Musical leva a vida de Chiquinha Gonzaga para o palco
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quarta-feira, 03 de março de 1999
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 04 (AE) - Muito antes da televisão, o teatro havia descoberto a importância histórica e o potencial dramático da vida da compositora, instrumentista e regente Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga. Em 1983, Maria Adelaide Amaral recebeu o Molire de autora pelo texto de "Chiquinha Gonzaga, O Abre Alas", musical dirigido por Osmar Rodrigues da Cruz, com cenários de Flávio Império, grande sucesso de público em São Paulo.
O mesmo texto ganhou nova versão no ano passado, no Rio, com a atriz Rosa Maria Murtinho liderando um elenco de 22 atores e 4 músicos, sob direção cênica de Charles Moeller e direção musical de Cláudio Botelho. Novo sucesso de público. Com cenários de Rosa Magalhães e participação especial da cantora Selma Reis, o musical "O Abre Alas" estréia amanhã (05) no Teatro Alfa Real para uma curta temporada: apenas cinco semanas.
"Há três anos vinha acalentando o sonho de montar esse musical", conta Rosa Maria Murtinho. Ela entrou em contato com a vida da compositora por meio do livro escrito pela pesquisadora Edinha Diniz (Chiquinha Gonzaga, uma História de Vida, Editora Rosa dos Tempos).
Na época ela estava ensaiando "Intensa Magia", dw Maria Adelaide Amaral, cujo texto foi escrito a partir de uma intensa pesquisa da autora com o auxílio da pesquisadora Edinha, cujo livro só foi publicado em 1984. Rosa Maria ficou tão fascinada que pela primeira vez na vida resolveu produzir um espetáculo.
"Antes de ler o livro eu não fazia idéia de quem era essa mulher incomum que abriu todas as portas para nós mulheres", entusiasma-se a atriz. "Pode procurar na Europa ou qualquer outro continente; não há caso de uma mulher ao mesmo tempo compositora, instrumentista e regente, sem falar em sua luta pessoal para abrir caminho rompendo com os preconceitos da época".
Vida e obra de Chiquinha intercalam-se na peça que mostra 30 entre as quase 2 mil composições criadas pela autora que contribuiu para a valorização dos ritmos musicais brasileiros. São quase 100 personagens transitando por 8 cenários e vestindo 250 figurinos.
"Quando Osmar me encomendou o texto, percebi que a vida de Chiquinha estava mal contada nas biografias oficiais", contou Maria Adelaide Amaral. Ela saiu em busca de informações e chegou até a pesquisadora Edinha, para cujo trabalho acabou contribuindo com dados pesquisados em sebos e biografias de personalidades que haviam convivido com a maestrina.
"Chiquinha não só foi uma mulher ativa como longeva, que participou intensamente de importantes acontecimentos da segunda metade do século passado e início deste", observa a autora. Isso lhe permitiu traçar, na peça, um grande painel cultural, social e político do Rio de Janeiro no período. "A vida de Chiquinha é também um excelente ponto de partida para contar a história oficiosa do Brasil, muito mais interessante que a história oficial".
Vida - Chiquinha nasceu no Rio de Janeiro em 1847 e cedo começou a estudar piano com um professor particular. "A cidade tinha o apelido de Pianópolis, porque toda moça de família aprendia a tocar piano, além de estudar francês e bordado", diz Rosa Maria. Aos 11 anos compôs sua primeira música, uma canção de Natal.
Aos 16 se casou com um oficial da Marinha, por imposição dos pais, do qual logo se separou para viver com um engenheiro, a quem também abandonou. O flautista Joaquim Antônio da Silva Callado foi o responsável por colocá-la em contato com os salões artísticos da época.
"Não era apenas o fato de ser mulher e separada o que escandalizava no comportamento de Chiquinha", lembra Rosa Maria. Em sua época, o violão era considerado instrumento de marginais, assim como ritmos como o maxixe. Não bastassem enfrentar tabus de ordem pessoal e a dificuldade de ser aceita como maestrina, Chiquinha brigou pela valorização da música genuinamente brasileira.
E ainda lutou pela abolição da escravatura, pela proclamação da República e pelos direitos dos músicos. Em 1917, fundou a Sociedade Brasileira de Direitos Autorais. Muita história para um só musical? O sucesso de público nas duas montagens parece provar que a concentração da história em duas horas resultou num espetáculo intenso e, claro, divertido.


