Há não muito tempo, o cineasta Jia Zhang-ke, considerado a figura de proa da "sexta geração" do cinema chinês e diretor de “Amor Até as Cinzas”, em segunda semana de exibição em Londrina, disse que filma na China porque é o país que melhor se pode ver na tela. Exageros à parte, há também algo de verdade na afirmação. Ou pelo menos parece, se a trajetória de seu cinema for seguida de perto e com atenção. Sabe-se com certeza que os filmes de Jia Zhang-ke tem como propósito registrar as transformações de um país que continua a se abrir ao mundo sem abandonar costumes ancestrais, que se insere no mercado internacional enquanto grandes massas de sua população se mobilizam em busca de trabalho. Um país que cresce e se moderniza enquanto sustenta altíssimos níveis de pobreza e insegurança social.

O nome China soa como algo desmedido, uma ideia que não se pode sequer pensar, um amálgama de tempos e culturas que desafia a compreensão. Talvez por isso o cinema de JZ se fixa tanto nas paisagens, como se algo do país e de suas mudanças não pudesse absorver apenas seus personagens e fosse necessário observar os contrastes entre as vilas do interior e as metrópoles, ou o movimento incessante imposto pela construção de obras arquitetônicas gigantescas. Por isso, poucos cineastas – e não apenas chineses – se dedicaram como ele, com tanta entrega, a observar a passagem do tempo. O transcurso dos anos, a alteração das paisagens, a maneira em que modos inteiros de vida foram suprimidos, deixando apenas flashes de memória.

Neste seu décimo segundo filme, JZ reflete sobre este estado de transição das coisas, não apenas observando a modernização do próprio país mas também as fases de uma história de amor marcada pelo infortúnio, a fatalidade e a mais profunda e insondável melancolia, e também a evolução de seu próprio universo narrativo. A resposta que essa exploração proporciona é incontestável: os dias se sucedem e tudo muda, embora na verdade tudo segue igual.

A história de “Amor Até as Cinzas” tem um tempo espacial: o relato começa em Datong, uma pequena cidade mineira a ponto de desaparecer. Depois se transfere para Yichang, e finalmente retorna ao local de partida, visivelmente transformado. A primeira parte é uma breve incursão ao cinema de gangsters, introdução que prepara a cena para o (melo) drama. O casal de amantes Bin e Qiao (assombroso o trabalho da atriz Zhao Tao – também musa e mulher de JZ –, reconhecido pelo júri de Cannes-2018 como o melhor do festival) dirige uma pequena organização “jianghu” (espécie de gang de bairro) que inclui um pequeno restaurante e jogatina, além de alguns negócios ilegais.

Na disputa pelo controle territorial entre gangs, JZ traça as transformações sociais e culturais do entorno. A ligação atribulada entre Bin e Qiao, construída via narrativa intensa, vai se estender de 2001 a 2018, exatamente os anos da consolidação irrefreável do capitalismo de partido único que tornou a China a segunda potência mundial e um dos países mais desiguais do mundo.

Depois de passar alguns anos na cadeia (assumindo um crime de Bin), Qiao é a mensageira de JZ: o filme modifica suas referências e já não é drama noir, mas o melodrama ambíguo que sugere algo de vingança feminina. A transformação do vínculo entre os protagonistas é uma viagem de Qiao que se relaciona com o entorno: uma viagem de barco pelo rio Yangtze, um passeio pelo cidade de Yichang e uma viagem de trem mostram esta China em ebulição. E o espanto pelo desengano amoroso se converte em assombro diante de um país irreconhecível.

Zhao Tao interpreta Qiao num trabalho elogiadíssimo pela crítica
Zhao Tao interpreta Qiao num trabalho elogiadíssimo pela crítica | Foto: Divulgação

Na terceira e última parte, o relato completa um ciclo. Agora é Bin que retorna a uma Datong transformada, rodeada por modernos edifícios. O passar das décadas remodelou o lugar, mas aquele microcosmo dos criminosos baratos do início segue mais ou menos igual. Como se o tempo humano tivesse uma velocidade própria, diferente daquela da História com maiúscula. “Amor Até as Cinzas” é o novo intento de JZ em seu observatório de desajustes.

É bem verdade que tudo tem certo ar de déjà vu – mas como o cinema de JZ é tão raro em Londrina, isto não faz diferença. Não em vão ele fala da mesma coisa que vem tratando desde 1995, em documentários e ficção. Com o mesmo dinamismo envolvente, um senso crítico corrosivo e a precisão no diagnóstico sobre a miséria moral com a qual ele identifica a China em que vive. Em regime de tolerância vigiada, diga-se.

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