Simone Mattos
De Curitiba
O compositor italiano Monteverdi (1567-1643) será o grande destaque do concerto que o Camena (pronuncia-se Câmena) – Grupo de Música Antiga da Paraíba apresentará hoje. O evento faz parte da 18ª Oficina de Música de Curitiba, que prossegue até o final de janeiro com atividades diárias.
O grupo surgiu há três anos, como consequência de um amplo trabalho de pesquisa que começou a ser desenvolvido pelos professores Ibaney Chasin e Heloísa Muller, do Departamento de Música da Universidade Federal da Paraíba, em 1994. ‘‘Não usamos o palco com um fim, mas como um meio para o nosso trabalho’’, contam. O principal objetivo do grupo é prestar um serviço social, funcionando como forma de comunicação entre o passado e o presente.
A proposta é pesquisar, realizar e divulgar o repertório musical dos séculos 16 e 17, quando o domínio musical italiano era inevitável em todo o mundo. ‘‘Costumo chamar este período de Renascença tardia’’, diz Chasin.
Para ele, historicamente a arte não se limitou a um mero ato lúdico ou à diversão sem compromisso. Ao contrário, esteve orientada às mais profundas questões e reflexões humanas. Nesta perspectiva, o Camena retoma composições centradas na poesia, de grande densidade humana. ‘‘Nós cantamos em italiano, mas nosso programa é em português, para que o público possa acompanhar’’, explica.
A intenção de comunicar os valores humanos de forma ampla e densa foi a principal razão do grupo ter escolhido Monteverdi como destaque em seu trabalho. ‘‘A obra dele tem um poder de comunicação imediata, permitindo que o público vivencie suas composições’’, diz o professor. ‘‘A sofisticação do texto de Monteverdi é tanta que leva à simplicidade’’, comenta.
Na opinião da professora Heloísa Muller, o compositor italiano é a maior referência musical de todos os tempos. Ibaney Chasin compara a importância artística do compositor a do dramaturgo Willian Shakespeare e do escultor e pintor Michelangelo. Das doze peças que serão interpretadas hoje à noite pelo grupo, três são de Monteverdi.
O Grupo Camena é formado por quatro cantores e seis instrumentistas: as sopranas Ana Luisa Camino e Isabel Barbosa; os tenores Vianey Santos e Elton Veloso; Renata Simões (violino); Heloísa Muller (cravo); Kalim Campos (cello), Rainer Patriota (viola de gamba) e Ibaney Chasin (chitarrone e chitarra barroca).
Segundo Heloísa, o grupo enfrenta algumas dificuldades para comprar e manter os instrumentos, desconhecidos do grande público. O chitarrone, por exemplo, é um instrumento parecido com o alaúde, próprio para acompanhar o canto, com 14 cordas pinçadas. A chitarra barroca é uma guitarra de dez cordas duplas, parcida com um violão. ‘‘Eles são feitos artesanalmente, encomendados no exterior’’, comenta. Como as cordas são importadas, a manutenção é cara.
O primeiro CD do grupo Camena deverá ser gravado neste ano, contrariando o professor Chasin. ‘‘Acho que ainda é prematuro, mas estamos sofrendo muita pressão para lançar logo o disco’’, explica. Assim como as apresentações, em sua opinião, o disco não deveria ser um final, mas sim a maturação de um processo.
O grupo realiza em média 18 concertos por ano. Heloísa conta que inicialmente havia um receio de que o público fosse restrito. O temor, entretanto, foi logo superado. ‘‘Primeiro conquistamos a própria universidade e hoje temos um público externo bem eclético, inclusive formado por pessoas que não tinham o hábito de ouvir música erudita’’, diz ela.
A Universidade Federal da Paraíba é considerada uma referência em música antiga no Brasil. Atualmente, cerca de 700 alunos estudam nos cursos de música oferecidos pela instituição.
O Concerto com o Camena -Grupo de Música Antiga da Paraíba acontece hoje, às 21 horas, na Igreja São Vicente de Paulo (Rua Jaime Reis, 531). A entrada é gratuita e o concerto tem aproximadamente 1h20 de duração.

O Camena – Grupo de Música Antiga da Paraíba vai executar o seguinte programa no concerto de hoje;
1ª parte
•‘‘Amor ch’atendi’’, de Caccini;
• ‘‘Gioite di Selve’’, de Frescobaldi;
•‘‘Begli Occhi’’, de Frescobaldi;
•‘‘Apria Urania’’, de autor anônimo;
•‘‘Occhi Ridenti’’, de Kapsberger;
•‘‘Amante Legato’’, de Marini;
•‘‘Ed é Pur Dunque Vero’’, de Monteverdi;

2ª parte:
•‘‘Non S di Gentil Core’’, de Monteverdi;
• ‘‘Bel Pastor’’, de Monteverdi;
• ‘‘Sonata a Sopran Solo’’, de Dario Castello;
•‘‘Cantata Humana’’, de Roque Ceruti;
•‘‘Passacali Della Vitta‘‘, de autor anônimo do século 17