MÚSICOS ENFRENTAM A ORDEM
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sexta-feira, 01 de setembro de 2000
Simone Mattos De Curitiba 
Os músicos curitibanos Fabiano e Luciano Cordoni conseguiram na Justiça uma decisão inédita no País. Eles obtiveram uma autorização para se apresentarem em qualquer estabelecimento, mesmo sem estarem filiados à Ordem dos Músicos do Brasil (OMB).
A questão teve início após um show da banda Los Cordonis, que aconteceu no dia 20 de maio, no Estação Plaza Show, em Curitiba. No intervalo da apresentação, um fiscal da OMB solicitou aos músicos a carteira de filiação. Como não somos ligados à Ordem, ele ameaçou chamar a polícia e nos obrigou a encerrar o show na metade, explica Luciano.
O procurador regional da OMB no Paraná, Renan Brasil, diz que não foi bem assim. Segundo ele, o fiscal apenas autuou a banda por não estar em dia com a Ordem e por não ter sequer um contrato para a realização daquela apresentação. Jamais demos ordem para que o show fosse interrompido, garante.
Controvérsias à parte, a verdade é que os músicos impetraram Mandado de Segurança contra o presidente da Ordem dos Músicos do Brasil, João Bento de Lacerda. O juiz federal substituto da 2ª Vara Cível de Curitiba, Guy Vanderley Marcuzzo, acolheu o pedido e proferiu sentença impedindo a exigência da carteira profissional de músico.
Renan Brasil teme que tal decisão abra um perigoso precedente no País, envolvendo outras profissões, e já avisa que a OMB vai recorrer, pedindo a suspensão de tal decisão. Isso é um absurdo, diz o procurador. Nem fomos oficialmente comunicados sobre esta decisão judicial.
Para os músicos, absurdo é o descaso da Ordem com a classe. Não temos nenhum benefício, nenhuma vantagem. A OMB perdeu a sua objetividade e só serve agora para impedir os artistas de exercerem o seu trabalho, desabafa Luciano.
Fabiano Cordoni questiona ainda o alto valor da anuidade da OMB, que estaria em torno de R$ 200,00. Além de músico, ele é engenheiro agrônomo e comenta que paga anualmente R$ 114,00 para o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea). É um contra-senso, já que é preciso estudar cinco anos para se tornar um engenheiro, comenta.
Renan Brasil diz que a OMB não foi criada com a intenção de proporcionar benefícios à classe artística, mas apenas fiscalizar o exercício da profissão e promover cursos e seminários de aperfeiçoamento, o que garante que está sendo cumprido. Ele afirma ainda que cerca de quatro mil músicos paranaenses estão registrados na Ordem e que a anuidade não ultrapassa os R$ 90,00. É uma das mais baratas entre todas as profissões, garante.
Apesar de ter obtido na Justiça uma decisão inédita no País, Luciano Cordoni diz não se sentir feliz. Tenho muitos outros amigos, músicos, que passam pelo mesmo problema, portanto não me sinto feliz em saber que apenas eu tenho agora autorização para tocar livremente, comenta. Segundo ele, a insatisfação da classe com a OMB é geral.
O guitarrista Júnior, da banda Vadeco e os Astronautas, que se apresentará terça-feira no Teatro do Paiol, também deixou de contribuir anualmente com a OMB há algum tempo. A Ordem não traz benefício nenhum aos músicos, confirma. Ele diz que, apesar de nunca ter tido problemas, já viu muitos amigos se incomodarem com a fiscalização da OMB. Acho que é uma entidade muito fechada e nada democrática, afirma Júnior.
A banda Los Cordonis é formada pelos músicos Luciano Cordoni (teclado e voz), Fabiano Cordoni (baixo) e Rogério Cordoni (bateria). O seu repertório é composto por MPB, que recebeu por eles o nome de Música Popular Cósmica Brasileira.


