Músico está em uma de suas melhores fases
Músico está em uma de suas melhores fases17/Mar, 15:44 Por Mauro Dias São Paulo, 17 (AE) - Será, então, o ano de dois novos discos de João Donato. No dia 7 ele lança, no Memorial da América Latina, o CD "Amazonas", gravado para o selo norte-americano Elephant Records. No mesmo dia 7 grava ao vivo com a Orquestra Jazz Sinfônica, data de lançamento a ser precisada. Acreano de Rio Branco, Donato começou a tocar acordeão, em bailes, ainda criança. Foi para o Rio de Janeiro aos 11 anos. Aos 15 já era profissional tarimbado, participando das apresentações do Sinatra-Farney Fan Club. Começou a estudar piano, substituiu Chiquinho do Acordeom no conjunto de Fafá Lemos (que to cava na boate Monte Carlo), começou a estudar trombone - tudo antes de fazer 18 anos. Gravou seu primeiro disco-solo, instrumental, em 1953, um bolachão de 78 rotações por minuto - um duo de acordeão, tocado por ele, e clarineta. Ao mesmo tempo, integrava, como pianista, o grupo Os Namorados (uma tentativa de ressuscitar os Namorados da Lua, de Lúcio Alves, que partira para carreira-solo. Veio para São Paulo em 1965, foi do conjunto Os Copacabanas, tocou na orquestra de Luís César e teve o próprio grupo. Tom Jobim produziu, para a Odeon, seu primeiro elepê, "Chá Dançante". Em 1958 largou os outros instrumentos e ficou com o piano. Compôs "Minha Saudade", com João Gilberto - seu primeiro sucesso, gravou um disco dançante pela Copacabana, foi para o méxico com Nanai e Elisete Cardoso e de lá para os Estados Unidos. Lá, tocou com Mongo Santa María e Tito Puente, entre outros nomes do jazz latino (que não tinha esse rótulo, então). "Like Nanai", homenagem ao antigo companheiro de México, é uma das músicas novas de "Amazonas".Trata-se de uma bossa nova de acento caribenho, uma das marcas registradas de Donato. A fusão do samba com a música da América Central explica-se, em parte, por sua trajetória - os conjuntos de baile a cooperação com Puentes e Santa María -, em parte pela origem acreana. O fato é que a música de João Donato não está enquadrada em nenhuma corrente estética: é música de João Donato, ponto. Música de João Donato é um gênero, um capítulo à parte. Uma das características é o balanço caribenho - de "Amazonas" (letra de Lísias Ênio), "A Paz", "Lugar Comum" e "Bananeira" (letras de Gilberto Gil), "Até Quem Sabe" e "Simples Carinho" (letras de Abel silva), "A Rã" (letra de Caetano Veloso). A mais importante, no entanto, é a economia de notas. Por exemplo: nos oito compassos finais de "A Rã, a melodia tem apenas duas notas, que se repetem, a cada compasso, numa mesma sequência, enquanto a harmonia vai orientando o sentido. "A Rã" também está no CD "Amazonas", gravado com o baterista Cláudio Slon, radicado nos Estados Unidos, e com o contrabaixista Jorge Hélder (músico das bandas de Caetano Veloso e Chico Buarque). A nova gravação de "A Rã" é um pouco mais dançante das que Donato já fez (e do que as de outros intérpretes). Está mais próxima da maneira como o autor a apresenta, ao vivo. "Amazonas" tem sabor de disco ao vivo, leveza de apresentação de piano-bar, um sabor falsamente descompromissado. E é como Donato soa melhor: à vontade para expor os achados minimalistas que está sempre buscando, como compositor ou intérprete. Homenageado há pouco tempo com um belo songbook, há muito tempo Donato não se mostrava, em disco, de forma tão espontânea, com trio - a formação em que melhor se expressa. Por esse motivo, pela surpresa de quatro inéditas, pode-se dizer que "Amazonas" é o melhor Donato dos últimos tempos. O que não é pouco.





