Musical com charme, humor e energia
Entre os casos de filmes que se converteram em musicais da Broadway e novamente voltaram a ser filmados, percorrendo trajeto na contramão histórica de Hollywood, há três mais notórios, todos comédias: o terror ''A Pequena Loja dos Horrores'', de Roger Corman; a hilária produção de Mel Brooks, ''Primavera para Hitler'' e este ''Hairspray - Em Busca da Fama'', que estréia hoje na cidade (confira a programação de cinema na página 2).
A primeira versão, de 1988, foi um dos vários momentos kitsch do excêntrico diretor John Waters, transgressor de carteirinha, cult principalmente entre a comunidade GLS. Agora quem dirige é o coreógrafo Adam Shankman. O resultado não apenas é uma depurada diversão ao som do rock n' roll dos anos 1960 e do rhythm and blues negro, mas uma narrativa esperta que se detém na problemática questão racial que, naquele período de conquistas sociais nos EUA, mobilizava consciências em busca da integração entre afrodescendentes e brancos.
Para compreender este elemento-chave da trama de ''Hairspray'', basta recordar dois famosos incidentes que envolveram a juventude da época. Primeiro em 1957, quando tropas do exército tiveram que escoltar os primeiros nove alunos negros de uma high school integrada. E cinco anos depois, quando tropas federais escoltaram James Meredith na Universidade do Mississipi. Colocadas as coisas desta maneira, ''Hairspray'' se afasta da idílica visão de outro musical que obrigatoriamente vem à lembrança quando se pensa naqueles tempos: ''Nos Tempos da Brilhantina'' (Grease), cuja rósea recriação do ambiente de 1959 prescinde da realidade social do momento.
A história desta refilmagem de ''Hairspray'', em boa medida fiel ao original de Waters, gira em torno de Tracy (Nikki Blonski, sem dúvida a maior atração do filme), gordinha adolescente fanática pelo Show de Corny Collins, o programa televisivo de maior ibope na pequena cidade kitsch de Baltimore. Um dia ela decide concorrer a uma vaga entre as dançarinas do programa, e assim conquistar o coração do jovem galã Link (Zac Efron, o arrasa-corações de ''High School Music'').
Mas com tanta competição anoréxica e superficial, e uma overdose de discriminação racial pairando no ar, o objetivo da pobre Tracy parece tão distante como a remota possibilidade de iniciar uma dura dieta. Mas longe de se amargurar, a rebelde mocinha decide nadar contra a corrente. Ela encontra entre os marginalizados (os afrodescendentes da cidade) uma válvula de escape para o intenso ritmo que mantém estocado, e decide demonstrar que, por trás dos muitos quilos, há toneladas de talento e paixão.
Mesmo sem recursos espetaculares (custa acreditar no orçamento divulgado de US$ 75 milhões), ''Hairspray'' conta com um espírito libertário que faz do musical um agradável, contagiante filme de gênero, com canções e coreografias à base de energia e humor. A garota Blonski se destaca em vários temas, como ''Good Morning Baltimore'' e ''I Can Hear the Bells'' e, junto com John Travolta (travestido e roliço), a animada ''Welcome to the 60's'' - e é Travolta quem faz a delícia dos devotos dos musicais, ao lado Christopher Walken em ''You'are Timeless to Me''. (C.E.L.J.)





