Quem possui todos os títulos, pode se gabar. Trata-se da mais ambiciosa coleção de livros sobre música popular já publicada no Brasil. Chamou-se numa primeira etapa Ouvido Musical, sob o qual saíram 12 volumes. Depois, foi rebatizada para Todos os Cantos, já aí com patrocínio do Grupo Pão de Açucar.
O recém-lançado ‘‘Mário Reis – O Fino do Samba’’, de Luís Antônio Giron, é o vigésimo volume. O livro reconstitui a misteriosa trajetória do cantor carioca – marcada sobretudo por retiradas e retornos ao meio artístico –, desvenda suas sutilezas como intérprete – que influenciariam o modo de cantar de João Gilberto – e passa a limpo o ambiente sócio-cultural da primeira metade do século 20.
A coleção foi criada em meados da década passada pela editora 34, com direção do jornalista e crítico Tárik de Souza. Olhando em perspectiva, percebe-se a proeza da iniciativa num mercado editorial que há não muito tempo parecia rejeitar o filão. Até aqui, o catálogo tem fornecido um painel generoso da música popular abrigando sua multiplicidade de ritmos e tendências sem preconceitos.
As abordagens são as mais variadas abrangendo biografias, perfis, ensaios e reportagens e sistematização de dados. As duas dezenas de volumes já focalizaram a Tropicália, a banda Sepultura, o choro, o violonista Baden Powell, o movimento punk, o sanfoneiro Luiz Gonzaga, a música pernambucana, os Mutantes, o pop baiano, o heavy metal, os Novos Baianos, o reggae, o novo jazz, o blues, a música caipira, a Jovem Guarda, o rock brasileiro da década de 80 e as canções que alcançaram os primeiros lugares das paradas nacionais de 1901 a 1985.
‘‘Sempre partindo da visão de um país de musicalidade à flor da pele, a coleção pretende concectar-se às inúmeras vias de cada tema, fiel à tarefa de apresentar aos leitores o maior número de alternativas para o conhecimento deste universo complexo e interpenetrado’’ – anuncia o texto de apresentação que acompanha todos os volumes. A proposta, imagina-se, não seduziu musicólogos da academia.
Com uma ou outra exceção, a maioria dos pesquisadores convidados pela editora atua como crítico musical ou jornalista da área de cultura. É o caso de Giron, autor da biografia de Mário Reis. Na verdade, em se tratanto de musicologia popular, o exemplo pode ser generalizado para além da coleção. Uma consulta ligeira a estantes especializadas de livrarias constataria que as obras mais significativas no gênero trazem assinaturas de gente como José Ramos Tinhorão, Sérgio Cabral, Vasco Mariz e também Ruy Castro.
Ruy escreveu o já clássico ‘‘Chega de Saudade’’ (1990, Companhia das Letras) transportando os leitores à zona sul do Rio de Janeiro da década de 50, quando foi gestada a bossa nova. ‘‘Chega de Saudade’’ talvez tenha sido o livro de música responsável pela conquista de um público mais amplo do que aquele especializado.
Quando foi lançado, chegou a figurar na lista dos mais vendidos de não-ficção. Na esteira, a coleção Todos os Cantos também gerou ‘‘best-sellers’’, alguns na terceira, quarta e até quinta edições. Entre seus trunfos figuram os dois volumes de ‘‘A Canção no Tempo – 85 anos de Músicas Brasileiras’’, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello; ‘‘Tropicália – A História de uma Revolução Musical’’, de Carlos Calado; ‘‘Choro – do Quintal ao Municipal’’, de Henrique Cazes; e ‘‘Vida do Viajante: a Saga de Luiz Gonzaga’’, de Dominique Dreyfus.
A depender da editora, os leitores terão que ampliar suas estantes. Uma nova fornada de lançamentos está prevista para o segundo semestre e começo do próximo ano. A lista inclui ‘‘Dorival Caymmi: o Mar e o Tempo’’ (de Stella Caymmi), ‘‘Jackson do Pandeiro – Coroa de Couro’’ (Fernando Moura), ‘‘Paralamas do Sucesso’’ (Jamari França), ‘‘O Pop Brasileiro’’ (Bia Abramo), ‘‘Dolores Duran’’ (Angela de Almeida) e ‘‘Era dos Festivais’’ (Zuza Homem de Mello).

mockup