MÚSICA Qual o melhor depois do fim?
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sábado, 28 de fevereiro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Qual o melhor álbum dos Beatles? A resposta para a pergunta, feita incontáveis vezes por dezenas de publicações ao redor do mundo, gira quase sempre em torno dos mesmos títulos. Invariavelmente, as preferências recaem sobre ''Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band'', com pilhas de votos distribuídos também para ''Revolver'' e ''Álbum Branco''.
Mas qual o melhor álbum pós-Beatles gravado pelos fab four? Que disco lançado por Paul McCartney, John Lennon (1940-1980), George Harrison (1953-2001) e Ringo Starr em suas respectivas trajetórias-solo mereceria postar-se lado a lado entre os títulos clássicos do grupo e até figurar no panteão dos grandes de todos os tempos da história do rock?
A banda, como se sabe, acabou oficialmente em 1970. De lá para cá, contudo, os filhos mais ilustres de Liverpool (Inglaterra) nunca deixaram de criar novas composições abastecendo o mercado com repertórios próprios. A Folha 2 foi atrás de alguns beatlemaníacos de Londrina para conversar sobre o assunto. Curiosamente, os entrevistados passaram longe da unanimidade escolhendo diferentes títulos como o melhor da safra individual do quarteto britânico.
Dos álbuns eleitos, só a discografia de Ringo Starr foi ignorada. O micro-empresário Adilson Alves Moreira, 38 anos, é fã desde criança dos Beatles graças aos discos adquiridos por seu irmão mais velho. Na adolescência, começou a montar sua própria coleção levando adiante a beatlemania presente na família. A pedido da reportagem, escolheu o álbum ''Band on the Run'' (1973), de Paul McCartney, como o melhor de todos os títulos gravados pelos músicos após a dissolução do grupo.
''Todas as músicas desse disco poderiam estar num álbum dos Beatles. Algumas faixas lembram sua ex-banda, outras trazem um som bem pessoal. O estilo dominante é o pop-rock'' afirma. Adilson lembra que os cinco primeiros álbuns de McCartney (''The Family Way'', ''McCartney'', ''Ram'', ''Wild Life'' e ''Red Rose Speedway'') desagradaram à crítica, embora tenham sido bem recebidos pelo público obtendo grande êxito comercial.
''São discos mal-acabados, indefinidos e irregulares'' diz. ''Por isso, Paul tinha que acertar, não podia errar nesse trabalho. E 'Band on the Run' é homogêneo, bom de cabo a rabo. Eu o considero o 'Sgt. Peppers...' (referência ao clássicos dos Beatles) de sua carreira-solo. Não por causa do experimentalismo, mas por causa da repercussão positiva entre os críticos. Depois de lançá-lo, Paul decolou na mídia''.
Também fã de Paul, o professor de inglês Sidney de Oliveira, 37 anos, concorda que ''Band on the Run'' seja um grande disco, mas ao ser abordado pela reportagem elegeu ''Tug of War'' (1982) como o melhor do artista e de todos os álbuns gravados pelos quatro músicos na fase pós-Beatles. ''O Paul sempre foi conhecido por ser um grande melodista e um letrista sem muito talento. Nesse disco, porém, ele reuniu ótimas melodias e letras muito boas'' argumenta.
O trabalho contou com a ajuda de dois ilustres colaboradores dos Beatles: o produtor George Martin e o engenheiro de som Geoff Emerick. Além disso, teve a participação de Ringo Starr, Carl Perkins, Stanley Clarke e Stevie Wonder. Este último canta em ''Ebony and Ivory'', megasucesso que fazia alusão às teclas pretas e brancas do piano e à união das raças negra e branca.
Sidney assinala que ''Tug of War'' foi o primeiro álbum de Paul após a morte de Lennon. ''A melhor faixa do repertório é justamente ''Here Today'', uma homenagem ao ex-parceiro, tocada ao violão e com orquestração'' sublinha. Ele conta que virou beatlemaníaco após a repercussão provocada pela morte de John Lennon, em 1980. A paixão foi intensificada ouvindo o locutor Salú na rádio Paiquerê FM.
''Ele sempre iniciava seu programa à tarde com músicas dos Beatles. Depois, quando me tornei locutor (da rádio Folha FM), adotei a mesma fórmula'' lembra. A admiração pela música dos fab four levou-o a aprender o idioma dos ídolos. ''Queria saber o que eles cantavam. Acabei virando professor de inglês'' conta. Hoje, Sidney ostenta uma coleção de 2 mil CDs dos Beatles, incluindo dezenas de raridades com gravações piratas de shows.
Também dono de uma discoteca respeitável da banda, o profissional de marketing Fernando Boer, 25 anos, é outro que aponta Paul McCartney como o beatle de carreira-solo mais consistente, ressalvando seus altos e baixos. Para a reportagem, contudo, pinçou da coleção o álbum ''Imagine'' (1971), de John Lennon. ''É um álbum excelente'' afirma.
''Traz 4 ou 5 faixas compostas na época da banda. Metade do disco foi gravada com George Harrison na guitarra. As letras estão afiadas, falando bastante de sua vida pessoal. Uma delas, 'How Do You Sleep?' ataca Paul porque na época eles estavam brigados''. O álbum explodiu nas paradas. A faixa-título, uma balada utópica, transformou-se num clichê pacifista com o passar dos anos. ''Jealous Guy'', outro sucesso do disco, é considerada por muitos críticos a melhor canção escrita por Lennon sem McCartney.
Apesar da empolgação ao falar de ''Imagine'', Boer observa que há sempre uma ''ausência'' pairando sobre os álbuns gravados pelos músicos após a extinção da banda. ''A gente escuta qualquer disco-solo deles e sente a falta dos parceiros. Quando ouvimos o estilo agressivo do Lennon, por exemplo, sentimos falta da melosidade do Paul e vice-versa'' diz. Boer lembra que o entusiasmo pelos Beatles surgiu na infância, sob o impacto de um show de John Lennon assistido na televisão.
''Eu tinha uns 8 ou 9 anos. Fiquei fascinado. Passei a ler e acompanhar tudo sobre os Beatles'' revela. Já para o vendedor de material de construção, Humberto de Almeida, 52 anos, a descoberta da banda veio na adolescência quando ainda morava em Paranavaí (noroeste do Paraná). De lá para cá, fez e desfez coleções de discos ao sabor das oscilações orçamentárias domésticas.
O quarteto de Liverpool, todavia, nunca deixou de ser seu grupo de rock predileto. Convidado pela reportagem, elegeu o álbum-triplo ''All Things Must Pass'' (1970), terceiro projeto-solo de George Harrison, como o melhor da fornada-solo dos ex-componentes. ''É um disco extraordinário, mesclando sons pesados com melodias. Traz canções como 'My Sweet Lord' e 'What's Life', que estão no mesmo nível de 'Something', 'Heres Comes The Sun' e 'Mr. Taxman', as faixas antológicas que ele compôs nos Beatles'' diz.
Muitas das 23 músicas, aliás, foram gestadas durante os bons tempos de grupo, mas acabaram eclipsadas pelas composições de John e Paul. O álbum trazia como bônus o LP Apple Jam e vinha acondicionado num box com um livreto e pôster, o que para a época era uma inovação. As sessões de gravação contaram com diversas participações especiais, entre elas Ringo Starr, Eric Clapton, Dave Mason, Billy Preston, Bobby Keys, Gary Brooker, Klaus Voorman e integrantes da banda Badfinger.
O lançamento ocorreu sete meses após o anúncio oficial da dissolução da banda.


