Musical 'Filhos do Brasil' ousa e leva para o palco o tema da exploração infantil
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domingo, 09 de abril de 2000
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 10 (AE) - Criança sofre... A expressão - usada de forma jocosa - já serviu de bordão para arrematar esquetes num programa humorístico na televisão. Atualmente, poderia arrematar as dezenas de denúncias publicadas quase diariamente na imprensa sobre a dura realidade enfrentada pelas crianças brasileiras, desde a exploração do trabalho infantil passando pela exploração sexual até o extermínio puro e simples.
O excesso de informação, não é novidade, acaba por anestesiar. Retrabalhado de forma artística com texto criado em parceria por Andréa Bassitt e Regina Galdino - responsável pela ótima adaptação do romance de Machado de Assis "Memórias Póstumas de Brás Cubas", monólogo interpretado por Cássio Scapin -, o tema deixa de estar apenas no noticiário policial para ganhar o palco na tragicomédia musical "Filhos do Brasil"
dirigida por Regina, que estréia amanhã (11) no Centro Cultural São Paulo (CCSP). As sessões, de terças a quintas-feiras, serão sempre às 21h30.
"É um tema difícil de ser trabalhado no teatro", admite a diretora. "Mas nós não podemos nos omitir e deixar que seja explorado apenas por programas de televisão comandados por carniceiros com sua visão distorcida", diz. Regina e Andréa realizaram uma abrangente pesquisa - colhendo depoimentos de crianças de várias épocas, com direito até mesmo a trechos do diário do infante d. Pedro -, para dar voz à criança num espetáculo que promete ser a um só tempo lúdico e contundente.
Recorte cronológico - As atrizes Andréa Bassitt e Deborah Serretiello revezam-se para interpretar dezenas de crianças brasileiras dando voz a seu imaginário, sonhos e pesadelos, desde os primeiros órfãos despachados em insalubres navios para o Brasil até meninos rebelados da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem). A opção pelo recorte cronológico permitiu um desenho do distanciamento para a identificação mais direta e uma reflexão sobre a atitude dos adultos na relação com a criança em diferentes épocas.
"A criança só saiu do anonimato neste início de século", lembra Regina. "O Estatuto da Criança e do Adolescente tem apenas dez anos e ainda não é posto em prática"
diz. Em sua pesquisa, Regina e Andréa descobriram, por exemplo, documentos sobre o recrutamento de crianças para trabalhar nas caravelas. Esses "grumetes" viraram personagens de um dos primeiros esquetes do espetáculo. "Eles eram leves, comiam menos e faziam os serviços mais perigosos, nos quais não se queria correr o risco de perder um adulto", diz. "Em caso de naufrágio, eram os primeiros a ser jogados ao mar, pois não tinham lugar prioritário nos botes".
A brincadeira entre uma escrava e sua sinhazinha, meninas de elite cantando musiquinhas picantes num colégio interno, garotos soldados na linha de frente da Guerra de Canudos e a noite da chacina da Candelária são algumas das cenas de "Filhos do Brasil". Todas narradas do ponto de vista de duas crianças e com o apoio das composições e arranjos criados especialmente por Pedro Paulo Bogossian. Ele também é responsável pela direção musical e pela execução da trilha ao vivo, no piano, dividindo o palco com Cândido Lima na percussão.
"Filhos do Brasil" marca a sexta parceria entre Bogassian e a diretora. "O espetáculo tem também uma pesquisa musical muito sofisticada", diz Regina. O público poderá conhecer, por exemplo, a evolução no tempo dos versos de canções conhecidas como os do acalanto: "Nana neném/que a cuca vem pegar". Regina cita Brecht - "A primeira função da arte é divertir" - para ressaltar que o espetáculo, apesar da gravidade do tema, tem humor e uma dinâmica divertida. Serviço - "Filhos do Brasil". Tragicomédia. De Andréa Bassitt e Regina Galdino. Direção de Regina Galdino. Duração: 1 hora. De terça a quinta, às 21h30. R$ 10,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611.


