Da Patagônia argentina Juan Crespi e Catalina Sainz que percorrem o Brasil com apresentações de rua estão entre os alunos no Festival de Londrina
Da Patagônia argentina Juan Crespi e Catalina Sainz que percorrem o Brasil com apresentações de rua estão entre os alunos no Festival de Londrina | Foto: Gustavo Carneiro
Desde 1996, os cursos do Festival são presença obrigatória para a cearense Maria Angélica Ellery
Desde 1996, os cursos do Festival são presença obrigatória para a cearense Maria Angélica Ellery | Foto: Natália Perezin

O frio que chegou à casa dos 2°C em Londrina no início da semana passada fez muita gente tirar os casacos mais pesados do guarda-roupa. As baixas temperaturas, cada vez mais atípicas para os moradores do Norte do Paraná, sopraram familiar para Juan Crespi, 38, e Catalina Sainz, 30, músicos argentinos de El Bolsón, município de 13 mil habitantes localizado na Patagônia. Eles estão em viagem pelo Brasil em um motorhome se apresentando pelas ruas das cidades por onde passam.

A programação do Festival Internacional de Música colocou Londrina no mapa do casal. “Temos uma amiga na cidade que comentou sobre o festival. Achamos bem interessante a proposta e resolvemos fazer uma parada por aqui”, contou Juan. No Calçadão Central, o violão de Juan acompanhado da voz doce e da flauta transversal de Catalina chamam a atenção de quem passa. Para eles, o que chama a atenção é a quantidade de roupas. “Esse clima para a gente é primavera mesmo”, brinca, citando o clima rigoroso de onde moram.

Enquanto alguns lançam olhares curiosos, outros param para apreciar. “Mês de festival é uma época que nos permite ter contato com outras culturas. Isso traz vida para a cidade”, comenta o vendedor Sérgio Cardoso. “Gosto de música argentina, principalmente dos tangos antigos, mas ouvi-los pessoalmente é ainda melhor”, comenta Adelaide dos Santos.

Catalina conta que a intenção é permanecer no Brasil até dezembro, percorrendo principalmente o litoral do País. “Queremos mostrar a nossa música, a riqueza da cultura argentina e também aprender mais sobre a música brasileira, que é muito bonita”, elogia. Entre os gêneros brasileiros preferidos do casal está o choro e a bossa nova. Questionada sobre João Gilberto, criador da batida de violão característica da bossa nova, Catalina canta os primeiros versos de “Chega de Saudade”. “É uma música muito conhecida na Argentina”.

Durante a entrevista, Catalina, fã de Hermeto Pascoal, demonstra interesse em músicos do Paraná e diz que vai pesquisar sobre Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e outros nomes da música local. “Em cada lugar que paramos, procuramos absorver ao máximo a cultura e, no nosso caso, principalmente as músicas de cada região”. Juan se mostra ansioso pelo intercâmbio. “O festival recebe músicos de várias partes do País? Para quem toca um instrumento, essa troca é fundamental”, pontua. Os dois permanecem em Londrina até o fim do festival.

Mesmo no Brasil, até de longe é possível perceber que o Festival tem um impacto muito grande. Maria Angélica Ellery é de Fortaleza, no Ceará, e vem a Londrina apenas para o festival desde 1996 em uma média de a cada dois anos. Aos 73 anos, diz que se considera jovem, mas receia que o corpo não esteja tanto assim. Em suas primeiras vindas, fazia as aulas de flauta, mas mudou e atualmente participa das aulas de coro. Aposentada, em sua cidade faz a regência de um coral, voluntariamente, devido ao seu amor pela música.

Para Ellery, o conhecimento adquirido durante o tempo que passa na cidade é muito importante. “Aqui é um centro de difusão do aprendizado e do ensino da música para todo o Brasil. Aqui encontramos gente de todo o país e agora de outros países”, diz. Nas aulas e com as pessoas que tem contato, Ellery diz que a troca de conhecimento é essencial: “A gente troca partituras, aprendizagens e atualizações. A música não é estática, ela está evoluindo. Hoje a importância da música está reconhecidamente comprovada na educação, formação do ser humano, desde a criança ao idoso”, afirma. Ela pontua uma novidade que percebeu na edição deste ano: aqui em Londrina estão regendo com uma batuta, coisa que, para ela, só acontecia nas orquestras. “Lá em Fortaleza, só se rege coral com as mãos.”

Com um olhar mais triste, revela que percebeu a diminuição de cursos, professores e pessoas na organização do festival. “Não podemos deixar este festival acabar, ele é muito importante para o país”, diz. Ao falar isso, lembrou de um aluno de Fortaleza que encontrou este ano em Londrina, e hoje mora em Roraima. Apesar disso, não pensa em parar de participar: “Não vou dizer que já estou no fim porque nunca sabemos quando vamos parar. Enquanto tiver o festival e eu tiver forças, eu pretendo voltar”, diz.

