MUSICAL ABRE A ODISSÉIA DE CANNES
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terça-feira, 08 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 2 
Fiel à desordem climática generalizada, a primavera anda preguiçosa este ano na Europa, com temperaturas mais baixas para o período e para algumas regiões, especialmente as litorâneas. Como a Côte dAzur, por exemplo, onde se situa Cannes. Mas a partir de hoje, e até o dia 20, é ponto de honra que o sol volte a brilhar e os termômetros somente registrem amenidades meteorológicas. Está começando o Festival Internacional do Filme, a grande festa do cinema mundial, a odisséia de imagens. Na abertura de gala a ser apresentada pela atriz Charlotte Rampling no grande auditório Louis LumiSre, com 2300 lugares, do Palais des Festivals, uma extravaganza do diretor australiano mas com capital americano da Fox Baz Luhrmann, o musical Moulin Rouge. Em competição, o filme traz a primeira presença glamourosa, a atriz Nicole Kidman, ainda atravessando o inferno astral que se estende desde a conturbada separação de Tom Cruise, final do ano passado. O desconcertante Luhrmann (Romeu + Julieta, versão pop) promete nova incursão no mínimo original.
Um dos eventos mais dissecados e mediatizados do show businness, esta maratona audiovisual que mistura luxo, frivolidades e arte cinematográfica (a ordem e o peso de cada um são variáveis) está sempre buscando oferecer mais e mais excelência em sua babel de títulos anualmente em cartaz. O que nem sempre é possível, em razão de algumas variáveis - maior ou menor oferta do produto -filme, alternância de qualidade na safra, equívocos na seleção. Este ano comandando o Festival de Cannes pela vigésima-quarta vez, o presidente Gilles Jacob, auxiliado pelo diretor artístico da mostra, Thiery Fremaux, e por outros colaboradores diretos, recebeu para análise e decisão 854 longas- metragens e 994 curtas, 30 por cento a mais que no ano passado. O que autoriza antecipar para Cannes-2001 um nível, se não excepcional, pelo menos satisfatório.
A principal razão para justificar uma expectativa de bom cinema é o déja vu. Diretores veteranos e de comprovada idoneidade artística assinam ponto novamente na Croisette. Uma série de habitués está chegando com suas obras mais recentes 18 filmes vão ser vistos em premiSre mundial , irritando parte da imprensa francesa que preferia mais apostas na diversidade, no risco e na audácia contidos em nomes emergentes. Na lista de 23 nomes eram 22 quando foi anunciada, há quinze dias , há perenes visitantes, como a fraternidade Coen, Ethan e Joel; David Lynch, Shoei Imamura, Ermano Olmi e Nani Moretti. Quase todos, coincidentemente, com Palmas de Ouro na sala de trófeus - o decano Imamura é recordista com duas, A Balada de Narayama (83) e A Enguia (97).
Quem também retorna a Cannes é monsieur nouvelle vague em pessoa, Jean-Luc Godard, agora septuagenário e melancólico, assinando Eloge de LAmour. A jovialidade nonagenária do português Manoel de Oliveira é outra atração, repetindo no filme em concurso sua dupla de atores de O Convento, Catherine Deneuve e John Malkovich.
A Ásia volta com a mesma força da edição 2000: três filmes do Japão, dois taiwaneses e um iraniano. O jovem japonês Shingi Aoyama, aclamado pela crítica no ano passado com o épico p&b Eureka, dirige Desert Moon. Nani Moretti chega com o filme que levou todos os prêmios Davi di Donatello na Itália, em 2000. E pela primeira vez Cannes exibe um filme inteiramente falado em catalão, do espanhol Marc Recha.
Os franceses estão com delegação numerosa - quatro longas em competição, com o veterano Jacques Rivette fazendo as honras. Um quinto filme dos donos da casa é o último Raoul Ruiz, Les Âmes Fortes, fora de concurso e encerrando o festival, dia 20. Em seu terceiro filme, o americano Sean Penn, traz um drama policial envolvendo família, com Jack Nicholson em forma e estilo. Numa escolha quase nada habitual, a seleção escalou o desenho animado Shrek para disputar a honra máxima, quase 50 depois que Peter Pan também concorreu à Palma de Ouro. Outra novidade em concurso é um longa da Bósnia, de Danis Tanovic. E a ausência da Inglaterra a lamentar. A propósito, este ano o Brasil fica de fora não apenas da etapa competitiva, mas também não foi convidado para as paralelas Un Certain Regard (21 longas), Quinzena dos Realizadores (21), Semana da Crítica (7) e curtas-metragens (12)
Como destaques nas sessões especiais programadas estão o novo Apocalypse Now de Coppola, agora com 203 minutos contra os 160 lançados em 79, ano da Palma de Ouro em Cannes. O documentário muito pessoal de Martin Scorsese sobre o cinema italiano, Il Mio Viaggio in Italia. E outro documentário, ABC África, que reúne dois dos mais ilustres cineastas do Irã , Abbas Kiarostami e Moshen Makmalbaf, tentando compreender o fenômeno da AIDS.
Presidido no ano passado por Luc Besson, o júri deste ano terá a presidência da grande Liv Ullman, uma das atrizes mais importantes do cinema e agora também diretora. A personalidade do presidente é sempre decisiva no júri de Cannes. A inclinação de Liv por qualquer título é bastante considerável para determinar um vencedor da Palma. Quem está com ela na tarefa de decidir pelos melhores são as atrizes francesas Sandrine Kimberlain e Charlottte Gainsbourg, a inglesa Julia Ormond, o ator e cineasta Mathieu Kassovitz, os diretores Edward Yang (Taiwan), Mimmo Calopresti (Itália), Terry Gillian (Inglaterra),
A diretora Moufida Tlatli (Tunísia) e o escritor francês Philipe Labro.
Entre outras atividades programadas está uma Jornada da Transmissão, que vai reunir no dia 16 cineastas, críticos, diretores de festivais, de filmotecas e de escolas de cinema. O tema é a transmissão do conhecimento e do amor ao cinema. Uma completa retrospectiva, A Idade de Ouro da Comédia Americana, vai exibir 26 obras realizadas entre 1932 e 1948. Várias homenagens (Vittorio De Sica, Melanie Griffith), exposições e a tradicional lição de cinema, este ano a cargo de mestre Wong Kar-wai, que em 2000 brilhou com In The Mood for Love


