Embora bastante reconhecido no meio musical, pouca gente conhece o envolvimento do arranjador, regente, pianista e compositor Wagner Tiso com outra arte pela qual é apaixonado: o cinema e suas trilhas sonoras.
Amigo de infância de Milton Nascimento, Tiso é lembrado por seu envolvimento com o Clube da Esquina e parcerias com gente do calibre de Gonzaguinha, MPB-4, Dominguinhos, Johnny Alf e Paulo Moura, além do próprio Milton.
Mas paralelamente ele vinha compondo para a tela grande há muito tempo. A primeira trilha é de 1969, para o filme ''Deuses e os Mortos'', de Ruy Guerra. Depois da estreia, os trabalhos musicais na Sétima Arte se multiplicaram rapidamente: ''Vida de Menina'', ''O Guarani'' e ''A Ostra e o Vento'' são apenas alguns dos exemplos de belas composições de Tiso feitas especialmente para as películas.
Mas, se esses filmes não são exatamente 'acessíveis' para o grande público, o caminho para chegar às trilhas é mais fácil. Lançado no final do ano passado, o disco ''Outras Canções de Cinema'' traz uma pequena seleção escolhida a dedo pelo músico, e gravada com a participação especial do violoncelo de Marcio Malard.
O álbum reúne canções de seis filmes diferentes, selecionadas, segundo o músico, ''de memória, escolhendo pela qualidade da música ou pela importância dos personagens''. Traz ainda duas faixas extras, chamadas apenas de Canção 1 e Canção 3, que, embora sejam especialmente bonitas, jamais foram usadas em filme. ''Ainda não tiveram espaço. Futuramente, penso que posso usá-las em algum filme'', planeja Tiso.
Nesta entrevista exclusiva para a FOLHA, Wagner Tiso fala sobre seu processo criativo e a importância de uma boa trilha sonora.
Como funciona seu processo de composição de trilha sonora?
O processo de fazer uma trilha é longo. Primeiro, eu recebo o convite do diretor; ele me liga e me manda uma sinopse. Se eu ficar interessado em trabalhar em cima do tema do filme, nós partimos para discutir o roteiro, que inclui os personages, o tipo de cada personagem, as cenas de humor, de tensão, de isso e daquilo; e com isso eu vou criando as coisas na minha cabeça. Quando trabalho em alguns filmes que têm mais verba, vou até o set também, para sentir bem o clima da produção. Isso acontece principalmente quando trabalho com o Walter Lima, que é muito ligado às trilhas de seus filmes. Depois de todo esse processo é que começa a fase de estúdio, que é quando eu vou 'minutar' cada cena, cortar no momento certo, dependendo da situação do filme.
Eu penso que deve ser muito importante 'sentir o filme' antes de criar uma trilha, certo? Pesquisar os personagens e as cenas?
Com certeza. Se você não se envolver completamente na produção, a música perde o ponto certo. E também é preciso prestar atenção ao tamanho da música. Com uma mesma canção, você pode trabalhar vários arranjos, diversos tamanhos, muitos climas, vários tipos de formação.
A minha impressão, quando ouço o disco, é de que cada uma das faixas te leva para um lugar diferente, uma outra cena...
Exatamente. É isso mesmo. A música ali não é nem para me agradar; é para compor o filme, agradar o diretor, agradar o cara que está assistindo ao filme. Nesse álbum, escolhi mais cenas 'de personagem' do que cenas de 'situação'. As faixas selecionadas não têm muita característica de serem cenas de tensão, humor, drama, etc.. mas sim um tema de personagens. As músicas são definidas pelo caráter do personagem.
A trilha pode mudar sentido da cena completamente...
A música te leva para mostrar o que está escondido no filme. É ela que define o clima da cena. Apenas imagens não são o suficiente.
Existe algum projeto de trilha para filmes - das escolhidas ou que ficaram de fora do álbum - que te marcou em especial?
Geralmente, fico mesmo ligado na música que estou compondo no momento. Todo filme que eu vou fazer a trilha, eu entro de cabeça. Mas o envolvimento depende muito do diretor; existem diretores que se envolvem mais, e tem outros que te dão uma liberdade maior para criar. De qualquer maneira, o meu envolvimento é muito grande. No filme ''Jango'', que é a história do João Goulart, fiz duas músicas que ficaram muito conhecidas, especialmente ''Coração de Estudante'', tema do filme. A música chamou a atenção do Milton Nascimento, que pediu para fazer a letra. Antes disso, o nome era apenas ''Tema de Jango''.
Como surgiu essa sua relação íntima com as trilhas de cinema? Como o senhor começou a trabalhar com isto?
Quando eu era criança, a minha cidade de Três Pontas, no Sul de Minas, era a única cidadezinha da região que tinha o famoso Cinemascope. Foi ali que eu comecei a assistir a bons filmes, e lembro que ficava muito impressionado com a música dos clássicos, como Ben-Hur. Ouvia aquela super orquestra, em estéreo, e pensava ''nossa, um dia quero fazer um negócio desses''. Eu componho pensando em cenas, e é assim que crio as músicas. Acho que, em certo ponto da minha carreira, os diretores de cinema começaram a sentir que a música que eu fazia poderia ser casada com imagens, porque ela sempre foi mesmo parecida com trilha de cinema. Eles começaram a me convidar, e deu certo.
Qual a maior diferença que o senhor sente na produção de trilhas para o cinema nos anos 70 e nos dias de hoje? É possível afirmar que, hoje em dia, existe um cuidado maior na produção nacional de trilhas?
A qualidade das trilhas sempre foi muito alta mas, hoje em dia, existe uma preocupação maior em criar uma trilha mais 'competitiva'. O cinema nacional, como um todo, ficou mais competitivo internacionalmente. Antes, o filme brasileiro era apenas exibido aqui. Hoje em dia, o cinema brasileiro está sendo exibido em Nova York, em Cuba, no México, então é muito mais competitivo. Os diretores também sabem que é exigido um mínimo de qualidade para a trilha. O Almodóvar, por exemplo, só começou a ser reconhecido internacionalmente depois que começou a investir em trilhas sonoras de qualidade. Para o filme ser realmente bom, é indispensável uma boa trilha. Antigamente, a trilha sonora do cinema brasileiro era feita com o dinheiro que 'sobrava' na produção. Hoje, já está tudo previsto no orçamento.
O senhor está trabalhando em algum projeto para o cinema ou televisão atualmente?
Não estou pensando em compor nada para o cinema atualmente. Estou fazendo várias turnês, e tenho trabalhado direto com Orquestras Sinfônicas das capitais; ainda vou passar por Aracaju, Recife, Campos, Teresina.
Existem planos para lançar, no futuro, outras coletâneas como esta do ''Outras Canções de Cinema''?
Eu gosto muito de trabalhar com orquestras. Em princípio, o projeto do ''Outras Canções'' era de fazer os meus temas principais acompanhado com Orquestras Sinfônicas, mas a minha gravadora, Biscoito Fino, não conseguiu levantar o dinheiro para isto. Então acabei fazendo um projeto menor, escolhendo algumas músicas de personagens e convidando o Marcio Malard para tocar comigo. Talvez eu lance um segundo disco parecido com ''Outras Canções'', com outras trilhas, mas ainda tenho planos de gravar um álbum acompanhado de orquestra, com meus temas principais.

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