Música para pensar
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O mar da tranquilidade em que a indústria fonográfica brasileira se transformou para segmentos da música comercial vez ou outra enfrenta chuvas e trovoadas, provocadas por quem se recusa a compactuar com melodias fabricadas para o sucesso. Vivendo em Los Angeles desde 1989, Dori Caymmi vê com receio o cenário musical do Brasil. Compositor, instrumentista, arranjador e cantor, Caymmi está lançando no País Cinema A Romantic Vision, uma homenagem a Henry Mancini repleta de trilhas sonoras conhecidas.
Meticuloso mas espontâneo, o trabalho aproxima composições como Pink Panther (Mancini) e Cinema Paradiso (Andrea e Ennio Morricone) da música brasileira, costuradas em harmonias regidas pelo violão. Defensor confesso da qualidade e originalidade das composições nacionais, Dori Caymmi está no Brasil divulgando o CD que por aqui saiu pela Atração Fonográfica. Enquanto fala com alegria da novidade, ele não poupa críticas ao comércio que tomou conta do musicalidade do País.
Cinema A Romantic Vision surgiu durante uma homenagem em que Caymmi interpretou algumas peças compostas para o cinema. Na platéia estava o diretor Robert Altman, que ficou entusiasmado com a apresentação e elogiou o brasileiro. O elogio virou um projeto que em pouco tempo foi concluído.
O álbum contou com um time de feras que inclui Carmen Brandford, Abraham Laboriel, Michael Shapiro e Paulinho da Costa, entre outros. Enquanto cuidava do lançamento do CD no Rio de Janeiro, Dori Caymmi concedeu a seguinte entrevista à Folha2, por telefone:
Como foi a escolha de repertório para um disco que homenageia Henry Mancini e, por consequência, o próprio cinema?
Tive que sentar sozinho e ver quais eram as músicas que se adaptariam ao meu modo de pensar a música. O Mancini teve muita importância na minha puberdade musical. Fui fazendo o disco e descobri que se passasse todos os arranjos para as cordas o projeto ia sair bem caro. Portanto, nas sete ou oito primeiras faixas deu para arranjar legal, com bastante cordas. As outras músicas ficaram mais simples. Depois de dois ou três meses, fomos para o estúdio gravar. Se você pensar muito, acaba gastando dinheiro. Eu faço música instrumental e tenho que ser realista.
As interpretações ficaram bem personalizadas.
Ficou muito com a minha cara, é o Dori. Quando toquei aqui no Brasil foi uma choradeira geral, porque acrescentei meu repertório brasileiro, com coisas do Tom Jobim, e as pessoas se emocionaram. Eu mexi na harmonia dele... Eu encontro algumas soluções. Mas não releio nada, não gosto desses termos: releitura, resgate. Eu gosto de acordes e não estou preocupado em ganhar dinheiro.
O lançamento repercutiu?
A viúva do Mancini ficou emocionada, disse: Que coisa maravilhosa. Ele recebeu poucos tributos assim em vida. São coisas gratificantes. Agora, para ganhar dinheiro, tem gente fazendo axé e pagode. As pessoas não têm sensibilidade para encarar a música como uma coisa pensante. São poucas as pessoas ligadas no meu tipo de trabalho.
Como você cria seus arranjos?
Mantenho contato com pessoas maravilhosas, como o Winton Marsallis e a Natalie Cole, é um contato de alta sensibilidade. Trabalho os arranjos já visualizando quem eu quero em cada instrumento. Tem o Paulinho da Costa, o Abraham Laboriel... O Paulinho da Costa faz um trabalho incrível, que não tem a alma de exibição do percussionista. Os dois maiores percussionistas são ele e o Airto Moreira, que é de uma criatividade difícil de analisar. O Paraná deveria homenagear o Airto uma vez por mês (Airto Moreira viveu em Ponta Grossa e Curitiba). No Sul há uma herança de imigrantes europeus muito grande, o folclore daí é todo europeu na base. O Airto tinha que ser nome de rua aí.
Como anda a música brasileira?
De péssima qualidade, a música está perdendo a nacionalidade, o lado patriótico está sendo assassinado. Esse fenômeno da porcaria contamina o mundo inteiro e foi organizado dentro das grandes gravadoras. E esse mercado irreal prevalece com esse tipo de música. E as pessoas curtem esse negócio com todo o direito. Mas lamento que isto colabore para a descaracterização do folclore. Acho que isso foi tramado e surgiu efeito, foi criado o clipe e essa grosseria se espalhou pelo mundo inteiro. O clipe é um negócio feito para disfarçar música feia.
Mas existem exceções...
Minha música não precisa disso porque fala do Brasil. Temos alguns grandes heróis que mantêm a dignidade, como o Chico Buarque e o Edu Lobo, que ficam marginalizados, não acompanham a mídia, não cedem o terreno de seu talento. Mas existem compositores importantes que viraram pop para sobreviver. Eu ando na rua e ninguém sabe quem eu sou. Mas certas pessoas gostam do sucesso, a música é um pouco isso, e elas mudam a orientação musical neste sentido abrindo um tremendo buraco.
E ficam num limite tênue, perto de descambar de vez.
Pior é abrir o caminho para a garotada que vai atrás e faz a cagada. Não dou importância ao que eles chamam de rock brasileiro porque não tem característica de Brasil. Isto não funciona na minha cabeça. Aí dizem que eu sou retrógrado. Não tenho inveja do sucesso dessas pessoas, não tenho uma bandeira levantada contra a música de ninguém. Mas acho que elas podiam ajudar.
Quando você vai se apresentar no Sul?
No ano que vem estou pensando em fazer uma excursão pelo Brasil. Eu tenho saudades de tocar no Guairão, no Guairinha, e no Paiol em Curitiba. Para Londrina eu nunca fui. Pretendo também ir a Porto Alegre e a Santa Catarina.
Quais são seus próximos projetos?
Eu tinha um projeto que esse disco novo atrapalhou. Estou pegando os compositores de minha geração, quero examiná-los para fazer um disco chamado Contemporâneos. As 14 músicas que eu gostar mais vou colocar no álbum. Ou faço bem simples ou coloco conjunto e orquestra. Mas um artista sem nome como eu não tem verba. Também tenho a idéia de pegar o pessoal mais antigo, como o Bororó, Pixinguinha, Noel Rosa, meu pai (Dorival Caymmi), Ary Barroso, Lamartine Babo, Lupiscínio Rodrigues e o Tom Jobim. São discos que estou preparando com cuidado, com calma, talvez até fale com o Quincy (Jones).Dori Caymmi dispensa futilidades e aposta na seriedade em Cinema A Romantic Vision, disco em homenagem a Henry Mancini
Arquivo FolhaDori Caymmi: celebração da música composta para o cinema e críticas à indústria fonográfica e ao videoclipe





