio; outras, um pouco maior, onde é possível ver uma igreja ou uma escola. O barco não pára e o aceno de seus moradores é inevitável. As crianças que estão nas canoas remam em direção à embarcação para pegar alguma coisa que os passageiros costumam jogar, como roupas, biscoitos e outros produtos industrializados.
Aqui vale uma observação: em geral, as populações ribeirinhas têm alimentos como peixes e frutas o suficiente para suprir as necessidades da família no dia-a-dia, mas carecem de itens produzidos pela tal da ''modernidade industrial''. Pescadores também se aproximam para vender seu peixe ou trocá-lo por alguma mercadoria. Tudo feito em movimento.
Entre um rápido contato com essas populações ribeirinhas, nativas da floresta, botos - cor-de-rosa e acinzentado (tucuxi) - são vistos nadando tranquilamente ao longo do Amazonas, às vezes na parte central do rio, às vezes bem próximos às crianças e pescadores. A presença e o canto de aves são constantes, e outros sons muito fortes também são ouvidos, em geral de macacos. Com sorte, é possível avistar algum em uma copa de árvore às margens do rio. Jacarés também dão o ar da graça, mas em geral pulam na água e afundam quando sentem a aproximação do barco.
Ao cair da noite, o breu toma conta da floresta e a imaginação entra em cena para decifrar os sons que chegam por todos os lados. Os barcos navegam com as luzes apagadas e só acendem o farol dianteiro de vez em quando, sobretudo quando se escuta um ruído forte vindo da margem.
Manaus à vista
Último dia de viagem - na verdade, última manhã, pois, dependendo do barco, ele costuma chegar a Manaus, se não houver contratempos, por volta do meio-dia. Uma hora antes do destino final, a capital amazonense começa a surgir diante dos olhos. Grande (com mais de 1,6 milhão de habitantes), um tráfego intenso de navios enormes, refinarias de petróleo, ruídos de cidade grande e a sensação de que o isolamento da floresta vai ficando para trás.
Ao longo do trajeto, o barco pára em cidades como Óbidos, ainda no Estado do Pará, e Parintins e Itacoatiara, já no Estado do Amazonas. Contudo, são paradas rápidas, algumas feitas no meio da noite, e não é possível deixar a embarcação.
Mas a natureza reserva ainda outro espetáculo como presente de fim de viagem. É o encontro das águas dos rios Negro, que banha a capital, e o Amazonas. Há também o encontro do Negro com o Solimões, mas esse fenômeno é visto mais próximo ao centro de Manaus; vindo do lado contrário à correnteza, ou seja, do Estado do Pará, o primeiro encontro de águas acontece quando o barco deixa o Amazonas e entra nas águas escuras do rio Negro. O rio Amazonas, aliás, é a junção entre o Negro, que nasce na Colômbia, e o Solimões, que surge no Peru. O encontro desses dois rios extensos se dá bem em frente à Manaus e a partir da capital do Estado, ele corre em direção ao oceano Atlântico com o nome de Amazonas.
Fim da viagem. Passados os primeiros momentos de estranheza ao pisar em terra firme após dois dias navegando, ficam imagens de um ambiente que parece seguir à risca as exigências e caprichos da Natureza. A sensação de que o rio Amazonas e a floresta são inatingíveis diante de tamanha grandeza e vastidão. Mas isso é só uma boa sensação, já que a realidade nos tem mostrado o contrário.
BOA VIAGEM
- Consulte o tipo de embarcação que a operadora oferece antes de comprar a passagem. Prefira os barcos maiores, mais novos e com mais espaço. Tanto em Manaus como em Santarém, funcionários de hotéis, de agências ou centros de informações turísticas costumam indicar as melhores.
- Compre biscoitos, guloseimas e até roupas, se possível, para jogar para as crianças ribeirinhas ao longo da viagem. Esse costume já é tradição na região e quando os barcos se aproximam de alguma comunidade, a garotada corre com suas canoas para pegar os sacos atirados pelos viajantes.
- A passagem inclui café da manhã, almoço e jantar. As refeições são simples e a única alternativa para uma ''boquinha'' é o bar que serve lanches. Sendo assim, é bom programar-se para passar no supermercado antes de embarcar.
- Aproveite os dois dias de viagem para conversar com a população nativa. Sempre há histórias interessantes e muita troca de conhecimento. Ao final da jornada, as pessoas se despedem como se fizessem parte de uma família.
- Na mala, roupas leves, chapéu, repelente e protetor solar. Em dias de céu aberto, o sol é implacável e por algumas horas, só ficando na sombra. Os barcos têm locais cobertos. (L.D./Agência Estado)


