MÚSICA, UM SANTO REMÉDIO
Para a musicista Regina Constantino, a música pode ser uma grande aliada da medicina. Na Grécia antiga isso não era nenhuma novidade
Silvana Leão
Mário CésarRegina Constantino: ‘‘Está provado cientificamente que o canto gregoriano atenua o stress e aumenta a disposição para o trabalho’’A estreita ligação da música com a medicina não é coisa nova. Na Grécia Antiga, quando alguém adoecia, um músico era chamado junto com o médico. Sábios, os gregos sabiam que tratar da alma de um enfermo era tão importante quanto tratar do corpo. Esta convivência entre arte e ciência permaneceu durante muito tempo, até que, num dado momento, os poderes das notas musicais passaram a ser ignorados pela medicina, e esta passou a valorizar quase que exclusivamente os avanços tecnológicos.
A tendência de humanizar a ciência que trata dos males do corpo, porém, se fortalece a cada dia, e com ela, a intenção de retomar o antigo vínculo com a música. Um exemplo foi a palestra realizada na semana passada no auditório do Hospital Evangélico de Londrina, onde a pesquisadora e musicista Regina Constantino abordou o tema ‘‘Música e Qualidade de Vida’’.
A iniciativa de falar de música a um público formado principalmente por médicos e outros profissionais da saúde partiu da Comissão Científica e de Ensino do hospital, que elaborou uma programação de eventos com o objetivo de fazer com que o médico saia do enclausuramento a que está sujeito no seu dia-a-dia. Além da música, também estão no programa temas como esporte e economia.
‘‘A estreita ligação da música com a medicina já foi comprovada pela musicoterapia, que hoje já é considerada uma especialidade, embora ainda não regulamentada pelo Congresso Nacional’’, lembra o cardiologista Pedro Aloysio Kreling, presidente da Comissão. Segundo o médico, a idéia é passar a usar a música como artifício terapêutico em alguns hospitais da cidade. ‘‘Hoje a maioria dos hospitais tem sistema de som, mas o utiliza apenas para transmitir avisos ou, quando muito, para tocar músicas de rádios FM, sem nenhum critério’’, lembra.
A musicista Regina Constantino diz que a música não deve ter só a dimensão de palco, mas também a dimensão humana. E uma das formas é torná-la uma fonte de comunicação dentro da medicina, uma abertura de contato capaz de promover maior receptividade à terapia médica. ‘‘Atualmente existe um número muito grande de músicas de relaxamento, que poderiam ajudar na recuperação de pacientes’’, afirma Regina.
Ela frisa, porém, que a música em hospitais deve ser ouvida sempre em volume abaixo do normal e intercalada com períodos de silêncio. O paciente também deve ter acesso fácil ao equipamento de som, para desligá-lo se desejar. E segundo a pesquisadora, tão importante quanto a utilização da música como aliada dos tratamentos, é a conscientização de todos os funcionários da importância do silêncio para o bem-estar do paciente. ‘‘É preciso diminuir os ruídos desagradáveis, que mesmo ‘mascarados’ por uma música suave, continuam entrando pelos ouvidos de todos, na forma de ondas sonoras, e incomodando.’’
Em alguns casos, o excesso de barulho pode ser extremamente prejudicial. Trabalho denominado ‘‘Os ruídos hospitalares e a audição do beb꒒, realizado no Hospital Evangélico de Londrina pelas enfermeiras Cristiane Faccio Gomes e Maria Madalena Ferrari Crivari, mostrou que o ruído ambiental da unidade de recém-nascidos ultrapassou os valores aceitáveis. Permaneceu em 69 decibéis, quando o aceitável pela Associação Brasileira de Normas Técnicas são 45 decibéis. Atos como tamborilar na cúpula de acrílico da incubadora e bater a porta pode elevar estes valores para 78 e 96 decibéis, respectivamente.
Regina Constantino vai mais longe, e prega o culto ao silêncio também no dia-a-dia das pessoas. É preciso resgatá-lo e voltar a admirá-lo. Atitudes simples como procurar lugares mais silenciosos - ou simplesmente diminuir o tom da voz - e ouvir determinadas músicas diariamente, por pelo menos cinco minutos, são capazes de melhorar em muito a nossa qualidade de vida. ‘‘Está provado cientificamente que o canto gregoriano tradicional, em latim, é capaz de atenuar o stress e aumentar a disposição para o trabalho’’, exemplifica.

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