MÚSICA/ENTREVISTA Avante, sempre avante
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segunda-feira, 18 de setembro de 2006
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O palco não parecia grande demais para eles. Na última sexta-feira, em Curitiba, Zélia Duncan e sua banda preencheram o vasto palco do Guairão com maestria. Não chegaram a surpreender, mas fizeram um show competente e enxuto, com um repertório variado como sugere o esdrúxulo título''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band'', que dá nome ao disco e ao show. E para quem estranhou essa nomenclatura para o oitavo álbum da cantora e compositora, ela explicou antes do show, em entrevista coletiva. ''Esse nome é uma provocação. Uma brincadeira com as pessoas que acham que descobriram a pólvora ao inventar um título diferente para fazer a mesma coisa. E na verdade, isso não existe. Ninguém mais inventa nada. Quem inventou a pólvora foi Tom Zé, os Mutantes ou Rita Lee, com a coragem dela'', disse.
''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band'' marca 25 anos de carreira da cantora. Pouca gente sabe ou ouviu, mas antes dela estourar com o hit ''Catedral'', nos anos 90, ela já cantava em bares e boates há mais de dez anos. Na entrevista, ela fala sobre essa experiência, a reinvenção da música brasileira, sua entrada nos Mutantes, o selo Duncan discos e sobre o futuro. Acompanhe as idéias e conceitos dessa carioca, que viveu em Brasília e escolheu São Paulo para morar.
Fale um pouco sobre esse projeto que culminou no disco ''Pré-Pós-Tudo- Bossa-Band''. Desde quando você o prepara e escolhe as músicas desse repertório tão diversificado?
Isso é interessante, porque eu já não lançava um trabalho autoral há quatro anos, talvez mais. Desde o ''Sortimento Vivo'', que era o projeto vivo do ''Sortimento''. Depois eu fiz ''Eu me Transformo em Outras'', onde fui intérprete. Mas eu já estava acumulando coisas há bastante tempo. Na hora de escolher foi difícil porque eu não conseguia abrir mão das músicas. E não me arrependo não: ''Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band'' é um disco inteiro. Dá pra você sentir minha trajetória ali. Eu tentei imprimir, no disco, o máximo das minhas diferenças nos últimos tempos, que foram muitas.
Como aconteceu essa sua paixão pela vanguarda paulistana, que está tão bem impressa agora nesse disco, com músicas de Itamar Assumpção, Alice Ruiz...
Essa paixão vem de muito tempo. A primeira vez que eu cantei uma música do Itamar foi em 1985, em Brasília. Lá tinha uma loja de disco independente chamada Jegue Elétrico e era onde a gente ia pra saber o que estava acontecendo. E eu comprei muitas coisas naquela época, desde Clara Crocodilo até o Beleléu. E eu ouvia toda essa gente e tenho a honra de dizer que já cantei com alguns deles, como o próprio Itamar, como Ná Ozetti, Luiz Tatit. Eu sempre fui muito ligada a eles.
Isso auxiliou sua formação musical?
Sim, eles sempre foram muito consistentes. Até no humor deles eles sempre foram muito inteligentes, então sempre me interessou o que eles estavam fazendo e o que eles fazem até hoje. Agora a gente engrossa esse caldo com José Miguel Wisnik e Monica Salmaso, por exemplo.
E você está compondo mais ou escrevendo outras coisas? Há alguns artigos de sua autoria publicados no seu site. Isso continua ou foi uma fase que já passou?
Artigos eu escrevo de vez em quando. Eu tenho um grande amigo, o jornalista Jamari França, que me pediu pra escrever algumas coisas. Então eu fiz uma entrevista com Itamar que ficou bacana (publicada em seu site www.zeliaduncan.com.br) e escrevi algumas viagens minhas. De vez em quando eu escrevo um pouquinho, mas é modesta essa produção.
E tem algum projeto nesse sentido, um livro talvez...
Ainda não. Eu faço letras na faculdade (cursa o quarto período, na Cândido Mendes). Gosto de ler, escrever. Mas esse semestre eu já tomei bomba graças aos Mutantes, mas ano que vem eu vou voltar. É bom brincar de ser o todo e não ficar tentando ser só a Zélia e ser responsável o tempo todo. Isso cansa e às vezes te tira um pouco do chão.
E como foi sua entrada nos Mutantes, o show em Londres e a temporada fora do País?
Foi muito legal. O show que aconteceu em Londres foi a grande volta dos Mutantes. Foi uma loucura, uma viagem. Eu não esperava nunca que isso ia acontecer. Eu nunca desejei cantar com os Mutantes porque eu nunca pensei que isso fosse possível. Eu sempre admirei os Mutantes pela revolução que eles fizeram na música brasileira. Sou uma fã incondicional da Rita Lee, todo mundo sabe, mas sempre me coloquei como alguém que observa e é influenciado por aquilo, nunca pensei que pudesse participar. Quando o Sérgio (Dias) me convidou pra entrar no grupo, eu liguei pra Rita e ela me deu uma força. Aí eu fui. E agora sou um dos Mutantes, por incrível que pareça. Fizemos agora uma turnê pelos EUA muito interessante. Tocamos em São Francisco num teatro muito tradicional, onde já se apresentaram Janis Joplin, Lez Zepelin, Pink Floyd. Você entra num lugar desses e fica arrepiada. É muito legal brincar de rock a essa altura da minha vida. E junto com isso fazendo tudo o que eu tenho que fazer. Meu disco, minha turnê,o selo pelo qual acabamos de lançar Lucina e também lançamos Alice Ruiz.
Sobre o selo. Você acha que é um caminho natural para o artista que imprime sua identidade, criar um selo próprio? Isso está acontecendo com bastante frequência... O Zeca baleiro, por exemplo, também acaba de lançar o Saravá Discos...
Eu acho que não tem que necessariamente abrir um selo, mas cada vez mais a gente caminha pra ficar independente, mas num sentido mais legal. Porque ser independente no Brasil, infelizmente é ser o mais dependente de todos porque tem distribuição, tem um monte de coisas atreladas. Pelo Duncan Discos eu lancei ''Eu me Transformo em Outras'', Alzira, Alice e a Lucina. O selo é fabricado e distribuido pela Universal, mas só o que eu gravei, as outras coisas não. Daí a gente vai à luta mesmo porque hoje em dia, o que a gravadora devia, que era vender discos, não faz. Ninguém vende disco mais. Elas estão virando distribuidores. E acho que esse é o futuro. A gente precisa cada vez mais tomar pé da nossa carreira. Não existe mais aquele paternalismo de gravadora. Ninguém mais vai vender um milhão em duas semanas. Isso já era. As coisas vão ficar cada vez mais segmentadas, porque eles confinam a gente em rádios segmentadas. Quem vai ficar é quem tem uma carreira. E o mais importante é o show, porque o show vai vender seu disco. Eu hoje faço uma coisa que eu não fazia: eu levo meus discos para o show porque cada vez mais a divulgação das coisas está difícil, o espaço cada vez menor e as rádios cada vez mais comprometidas com o que não é música. E num mundo mais virtual que real, quando a pessoa se propõe a sair de casa, a possibilidade que ela queira te levar pra casa é grande. Então, o disco fica lá, pra quem, impulsionado pelo show, quiser levar.


