MUSICALIZAÇÃO - O canto que transforma
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segunda-feira, 28 de março de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
O Projeto "Educação Musical Através do Canto Coral - Um Canto em Cada Canto" chega a 2016 completando 15 anos de atividades. Neste período, oportunizou a oito mil crianças o primeiro contato com a música, abrindo seus horizontes e apresentando novas possibilidades na vida. O projeto é realizado em escolas municipais de Londrina com crianças que, em sua maioria, nunca tiveram ou nunca teriam a chance de aprender música. Isso porque, apesar de a Educação Musical ser obrigatória nas escolas de educação básica, instituída por lei que entrou em vigor em 2012, ainda está longe de ser implantada na totalidade. Inclusive, esta é uma luta de anos por especialistas que defendem que a música, muito mais que propiciar o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, contribui na construção da autoestima, socialização e acesso à cultura e arte, questões importantes para se relacionar com o mundo.
Para Oleide Lelis, coordenadora pedagógica do projeto - idealizado juntamente com professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e regente Lucy Maurício Schimiti - após todos esses anos de um sonho que começou sem grandes pretensões, a iniciativa foi muito além de suas expectativas. "Eu sempre acreditei no poder de transformação da música, principalmente pela minha história. Ainda criança, vinda de uma família de agricultores, tive a chance de estudar piano. Naquela época, e ainda hoje, só quem tinha condições financeiras estudava. Recém saída da universidade, uma jovem cheia de sonhos, fui conhecer um projeto social na Venezuela. Voltei de lá com a certeza de que era o que queria fazer: dar oportunidade para crianças menos favorecidas para que, assim, pudessem descobrir um mundo novo e apreciar o belo", conta, emocionada.
A primeira empreitada foi realizada com sucesso em Ibiporã, onde implantou vários corais nas escolas do município com o "Canto na Escola". Mesmo com os diversos obstáculos, Oleide viu que era possível sensibilizar toda uma comunidade e obter resultados significativos.
Anos depois, a ideia do "Um Canto em Cada Canto" nasceu em Londrina com o intuito de funcionar como um projeto-piloto para tentar implantar a educação musical através do canto coletivo em escolas públicas do município. Com o apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), o projeto começou a ser realizado em escolas e, a cada ano, fortaleceu-se, tornando-se referência em edução musical por meio do canto coral - não só pelos ensinamentos musicais, mas, também, pelos resultados positivos no comportamento.
Oleide explica que os ensaios dos grupos são realizados dentro das próprias escolas em salas, com professores com formação específica na área, em que as crianças vivenciam processos de apreciação, criação e execução musical. "O projeto é desenvolvido por meio de um repertório com músicas populares, folclóricas, de outras etnias, muitas com divisão de vozes", explica.
Este ano, o projeto foi ampliado e de 700 alunos de 12 escolas passou para 1,2 mil estudantes 19 de escolas. São atendidas crianças de 3º, 4º e 5º ano do ensino fundamental, com idade entre 8 e 12 anos. Ao final do ano, todas as crianças participam de uma grande apresentação para a comunidade. "Esse espetáculo é a coroação do trabalho de um ano, quando mostram o que aprenderam. Porém, mais que isso, existe a preparação emocional e a própria superação; os alunos ficam ansiosos e felizes em apresentar em público, para a família." Apesar de não ser o objetivo final, muitas crianças, hoje jovens adultos, continuaram na música depois desse primeiro contato.
Instrumentos de diversão
A mudança no perfil das crianças nas últimas duas décadas fez que a metodologia utilizada também passasse por mudanças. "Desde cedo, elas têm acesso a diversos tipos de aparelhos eletrônicos e muita informação. Por isso, é preciso lançar mão de vários desafios, dinâmicas, técnicas, principalmente visuais, para que eles se sintam atraídos. Parece uma grande brincadeira, um jogo, mas é uma forma lúdica de ensinamento", diz Oleide.
Para tanto, os regentes usam recursos como bexigas, molas, fantoches, gravuras e outros apetrechos para tornarem a aula mais divertida, ao mesmo tempo em que estão realizando as indicações musicais.
A professora Miriam Hosokawa diz que, com essa metodologia, as crianças conseguem visualizar elementos musicais como respiração, notas ligadas, ritornelo (retorno ao início da frase musical) e assimilar seu significado incorporando esses dados. "As crianças passam a ter uma experiência positiva, entendem e gostam do que estão fazendo. Com o tempo, veem que conseguem e a motivação reflete em disciplina, atenção, concentração, respeito e responsabilidade. Mas, talvez o mais importante: muita autoestima", observa. (M.T.)


