Músico gravou clipe em acampamento do MST
Músico gravou clipe em acampamento do MST17/Mar, 16:07 Por Victor Cervi Matão, SP, 17 (AE) - Chico César gravou, com direção de Lírio Ferreira (de Baile Perfumado) o clipe da música "Pensar em Você" num acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), em Matão, interior de São Paulo, na quarta feira, tendo por companhia milhares de crianças, gente jovem e idosos. Atentos, os sem-terra, cantarolavam a música romântica que Chico cantava, acompanhado com o violão, sob o sol forte e ardente de mais de 30 graus, comum na região. Na noite de terça-feira, antes de gravar o clipe, Chico já estivera no acampamento para conhecer o lugar e tocar um pouco para o pessoal, à luz de lampiões, lanternas e fogueiras acesas no descampado, perto das barracas de teto de lona preta. De boné, bermudas e um tênis imitando couro de cobra, ele cantou algumas músicas, deu autógrafos e teve de explicar para uma menininha que o seu tênis era de plástico: "É imitação, não é cobra de verdade", disse. Na quarta-feira, dia da gravação, Chico foi de manhãzinha para o acampamento, gravou algumas cenas com a sua equipe de doze pessoas e depois foi ao cabelereiro Iran, onde raspou a parte de trás do cabelo com máquina zero, tocada a pilha. Logo ficou com a sua cabelereira típica, que o menino Carlos, de cinco anos, dentes cariados e cabelos pixaim achou muito feio. O cabelereiro Iran não estranhou. Dizia que estava acostumado a este tipo de trabalho. Mas nunca cortou cabelo no estilo do de Chico César. "A gente faz de acordo com o freguês", comentou. "Ele pede, a gente faz". Seu Iran, apesar do capricho, também não gostou do corte. Para ele, a coisa era meio extravagante. O cantor e compositor, de 36 anos, explica que escolheu o acampamento para fazer o clipe porque se identifica com o movimento. Chegou a participar, durante dez anos, do Movimento dos Sem-Teto, em São Paulo. "É um prazer estar no seio de um movimento que é uma esperança para o Brasil, pois trata de mazela muito antiga, que é a distribuição da terra", disse. "A questão da terra acaba refletindo na distribuição de riqueza no País, que é de muito desigual", interpretou. Ele diz ainda que acha importante mostrar para o público dele, jovens de classe média, como vive uma parcela significativa da população brasileira, que não tem acesso à terra. Chico explica ainda que está torcendo para que as mil e duzentas famílias que estão no acampamento consigam ficar na terra, realizando o sonho de ter um pedaço de chão de onde tirar o sustento. Segundo Chico, a idéia de gravar num acampamento começou a surgir há oito meses, num outro acampamento, quando cantou para um grupo de assentados no Rio Grande do Sul. "Desde aquele tempo fiquei com essa idéia na cabeça, de mostrar esse aspecto da realidade brasileira, das pessoas vivendo em situação precária, como nômades, mas, na verdade, o que eles estão reivindicando é uma coisa básica, que é a terra para trabalhar e produzir". Chico César ficou no acampamento, com sua equipe, até escurecer. Eles filmaram barracos, rostos, a escola, as hortas que começam a desabrochar, uma vista geral, de cima de uma torre de madeira construída pelos sem-terra, e muitas cenas com crianças. Brendo, o menino de cinco anos que não desgrudou do cantor, acompanhava as gravações pelo visor do monitor, que ficava do lado de fora da escola. Com o auxiliar do câmera, enfiou-se debaixo daquele pano preto que se usa para ver melhor a imagem e chegou até a dar palpite. Achou a música bonita mas não sabia o que era um clipe. Durante a gravação, o clima entre o pessoal acampado - cerca de mil e duzentas famílias - era de apreensão e desânimo. Uma ordem da juíza da cidade os obrigava a sair do acampamento ainda esta semana e ninguém tinha a mínima idéia de para onde iriam. Estava marcada uma assembléia para a noite, para que o grupo decidisse o que iria fazer. Abrigar-se no ginásio de esportes da cidade, como mandou a juíza, eles diziam não aceitar.





