Músicos experimentais estão no ciclo "Evidência"
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domingo, 06 de junho de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 07 (AE) - A série "Evidência - Arte Contemporânea em Vídeo" prossegue amanhã, no Museu da Imagem e do Som (MIS), com três programas dedicados a músicos de diferentes formações, mas que têm em comum um trabalho experimental resultante do cruzamento de diversas linguagens. Até domingo serão exibidos no museu, em três sessões diárias, vídeos sobre o compositor minimalista norte-americano Steve Reich, o poeta e cantor Arnaldo Antunes e o violoncelista sino-americano Yo-Yo Ma. Cada sessão tem a duração de 90 minutos e a entrada é gratuita.
A série, produzida pela Magnetoscópio com patrocínio da Petrobrás, está em seu segundo ano. Começou a ser exibida no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, com curadoria do realizador de vídeos e cineasta Marcello Dantas. Inicialmente, o foco da série era a produção visual contemporânea, mas o sucesso do ciclo "Evidência" foi tão grande entre o público que seus organizadores decidiram ampliar o escopo temático e disciplinar, incorporando músicos, cineastas, coreógrafos e dramaturgos.
Assim, além dos vídeos sobre os músicos já citados, a série vai trazer a São Paulo, ainda este ano, vídeos sobre cineastas como David Lynch ("Veludo Azul") e escultores como Richard Serra, além de produtores de cinema (Saul Zaentz, que bancou "O Paciente Inglês") e realizadores de vídeo (Bill Viola). Artistas plásticos continuam sendo as estrelas da série, que reúne vídeos sobre os escultores Richard Serra e Isamu Noguchi, o pintor Jeff Koons e a artista alemã Rebecca Horn.
Minimalismo - Dos vídeos programados para esta semana, o mais longo é o documentário de Margaret Williams sobre o compositor Steve Reich, "Uma Nova Linguagem Musical", que tem quase uma hora de duração. Em sua primeira parte, o vídeo mostra como Reich - que é sobrinho de Al Jolson, o cantor de jazz que inaugurou o cinema sonoro - estrutura sua linguagem musical, ancorado em pesquisas que não desprezam as chamadas culturas periféricas. Na segunda parte, é avaliada a repercussão das obras minimalistas do compositor entre o público e, finalmente, na última parte, é mostrada a relação de Reich com a cena contemporânea.
A música minimalista já é balzaquiana. A estréia do nova-iorquino Reich no movimento foi em 1964 com "Music for Piano and Tape", apresentada em São Francisco quando o compositor tinha apenas 28 anos. Dessa peça simples com restritos motivos rítmicos ele chegou a peças mais sofisticadas como "Different Trains" e "Electric Counterpoint" nos anos 80, libertando-se da influência da música africana e asiática.
O segundo vídeo, "Nome", foi realizado há seis anos simultaneamente ao lançamento do disco homônimo pelo cantor, poeta e compositor Arnaldo Antunes. Ele o considerou, na época, seu "Yellow Submarine". Vale dizer, um vídeo para ser exibido na MTV e acabar de uma vez por todas com o mito de que é um compositor "difícil", mesmo que "Nome" seja uma colagem que revela como matrizes a poesia dos irmãos Campos e a obra de artistas plásticos ligados ao movimento concreto. Nesse vídeo, que explora relações entre a palavra escrita, falada e projetada
Arnaldo conta com a colaboração e sua mulher Zaba Moreau, além de Célia Catunda e Kiko Mistrorigo.
Transcultural - Um vídeo original que integra o programa é "Yo-Yo Ma and the Kalahari Bushmen", do inglês Robin Lough, realizado há dois anos. O violoncelista aparece tocando para os integrantes de uma tribo na fronteira da Namíbia com Botswana e ouve a música produzida pelos Kalahari Bushmen, sem qualquer vínculo com a tradição européia. Yo-Yo Ma, como fruto de uma cultura híbrida (nasceu na França, é de origem chinesa e mora nos EUA) vê esse contato como aprendizado obrigatório para um músico ocidental. Essa atitude, de buscar inspiração nas culturas periféricas, o tem levado às mais remotas regiões do globo, resultando dessa experiência gravações antológicas como a trilha do filme "Sete Anos no Tibete", composta por John Williams e interpretada pelo violoncelista.
Outra experiência fascinante - desta vez na outra pista da estrada - foi a do músico paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan (1948-1977), que também passou pela música de cinema americano (numa das faixas de "A Última Tentação de Cristo", em colaboração com Peter Gabriel, e "Os Últimos Passos de um Homem"). O vídeo de Nusrat, "Utterance", dirigido por Pervaiz Khan, traz imagens dessa que foi uma das mais belas vozes que passaram pelo planeta e que cantou aqui em 1994. Nusrat era um qawwali, ou seja, um músico que aproxima os homens de Deus com sua arte, segundo a tradição sufista. Um dos discos mais populares do cantor paquistanês foi justamente "O Último Profeta", que celebrava a comunhão divina numa festa com os mais variados instrumentos.
A série "Evidência" vai exibir até o fim do ano outras produções sobre artistas revolucionários influenciados pela cultura sufi, entre elas o vídeo "Território do Invisível", de Marcello Dantas e Carlos Nader, sobre o trabalho do videomaker Bill Viola, realizado há cinco anos no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.
Serviço - "Evidência Arte e Cultura Contemporânea em Vídeo". De hoje a domingo, às 18 horas, 19h30 e 21 horas. Grátis. Avenida Europa, 158, em São Paulo, tel. (011) 852-9197. Até domingo.


