São Paulo, 08 (AE) - Sob direção de Gabriel Villela, estréia amanhã (09), no Teatro Ruth Escobar, "Alma de Todos os Tempos", um musical definido como epopéia-rock. Uma colagem de textos e músicas de vários autores com costura de Eriberto Leão e Villela, o espetáculo será encenado pela banda Estranhos e conta com a participação especial da cantora Nábia Villela. No palco estão Nábia, o vocalista Leão, o baixista Johnny Monster, o baterista Jeff Molina e o guitarrista Jaques Molina.
Tendo como personagem principal um profeta misto de Cristo e Che Guevara, o musical mantém um constante diálogo entre personagens míticos e a crítica social. O cenário criado por Villela e Leopoldo reproduz os círculos de pedra formados por dólmens e menires de Stonehenge, na Inglaterra, um local mítico usados pelos druidas em seus rituais. Os figurinos, também criados pela dupla, remetem ao estilo hippie da década de 70.
A iluminação ficou a cargo de Domingos Quintilhano. "A luz de rara beleza chega a ser um show à parte", diz Villela. O diretor utilizou, ainda, diversos recursos cênicos - como um elevador que mantém em destaque a atriz e cantora Nábia, que entra em cena com Oxum e durante todo o espetáculo representa divindades ligadas ao feminino.
A data da estréia, 9/9/99, e o local não foram escolhidos aleatoriamente. "Escolhemos uma data cabalística e um teatro de grande importância histórica, onde foram encenadas peças como "Roda Viva" e "O Balcão", montagens revolucionárias num período de resistência do teatro brasileiro", comenta Villela. O desejo de retomar uma atitude revolucionária nos moldes da que incendiou a geração das décadas de 60 e 70 moveu o ator Eriberto Leão, líder da banda Estranhos, a escrever um texto no fim do ano passado.
Retrabalhado em parceria com Villela, desembocou no musical que agora sobe ao palco do Ruth Escobar. "Faço parte de uma geração privilegiada em termos econômicos, porém alienada no que diz respeito à responsabilidade social", diz Leão. Ele encarna o profeta no espetáculo que está entre o show de rock e o teatro. "O roteiro é híbrido: é muito show para ser chamado de teatro, mas também muito teatral para ser classificado apenas com um show", diz Villela. Com a experiência de quem já dirigiu shows de Milton Nascimento e Maria Bethânia, Villela garante ser muito diferente o espetáculo criado agora. Segundo ele, Milton e Bethânia cantam o presente, talvez até o passado para o presente, ao passo que Leão e sua banda cantam o presente para o futuro. "Falando assim parece mera retórica, mas não é"
afirma. "O mais difícil nessa direção foi cuidar para deixar livre a manifestação do espírito de juventude que incendeia essa garotada".
A peça inicia-se com o nascimento desse profeta a partir do anúncio do anjo Gabriel. "Cristo surge de óculos escuros, um misto de Raul Seixas e Che Guevara e Lennon, de todos os homens que não ficaram passivos diante dos que querem nos fazer acreditar que devemos viver nesta sociedade do jeito que ela é". Embora não tenha um estrutura dramática, com conflito e diálogo entre os membros da banda, existe a história da trajetória desse profeta, que, como Cristo, é morto para ressurgir como lenda.
"Não estou falando de um herói, mas de gente comum e no fim falamos diretamente com a platéia". Entre os versos de compositores conhecidos utilizados no espetáculo estão os de Cazuza: "Meus heróis morreram de overdose/ meus inimigos estão no poder/ ideologia/ eu quero uma para viver". Num dado momento da peça, o profeta diz um texto endereçado diretamente ao presidente Fernando Henrique. O que cobra dele? "Coragem e ideologia", diz Leão.
"Não estamos pregando a volta de um messias e nem mesmo o nascimento de heróis ou de eleitos", afirma o vocalista. "A revolução só ocorrerá a partir de uma transformação individual, na verdade bem simples, e só a partir daí se muda o coletivo". Serviço - "Alma de Todos os Tempos". De Eriberto Leão e Gabriel Villela. Direção de Gabriel Villela. Duração: 1h30. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 20,00 (quinta); R$ 25,00 (sexta e domingo); R$ 30,00 (sábado). Teatro Ruth Escobar - Sala Dina Sfat. Rua dos Ingleses, 209, tel. 289-2358

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