MÚSICA/ENTREVISTA - MUTANTE pela própria natureza
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sexta-feira, 02 de fevereiro de 2007
Júlio Maria<br> Agência Estado 
Não havia fé nem no mais ardoroso fã da maior banda de rock do País. Há menos de um ano, o retorno dos Mutantes era sonho. Em abril de 2006, Os Mutantes anunciam o começo de um novo ciclo e o tão esperado retorno aos palcos. O guitarrista Sérgio Dias conta como foi esse recomeço.
É possível a história de uma banda recomeçar de onde parou, há mais de 30 anos?
Agora é outra história, e o curioso é que a gente não fez nada para isso tudo estar acontecendo. Estamos de novo quebrando um tabu, a gente chutou o pau da barraca no mercado musical, provamos que uma banda não precisa de jabá, não precisa de um empresário excepcional, de toda a estrutura para ser reconhecida no mundo.
Você fala de hoje ou do passado?
De hoje.
E isso vale para o passado?
Sim, mas no passado tivemos mais projeção (na mídia) porque tocávamos na TV, no programa do Ronnie Von (''O Pequeno Mundo de Ronnie Von'', na Record). No exterior foi diferente, antes mesmo de tocarmos uma nota estávamos com uma turnê inteira fechada.
A Tropicália caiu como uma luva na carreira de vocês, não?
Olha, na verdade eu acho que a Tropicália caiu como uma luva para a carreira do Gil e do Caetano (risos). Não era isso que dirigia nossa música. Nos juntamos a Caetano e Gil porque achávamos que a música deles era um barato, foi natural, não existia esse conceito que temos hoje de showbiz. A gente carregava todos os equipamentos, montava tudo, não tinha essa história de roadie (ajudante) não.
É impressão ou toda essa história de Tropicália, pra você, não passou de um acaso? Você nem gostava de cantar em português...
Não era a minha mesmo esse negócio de samba, vou ser honesto, não era o meu barato. Agora, o Gil veio com um outro tipo de música, muito mais sofisticada, com harmonias que a gente estava acostumado a ouvir desde criança, com uma profundidade musical que eu pensava: ''Espera aí, isso não é samba.'' A gente até gostava do samba bom, mas não era a nossa tribo. A gente não gostava de tocar samba na guitarra, era chato, a gente veio de uma história antes disso que era só instrumental, The Ventures, Shadows... Só fui começar a cantar depois. O nome Tropicália veio por acaso. Quem criou essa história toda, a pessoa extremamente importante dentro disso, se chama Chacrinha. Ele é o cara, Chacrinha é o tropicalista.
Não se fala de Chacrinha quando se fala em Tropicália.
Pois devem falar mais. Foi ele quem cunhou o termo tropicalismo. O cara era fantástico, sacou a política brasileira e jogou banana para a platéia, jogou bacalhau.
Você falou do nome Mutantes. Quem veio com esse nome não foi Ronnie Von? Não é ele o padrinho?
É padrinho sim, mas por tocarmos no programa dele (''O Pequeno Mundo de Ronnie Von''). O nome veio de um livro do Stefen Wul (''O Império dos Mutantes'').
Sônia Braga, por pouco, não se tornou uma mutante?
Que eu saiba não.
Vocês lêem as biografias que saem sobre vocês?
Leio, mas quando dou de cara com a bobagem, páro na hora.
Vocês foram um dos grupos mais vaiados na era dos festivais da Record ao tocar músicas como ''Domingo no Parque'', com Gil. Ser vaiado, naquela época, era mais importante do que ser aplaudido?
Era um barato, o legal mesmo era mexer com o público. Somos a única banda que conseguiu gravar uma música do Roberto Carlos que não fez sucesso (''Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo''). A gente devastava todas essas coisas. Depois de um show em que éramos vaiados, saíamos rindo pra burro. Eu tenho a gravação da gente assistindo a gente mesmo na televisão e comentando o que estava acontecendo. O Caetano falando ''então me desclassifiquem junto com o Gil'' e a gente morrendo de rir.
A Zélia Duncan, a nova integrante, sofreu naturalmente muitas comparações com Rita Lee.
Entenda o seguinte, a Rita não tem mais nada a ver com a gente, isso é fato. A música dela não tem mais nada a ver com a nossa. A gente eticamente a convidou para participar, ela não quis e acabou.
E se ela tivesse aceitado?
Eu só iria saber o que iria rolar na hora do ensaio. A gente nunca negou a importância da Rita. Eu, particularmente, tenho um enorme carinho por ela, mas é problema meu. Agora, me desculpe, mas não vou ficar dando espaço para quem fica malhando a gente na imprensa, não quero.
Houve uma época em que o rock era necessário para contestação política, em outra era importante para a experimentação. Hoje, os Mutantes existem para quê?
Não acho que não seja mais necessária a contestação política. Veja o Bob Geldof, que fez o trabalho que fez (organizou o Live Aid) e o Mandela acabou sendo solto. A mídia pegou pesado mesmo com relação à África do Sul quando o Bob fez o que fez. O Brasil está precisando um pouco disso, de contestação.


