Música para os ouvidos do mundo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 16 de setembro de 1998
Carlos Augusto Oliveira Especial para a Folha2 
O rótulo world music é tipicamente norte-americano. A música que não é pop, rock, country, jazz, blues, rap ou rhythmn blues é a música do mundo. Eles ainda abrem uma exceção para o que chamam de música latina, incluindo aí os mariachis mexicanos, a salsa cubana e outros ritmos calientes, principalmente do Caribe. O resto é world music.
ReproduçãoCapa do CD de Celtic Magic - seleção de músicas folclóricas irlandesasE não há diferença entre Milton Nascimento e Ali Farka Touré, entre os Andes e o Himalaia, entre a música folclórica alemã ou italiana. Já o nosso olhar, o olhar brasileiro para o mundo, proveniente da periferia, distingue outros matizes. Conseguimos diferenciar entre música étnica (a música original das tribos do mundo) e a world music (a apropriação pelo centro da música e dos instrumentos da periferia). Mas caímos em outra armadilha - acabamos misturando tudo em outro pacote com o rótulo de new age.
É compreensível. Afinal, estamos à beira do novo milênio e moramos no país do Paulo Coelho.
ReproduçãoCapa do CD New Millenium Ethnic - Worldbeat from ItalyA gravadora Paradoxx Music está lançando pelo seu selo Neworld mais um pacote desses, rotulado de world music/new age. São cinco CDs, sendo que dois são coletâneas de vários artistas.
A primeira delas traz uma amostragem do cast da gravadora americana Green Linnet Records e nos apresenta uma seleção de música folclórica irlandesa. Chama-se, é claro, Celtic Magic e conta com os indefectíveis vocais femininos do tipo mamãe-eu-queria-ser-Enya, gaitas de fole irlandesas, rabecas, bouzoukis, flautas, letras em gaélico e todo aquele clima duende-bruxa-e-fada.
ReproduçãoCapa do CD de Jamshied Sharifi -
A Prayer for the Soul of LaylaNão, não é ruim. Pelo contrário - tem coisas bem bacanas, como as bandas Capercaillie em duas faixas e Déanta em outras três, como Patrick Street ou John Whelan com suas baladas bastante agradáveis. É um disco apropriado também para criar um outro clima igualmente imaginário (pelo menos em países tropicais), do tipo lareira-vinho-incenso.
A outra coletânea vem da Itália, da gravadora Compagnia Nuove Indye. É intitulada New Millenium Ethnic e traz a fusão da música italiana tradicional com a música feita em toda a região do Mar Mediterrâneo, tudo muito bem produzido e com uma roupagem moderninha, com arranjos dub, trance, ambient ou jungle. E com o atraente rótulo worldbeat from Italy. Bacana, não? O clima aqui já é mais after hours, fim-de-festa, quero-dançar-mas-tô-cansado. Dois destaques: a banda KlezRoym, que moderniza a música klezmer, a música tradicional das comunidades judaicas radicadas nos países do Leste Europeu, utilizando inclusive o ídiche e o hebraico sefardita em suas letras. E a banda Nidi DArac, que mistura a velha tarantela com batidas hip-hop e efeitos eletrônicos quase techno. É a mais dançante do disco, mas soa engraçado para quem não tem pelo menos um bisavô italiano.
Em relação aos CDs individuais, o melhor deles é o de Gerardo Nu¤ez, Calima. E o fato deste disco estar incluído numa série dedicada à new age/world music só se justifica por aquele olhar arrogante e autocentrado dos norte-americanos de que falamos acima. Pois este é um excelente disco de violão flamenco. E é também o segundo CD de Nu¤ez por este mesmo selo no Brasil.
ReproduçãoCapa do CD Calima,
de Geraldo Nu¤ezGerardo Nu¤ez é um dos mais importantes violonistas da Espanha. Seu trabalho é totalmente voltado para a música flamenca, sendo o atual acompanhante da Companhia de Danças de Carmen Cortés, de Madri. As contribuições estrangeiras a seu trabalho neste disco apenas somam, sem alterar a essência andaluza de sua música. O contrabaixista John Patitucci (surpreendentemente contido) e o pianista Danilo Pérez dão um colorido jazzy a algumas faixas, enquanto que o duo de violões formado pelo porto-riquenho Jorge Strunz e pelo iraniano Adeshir Farah transformam a faixa Sancti Petri num autêntico duelo de criatividade e habilidade técnica.
O CD da banda Baka Beyond é o que mais se aproxima do rótulo world music. A banda é formada por músicos do Reino Unido, França, Senegal e Gana e pesquisa os possíveis elos comuns entre as tradições musicais do Norte da Europa e do Oeste da África.
O compositor e guitarrista Martin Cradick e sua esposa, a vocalista Su Hart conviveram com a tribo Baka, pigmeus que habitam a região entre o Congo e Camarões. Levaram uma barraca, um violão e um equipamento de gravação e viveram de acordo com todos os rituais da tribo para aprender suas canções. Este material serviu para dois discos. Um, de estúdio e chamado Spirit of the Forest e o outro exclusivamente com as gravações feitas no local e chamado Heart of the Forest.
ReproduçãoCD Journey Between,
da banda Baka BeyoundO disco seguinte - The Meeting Pool - trouxe um leque maior de idéias e estilos embora ainda centrado na estética Baka. E este novo lançamento, Journey Between, mostra mais claramente as raízes celtas de Craddick e do violonista bretão Paddy Le Mercier, mesmo naquelas faixas de inspiração senegalesa ou onde o espírito Baka permanece. É interessante lembrar que os cantos desta tribo africana, pouco contaminada pela colonização branca, já serviram de base para os músicos franceses da banda Deep Forest, a partir de gravações feitas para a Unesco. O Baka Beyond é uma banda bem interessante, que vai agradar tanto aos que gostam da música folk britânica como aos que apreciam a percussão africana e a sonoridade de instrumentos, digamos, exóticos.
Uma rápida lida no release distribuído pela gravadora fez com que o CD A Prayer for the Soul of Layla, de Jamshied Sharifi, se tornasse o mais interessante deste pacote. Filho de iranianos e criado em Kansas City, Sharifi cresceu sob a influência da música do Oriente Médio e do jazz. Formou-se e tornou-se professor do Berklee College of Music. Nos anos 80 mudou-se para Gana onde mergulhou nas tradições musicais africanas e reconectou-se com a música de seus pais.
Como tecladista utiliza um controlador de respiração que lhe permite tocar os sintetizadores como se fossem um instrumento de sopro. Junte-se aos teclados a percussão africana, instrumentos como a flauta marroquina, a harpa beduína, o oud, o shamisen e mais vocais etéreos e um misticismo intenso e difuso, ainda de acordo com a gravadora, teremos no pacote o disco que mais se aproxima do que conhecemos como a música da nova era. Deve ser excelente como trilha sonora para meditação, pois apesar dos diversos timbres e climas presentes no CD, muitos deles realmente belos, raramente há um momento de excitação como aqueles causados por um solo inspirado de um músico criativo.


