São Paulo, 15 (AE) - Depois de uma temporada de nove meses em que foi muito bem-recebido pelo público carioca, o musical "Dolores" chega a São Paulo, na quinta-feira, para temporada até 19 de dezembro no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Dolores Duran foi no seu tempo a mulher que melhor interpretou a dor de perder um amor e disso entendia, porque namorou quanto quis nos seus breves 29 anos de vida. Compôs e cantou como ninguém os versos de "A Noite do Meu Bem" ("Hoje/ eu quero a rosa mais linda que houver/ E a primeira estrela que vier/ Para enfeitar a noite do meu bem"). E morreu há 40 anos, no dia 24 de outubro de 1959, vítima de uma anomalia congênita no músculo cardíaco.
O tempo encarregou-se de fixar a imagen da cantora da dor-de-cotovelo que reinava sozinha nas boates da zona sul do Rio nos anos 50. "Dolores", o musical, pretende mostrar que por trás da intérprete existia uma mulher tão bem-humorada quanto desconhecida do grande público. "As pessoas falam na Dolores e pensam logo em fossa, tristeza, mas ela era muito divertida", conta o jornalista Douglas Dwight que criou e escreveu o espetáculo ao lado de Fátima Valença. "Muitas vezes, ela fazia música para a desilusão dos outros". Suas canções eram mais tristes do que a intérprete.
Autodidata, de família humilde, filha de um sargento da Marinha, Dolores completou apenas o curso primário. Ainda se apresentava como Adiléia da Silva Rocha quando tentou a sorte pela primeira vez, aos 10 anos, num programa de calouros e recebeu um prêmio pela interpretação. Aos 16 anos, trabalhava como auxiliar de costureira na casa de um médico que a incentivou a fazer um teste na boate Vogue. Foi aprovada, mas, para ganhar o emprego, teve de mentir a idade. Dizia ter 18 anos. Precisava arranjar um nome artístico. "Foi esse médico, o doutor Lauro Paes Andrade, que a chamou de Dolores Duran", conta Dwight.
"Dolores" passa-se inteiro no interior de uma boate, como as muitas em que ela cantou nos anos 50. Ao todo, são 32 músicas que farão a velha-guarda suspirar de saudade, entre elas "Conceição" (Dunga e Jair Amorim), "Por causa de Você" (Dolores e Tom Jobim), "O Que Que Eu Faço" ( Dolores e J. Ribamar), "My Funny Valentine" (Richard Rodgers e Lorenz Hart)
"Fim de Caso" (Dolores), "Não Me Culpe" (Dolores) e "Solidão" (Dolores). No elenco, Lenita Ribeiro, Ana Velloso, José Mauro Brant, José Antônio Carnevale e Soraya Ravenle, numa elogiada interpretação de Dolores.
A direção musical é de Tim Rescala e a direção está a cargo de Antonio de Bonis. "Quero com esse trabalho não apenas mostrar a vida de Dolores, mas reviver a boemia carioca da década de 50 numa Copacabana que, com suas boates e crooners, foi sem dúvida responsável por inúmeras transformações, tanto no comportamento quanto na literatura, nas artes, na MPB", escreve o diretor no catálogo do espetáculo. No mesmo catálogo, Rescala diz que bastou escutar três ou quatro interpretações de Dolores para mudar radicalmente a impressão de cantora de fossa. "Hoje considero essa imagem injusta e apressada", escreve.
Dolores começou a compor tarde, por volta dos 25 anos, mas escrevia letras quase compulsivamente. Dwight conta que em "Por Causa de Você", Tom Jobim dedilhou a música e, enquanto ouvia, Dolores sacou um lápis de sombrancelha e foi escrevendo os versos num guardanapo. Em outra ocasião, teria pedido ao motorista do carro que a conduzia para estacionar rapidamente sob a iluminação de um poste a fim de que pudesse escrever às pressas os versos que lhe vinham à cabeça.

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