Fiel à desordem climática generalizada, a primavera anda preguiçosa este ano na Europa, com temperaturas mais baixas para o período e para algumas regiões, especialmente as litorâneas. Como a Côte d’Azur, por exemplo, onde se situa Cannes. Mas a partir de hoje, e até o dia 20, é ponto de honra que o sol volte a brilhar e os termômetros somente registrem amenidades meteorológicas. Está começando o Festival Internacional do Filme, a grande festa do cinema mundial, a odisséia de imagens. Na abertura de gala a ser apresentada pela atriz Charlotte Rampling no grande auditório Louis LumiSre, com 2300 lugares, do Palais des Festivals, uma extravaganza do diretor australiano – mas com capital americano da Fox – Baz Luhrmann, o musical ‘‘Moulin Rouge’’. Em competição, o filme traz a primeira presença glamourosa, a atriz Nicole Kidman, ainda atravessando o inferno astral que se estende desde a conturbada separação de Tom Cruise, final do ano passado. O desconcertante Luhrmann (‘‘Romeu + Julieta’’, versão pop) promete nova incursão no mínimo original.
Um dos eventos mais dissecados e mediatizados do show businness, esta maratona audiovisual que mistura luxo, frivolidades e arte cinematográfica (a ordem e o peso de cada um são variáveis) está sempre buscando oferecer mais e mais excelência em sua babel de títulos anualmente em cartaz. O que nem sempre é possível, em razão de algumas variáveis - maior ou menor oferta do produto -filme, alternância de qualidade na safra, equívocos na seleção. Este ano comandando o Festival de Cannes pela vigésima-quarta vez, o presidente Gilles Jacob, auxiliado pelo diretor artístico da mostra, Thiery Fremaux, e por outros colaboradores diretos, recebeu para análise e decisão 854 longas- metragens e 994 curtas, 30 por cento a mais que no ano passado. O que autoriza antecipar para Cannes-2001 um nível, se não excepcional, pelo menos satisfatório.
A principal razão para justificar uma expectativa de bom cinema é o déja vu. Diretores veteranos e de comprovada idoneidade artística assinam ponto novamente na Croisette. Uma série de habitués está chegando com suas obras mais recentes – 18 filmes vão ser vistos em premiSre mundial –, irritando parte da imprensa francesa que preferia mais apostas na diversidade, no risco e na audácia contidos em nomes emergentes. Na lista de 23 nomes – eram 22 quando foi anunciada, há quinze dias –, há perenes visitantes, como a fraternidade Coen, Ethan e Joel; David Lynch, Shoei Imamura, Ermano Olmi e Nani Moretti. Quase todos, coincidentemente, com Palmas de Ouro na sala de trófeus - o decano Imamura é recordista com duas, ‘‘A Balada de Narayama’’ (83) e ‘‘A Enguia’’ (97).
Quem também retorna a Cannes é monsieur nouvelle vague em pessoa, Jean-Luc Godard, agora septuagenário e melancólico, assinando ‘‘Eloge de L’Amour’’. A jovialidade nonagenária do português Manoel de Oliveira é outra atração, repetindo no filme em concurso sua dupla de atores de ‘‘O Convento’’, Catherine Deneuve e John Malkovich.
A Ásia volta com a mesma força da edição 2000: três filmes do Japão, dois taiwaneses e um iraniano. O jovem japonês Shingi Aoyama, aclamado pela crítica no ano passado com o épico p&b ‘‘Eureka’’, dirige ‘‘Desert Moon’’. Nani Moretti chega com o filme que levou todos os prêmios Davi di Donatello na Itália, em 2000. E pela primeira vez Cannes exibe um filme inteiramente falado em catalão, do espanhol Marc Recha.
Os franceses estão com delegação numerosa - quatro longas em competição, com o veterano Jacques Rivette fazendo as honras. Um quinto filme dos donos da casa é o último Raoul Ruiz, ‘‘Les Âmes Fortes’’, fora de concurso e encerrando o festival, dia 20. Em seu terceiro filme, o americano Sean Penn, traz um drama policial envolvendo família, com Jack Nicholson em forma e estilo. Numa escolha quase nada habitual, a seleção escalou o desenho animado ‘‘Shrek’’ para disputar a honra máxima, quase 50 depois que ‘‘Peter Pan’’ também concorreu à Palma de Ouro. Outra novidade em concurso é um longa da Bósnia, de Danis Tanovic. E a ausência da Inglaterra a lamentar. A propósito, este ano o Brasil fica de fora não apenas da etapa competitiva, mas também não foi convidado para as paralelas ‘‘Un Certain Regard’’ (21 longas), ‘‘Quinzena dos Realizadores’’ (21), ‘‘Semana da Crítica’’ (7) e curtas-metragens (12)
Como destaques nas sessões especiais programadas estão o novo ‘‘Apocalypse Now’’ de Coppola, agora com 203 minutos contra os 160 lançados em 79, ano da Palma de Ouro em Cannes. O documentário muito pessoal de Martin Scorsese sobre o cinema italiano, ‘‘Il Mio Viaggio in Italia’’. E outro documentário, ‘‘ABC África’’, que reúne dois dos mais ilustres cineastas do Irã , Abbas Kiarostami e Moshen Makmalbaf, tentando compreender o fenômeno da AIDS.
Presidido no ano passado por Luc Besson, o júri deste ano terá a presidência da grande Liv Ullman, uma das atrizes mais importantes do cinema e agora também diretora. A personalidade do presidente é sempre decisiva no júri de Cannes. A inclinação de Liv por qualquer título é bastante considerável para determinar um vencedor da Palma. Quem está com ela na tarefa de decidir pelos melhores são as atrizes francesas Sandrine Kimberlain e Charlottte Gainsbourg, a inglesa Julia Ormond, o ator e cineasta Mathieu Kassovitz, os diretores Edward Yang (Taiwan), Mimmo Calopresti (Itália), Terry Gillian (Inglaterra),
A diretora Moufida Tlatli (Tunísia) e o escritor francês Philipe Labro.
Entre outras atividades programadas está uma ‘‘Jornada da Transmissão’’, que vai reunir no dia 16 cineastas, críticos, diretores de festivais, de filmotecas e de escolas de cinema. O tema é a transmissão do conhecimento e do amor ao cinema. Uma completa retrospectiva, ‘‘A Idade de Ouro da Comédia Americana’’, vai exibir 26 obras realizadas entre 1932 e 1948. Várias homenagens (Vittorio De Sica, Melanie Griffith), exposições e a tradicional lição de cinema, este ano a cargo de mestre Wong Kar-wai, que em 2000 brilhou com ‘‘In The Mood for Love’’

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