Supervisão de Célia Guerra - editora

Natália Perezin

* Estagiária

O maestro Glenn Block, dos Estados Unidos, já esteve em Londrina em 2013 e 2014, mas este ano é a primeira vez que participa do Festival de Música. Nas primeiras vezes, regeu a Osuel (Orquestra Sinfônica da UEL) e agora está trabalhando tanto com a Camerata Unopar, como dando aulas de regência de orquestra (dentro da programação pedagógica do festival). Ele apresenta “O Carnaval dos Animais”, de Camille Saint-Saëns, com a Camerata Unopar, neste domingo (21), às 10h30, no Teatro Ouro Verde (rua Maranhão, 85).

O maestro está em uma turnê de três meses, regendo em cinco países e 14 orquestras diferentes. Segundo ele, o mundo da música é muito pequeno, porque todo mundo viaja muito e existem desconhecidos que sempre têm um conhecido em comum com ele. Por causa disso, ele já fez grandes amigos na cidade e conhece várias orquestras do Brasil.

Block afirma que ser maestro convidado de orquestras é muito importante porque “traz novas perspectivas, como para um pintor é importante uma paleta com novas cores e tons, isso dá flexibilidade para fazer o trabalho. Como um maestro convidado, eu venho com diferentes abordagens e perspectivas. As orquestras precisam ser flexíveis”, diz. Ele acredita que o festival tem bastante impacto por causa da qualidade das pessoas daqui. “Aqui estão os melhores músicos da cidade”, afirma.

Ele já visitou vários países, regendo e ministrando aulas e, segundo ele, sempre estuda um pouco da história de cada país. As diferenças políticas, sociais e econômicas, avalia, têm influência direta no modo de viver dos artistas. Ele percebe que na América do Sul, a maioria dos músicos depende dos recursos do governo, e quando é preciso cortar gastos, o dinheiro destinado à arte é um dos primeiros a ser suspenso. “Ouvi histórias de orquestras em Buenos Aires e São Paulo que os músicos foram pedidos para cortar gastos, mas eles são as melhores orquestras do continente. Os músicos estão sofrendo com isso. Tem algo sobre isso que quando saio da América do Sul, sempre fico triste”, afirma, lembrando de como o sistema nos Estados Unidos é diferente, em que a maioria das orquestras é financiada por bancos e instituições privadas.

A violinista e professora Carla Rincón nasceu na Venezuela e está participando do Festival de Música pela segunda vez. Ano passado, se apresentou com seu quarteto de cordas. Dessa vez, foi ao palco do Bar Valentino com o Iroko Trio, com arranjos próprios, valorizando a música latino-americana. Além disso, está realizando um trabalho com a Camerata Unopar. Formada pelo El Sistema na Venezuela, que traz uma forma didática de aprender música, Rincón traz novas perspectivas aos alunos. Uma das sugestões que deu - e foi acatada - é a realização de provas com os alunos da Camerata. Ela também afirma que suas aulas são construtivistas, em que os alunos participam de forma vertical da aula de modo que busquem o conhecimento por motivação e não medo. “Para que o aluno tenha um aprendizado positivo e de extrema alegria, é preciso que aprenda por meio das emoções”, complementa.

Ao lembrar dos modelos de ensino de música erudita, Rincón faz uma crítica ao Brasil: “Aqui é preciso modernizar o ensino de música, modernizar as universidades e ensinar o artista a empreender, ser seu próprio produtor, se inventar, ser criativo. A música popular brasileira faz um pouco disso” diz. Segundo ela, modernizar não é incluir nas orquestras músicas populares, é mais uma questão de princípios. “O músico erudito precisa de mais humildade. Temos que manter interesse na música clássica e honrar a música do país, algo que acontece pouco no Brasil”, afirma.

Rincón diz que adora o perfil do festival justamente por ter um caráter mais social. “Muitos instrumentistas que vêm são formados de projetos sociais, no festival há aulas coletivas, diferentemente de conservatórios e universidades”, diz. Para ela, a importância do festival é grande, porque considera o intercâmbio internacional fundamental para o aprendizado.

“Como um maestro convidado, eu venho com diferentes abordagens e perspectivas”, diz o americano Glenn Block
“Como um maestro convidado, eu venho com diferentes abordagens e perspectivas”, diz o americano Glenn Block | Foto: Divulgação
Violinista e professora, a venezuelana Carla Rincón vem a Londrina pela segunda vez
Violinista e professora, a venezuelana Carla Rincón vem a Londrina pela segunda vez | Foto: Divulgação
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