Música sinfônica e publicidade
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segunda-feira, 14 de abril de 1997
Abraham Shapiro 
Londrina tem uma orquestra sinfônica. Belo concerto sábado à noite - os sopros continuam um pouco desafinados. Mesmo assim, Schubert foi revivido em sua Inacabada ao contrário dos desacertos na interpretação de sua Grande há alguns meses atrás. As ordas melhoraram muito. Os cellos continuam em desproporção em relação aos violinos. Talvez não quantitava.
Marco Antonio Almeida possibilitou a audição de um lindo Beethoven nº 4 para piano e orquestra. O piano era ruim. Fraco para a força do artista e da composição. Não brilha. Aceita-se a doação de um Steinway - cauda inteira. Serve usado.
O maestro Norton faz um belíssimo trabalho em conjunto com seu maestro-substituto que acumula a cadeira de spalla dos violinos. É visível o progresso. Resultado de qualidade. Está na hora de mostrar o trabalho pelo menos aos vizinhos de Londrina.
Maringá tentou formar uma orquestra. Presidente Prudente, Marília, Bauru, e tantas outras também. Até hoje, nada. A Osuel tem agenda para atender lugares como estes. E por que não festivais internacionais? Com certeza, é só começar. Fará sucesso. Com um pouco mais de trabalho e alguma injeção de capital, a projeção que merece virá.
Ouvi o CD do 16º Festival de Música - ano 96. Maracatu de Chico Rei está ótimo. Mandei dois CDs para amigos músicos no exterior. Quiseram saber onde, afinal, fica Londrina. Que orquestra é essa? - perguntaram. E por falar nisso, aqueles músicos que protestaram realmente não fizeram falta alguma. Interessante, não? Engraçado como ninguém mais tocou no assunto. Eles venceram? Tinham razão, afinal? Se for assim, ficará muito difícil entender o que, na verdade, rola nos bastidores das grandes instituições. Cabia ou não uma punição por parte da Universidade? Por que a população não soube de mais nada? Deixa pra lá... Vai ver, eu é que estou por fora.
O importante é observar que, sem dúvida alguma, o empresariado local tem na orquestra um excelente meio onde fazer investimento publicitário e obter retorno imediato. O município incentiva a cultura com a opção de destinação de até 20% dos tributos municipais tanto de pessoas físicas como jurídicas. Só que a decisão é de cada um.
Quantas cidades brasileiras têm uma sinfônica? O concerto de sábado contou com uma audiência maciça da população culta da cidade. Os que não foram, perderam um concerto histórico. Os jovens eram quase 70%, segundo meus cálculos. As pessoas ficam mais bonitas num concerto, mesmo os homens.
Faltaram poltronas no Ouro Verde. Dá para acreditar? Concerto sinfônico de altíssimo nível. Além dos mestres Beethoven e Schubert, Verdi também foi lembrado com dramaticidade. Os nomes de algumas empresas estavam suspensos no ar, sobre a cabeça dos músicos. Eram cinco ou seis num banner vertical, se não me engano. Parabéns a estes homens de negócios.
Pensava comigo: onde estão os outros? Será que sabem da oportunidade que estão perdendo? Londrina tem empresas grandes que ainda não associaram seus nomes à cultura. Está na hora. Quem já foi à Europa ou à América do Norte sabe que isso funciona. O problema no Brasil já foi superado. Existe público que sabe o que quer. E vejo que todos estão dispostos a retribuir convenientemente àqueles que promovem cultura. O teatro já está lotado de gente que consome. Se durante a audição virem o nome de uma empresa, certamente a comunicação será realizada perfeitamente. O que vem em seguida é a venda. Qual é mesmo o interesse do capitalismo?


