São Paulo, 12 (AE) - Agenor Miranda Araújo Neto, o Cazuza, enfant terrible dos primeiros passos do rock nacional, nasceu em 1958 num apartamento de quarto e sala em Ipanema, na Rua Prudente de Morais. Morreu também no Rio de Janeiro no dia 7 de abril de 1990, após três anos de luta contra a aids, aos 32 anos. Segundo Lobão, Cazuza foi um dos protagonistas de uma "geração suicida", que teve ainda os outsiders Júlio Barroso, Renato Russo e ele próprio, Lobão. "O fundo musical do Brasil nos anos 80 éramos nós", diz Lobão, com propriedade.
Rodrigo Pitta e Daniel Ribeiro, dois garotos abusados de Santana, zona norte de São Paulo, jamais viram um show de Cazuza ao vivo e tinham só 13 anos quando ele morreu. Mas, assim como Lobão, reconheceram em Cazuza o cronista de uma geração angustiada. Mais do que isso: viram nos seus blues e lamentos poéticos um potencial de teatro musical - o que já soa mais como uma grande heresia. Os dois, apoiados pelo empresário Paulo Amorim, que bancou o projeto (orçado em R$ 400 mil), resolveram colocar seu delírio na ordem do dia. Vai daí que, numa quinta-feira, 03 de fevereiro, estréia em São Paulo a ópera-rock "Cazas de Cazuza", uma breve história dos personagens que saltam das 126 letras de música deixadas pelo poeta desbocado de Ipanema.
"Eu sou apenas um menino que gosta de teatro musical", diz Rodrigo Pitta, 23 anos, também o diretor de uma festejada colagem de musicais que fez temporada recentemente em São Paulo, "Pocket Opera", visto por cerca de 20 mil pessoas em três meses. O sucesso de "Pocket Opera" impeliu-o a acreditar que há um público para o teatro musical à americana em terra brasilis. Mas ele também fez alguns testes, como incluir, ao lado de esquetes de "West Side Story" e "Rent", um aperitivo cênico com "Geni", de Chico Buarque, standard da música popular brasileira. "O público compreendeu e adorou", diz Pitta, que confessa desconhecer a breve história pregressa do teatro musical à brasileira. Não viu "Emoções Baratas", de José Possi Neto, por exemplo.
Pitta diz que procurou primeiro entender o musical à moda da Broadway como uma disciplina acadêmica. Tanto que foi estudar teatro nos Estados Unidos, fazendo um curso na American Music and Drama Academy. Seu parceiro, Daniel Ribeiro, que é diretor musical do espetáculo, chegou a ser aprovado em uma audição para o elenco de "Rent" nos Estados Unidos. Mas como chegaram a Cazuza? Em busca de um texto original para encenar, Pitta havia chegado primeiro a "O Cortiço", de Aloísio de Azevedo. Conseguiu até mesmo composições inéditas de Caetano Veloso, Arto Lindsay e Carlinhos Brown para o espetáculo, mas teve de adiar a montagem por um problema básico: não achou patrocinadores para custear o US$ 1 milhão dos custos.
Bem, então Cazuza entra finalmente no negócio. Pitta já tinha chegado à conclusão que o cantor carioca tinha personificado como ninguém a angústia de sua época, tratando até mesmo dos temas cruciais dos anos 90, como a aids, as drogas e a "corrupção endêmica" do País. "Mas não podia fazer algo somente biográfico, porque sua obra tinha muita intensidade", diz o autor. "E também os personagens estão todos aqui, vivos, e é muito difícil retratá-los", admite.
Quando já estava prestes a desistir, resolver tentar uma via transversal e procurar os personagens que habitam as letras de Cazuza. Reuniu 20 delas ao fim de sua pesquisa: "Um Trem para as Estrelas", "Todo Amor que Houver Nesta Vida", "Pro Dia Nascer Feliz", "Completamente Blue", "Certo Dia na Cidade", "Vida Fácil", "Eu Preciso Dizer que Te Amo", "Bete Balanço", "Cobaias de Deus", "Mal Nenhum", "O Tempo não Pára", "O Poeta Está Vivo", "Brasil", "Posando de Star", "Bruma", "Blues da Piedade", "Obrigado", "Ideologia", "Malandragem" e "Codinome Beija-Flor".
Destas canções, saltaram sete personagens principais. Ele os distribuiu num prédio de apartamentos do Baixo Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Para Pitta, os sete personagens mostram diversos Cazuzas e o poupam de ter de personificar um sujeito multifacetado e cujos contornos ele ainda considera inacabados. Elenco - A escolha do elenco é outra história à parte. Os diretores fizeram audições à moda da Broadway, distribuindo textos e partituras aos candidatos. Escolheram gente de completa inexperiência (como o cantor Lulo Scroback) e Ana Torres (cantora maranhense com indicações para os prêmios Sharp e Visa). "Cazuza é um poeta do povo, acessível e visionário", considera Pitta. Com coreografia do celebrado Sandro Borelli, ele quer provar que essa voz multissocial de Cazuza combina perfeitamente com o glamour dos musicais.

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