DANÇA MÚSICA PARA OS OLHOS Vladimir Vasiliev, um dos maiores bailarinos do século, considera a dança a arte de tornar a música visível Agência FolhaPara Vladimir Vasiliev o que move o bailarino é o desejo de ser o melhor Joel Gehlen De Joinville Especial para a Folha2 O diretor-geral do Teatro Bolshoi de Moscou, Vladimir Vasiliev, que está no Brasil para a inauguração de uma extensão da Escola do Teatro Bolshoi em Joinville, é um dos maiores nomes da dança nesse século. Vasiliev é um ídolo na Europa e nos Estados Unidos, curiosamente, dançou uma única vez no Brasil, em Curitiba, no ano de 1978. Com menos atuações fora da União Soviética, Vasiliev acabou tendo um reconhecimento menor que seus conterrâneos Mikhail Barishnikov e Rudolf Nureyev. Apesar de ofuscado no Ocidente, é tão importante para a dança quanto os outros dois. Vasiliev ingressou no Bolshoi em 1949, como estudante da escola coreográfica do teatro, onde se formou em 1958, ingressando imediatamente na companhia. Ali conheceu sua grande partner, Ekaterina Maximova, outro expressivo nome da dança russa, com quem se casou, formando uma das mais fantásticas duplas de bailarinos. Juntos, dançaram todos os principais papéis do balé clássico. Em 1960 a força e o lirismo da peça ‘‘Spartacus’’, (Grigorovitch/Katchaturian) montada pelo Balé Bolshoi, deu a Vasiliev e a Ekaterina os elementos para expressarem seu talento e técnicas incomparáveis, colocando-os no Olimpo da dança clássica do século. Ao deixar a carreira de bailarino, em 1995, foi nomeado pelo presidente russo Boris Yeltsin diretor do Teatro Bolshoi. Em Joinville, Vladimir Vasiliev recebeu a Folha para uma conversa que teve o empresário João Prestes – um dos principais artífices da instalação da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil – e sua supervisora, Jô Braska Negrão, como intérpretes. Na entrevista, Vasiliev se mostrou surpreendentemente disposto a falar sobre arte, cultura e seus primeiros paços na dança, uma profissão que considera igual a outra qualquer. Vasiliev é um russo em sua forma mais autêntica: afável sem ser bonachão, as faces com uma austeridade escarpada na barba rala e nos cabelos em tom de pérola. Nessa conversa deixou entrever muito mais o homem que o mito. Sem subterfúgios, foi sempre muito objetivo nas suas respostas. Sua visão da arte é absolutamente simples e prática. O senhor encara a dança como uma profissão exatamente igual a outra qualquer, um pedreiro, lavrador? Sim. Em todas as profissões há um elemento de criação. Mas, no Brasil, as artes são atividades para poucos... Tudo bem, o homem sempre tem o desejo de se tornar um eleito, cada um quer ser único, diferente do outro, este é o estímulo fundamental. Agora, a arte é compreendida por todos quando é verdadeira. Quando numa obra de arte você tem, em conjunto, sentimento, emoção, sentido e forma, todos a compreendem. Agora, frequentemente, o que você encontra é só forma atraente, o que é interessante só para o profissional. Às vezes os sentimentos saltam à vista e um número maior de pessoas consegue compreender, mesmo vendo um forma imperfeita. Mas a manifestação superior da arte é quando se consegue juntar num só trabalho o pensamento, a razão, o sentimento e a expressão deste sentimento. Na literatura ou pintura o artista, além da técnica, precisa de inspiração; para o bailarino basta preparo físico e técnica ou depende também de inspiração? Precisa da inspiração também. E essa inspiração pode surgir em função das imagens ou daquilo que sente na música. Minha profissão é muito fácil de ser explicada: nós devemos fazer com que a música seja visível. Essa é a nossa tarefa. O poeta francês Paul Valéry diz exatamente isso... Isso é o mais interessante, pois existe um pensamento... Uma vez eu disse isso e um crítico retrucou: ‘‘Mas como! Eu vi uma vez você dançando sem música e foi uma coisa maravilhosa.’’ Então eu respondi, quando você dança sem música, você tem que obrigar as pessoas que estão vendo você dançar a ouvir uma música. Neste contexto, como o senhor posiciona a dança no último quarto de século. É uma arte que está conhecendo uma ascensão ou a dança vive uma crise semelhante a das artes plásticas, por exemplo? A arte nunca se desenvolveu de uma maneira ascendente ou descendente. O gráfico é muito heterogêneo. O surgimento de um talento, obrigatoriamente se torna impulso para o surgimento de todo um grupo. Essa é uma onda que, de repente, agrupa uma quantidade imensa de energia e de artistas talentosos e, num determinado momento, joga a arte lá para cima. Mas depois, obrigatoriamente, há uma queda, até que apareça uma nova onda. Diferentemente das ondas que passam uma atrás das outras, ela sobe, depois cai um pouco, reage um pouco, para, em seguida, transformar-se em ponto, depois divide, se transforma em três. O processo é muito multifacetado. Agora, se falarmos da dança nos últimos 25 anos, nós vemos que é uma arte que foi invadida pelo esporte. Ela se tornou mais forte, mas isso não quer dizer que se tornou mais artística. Frequentemente ocorre o oposto: o esporte é que se apropria do artístico. Nos últimos 25 anos, a arte penetrou em quase todas as atividades esportivas, até no futebol. A aprovação ou desaprovação da imprensa influencia? Numa das minhas viagens a Londres, nos anos 60, fui assistir a um espetáculo do Nureyev – com quem concluí a escola na mesma época, eu em Moscou, ele em São Petersburgo. Quando terminou nos encontramos e bebemos para danar. Naquele época ele estava dançando muito bem, e trouxeram para ele as críticas publicadas nos jornais. Eu perguntei: o que está escrito aí? Ele respondeu: olha, eu nunca leio o que escrevem sobre mim e te aconselho a também nunca ler. É muito agradável ler quando elogiam e, claro, muito desagradável quando criticam. Pelo que eu entendo, a crítica não é destinada aos profissionais, às pessoas que eles estão analisando, é uma profissão que tem a tarefa de interessar àqueles que não viram uma obra de arte ou, então, de irritar aqueles que a viram. A dança é uma arte que exige muitos sacrifícios, o que move o bailarino é só o prazer de ser o melhor ou há um sentido de missão? Indubitavelmente, é o desejo de ser o melhor. Ter um grande ego é uma qualidade do artista. Mas esse é um comportamento essencialmente esportivo... A dança é praticamente integrada ao esporte. Durante o espetáculo, quando se está com alguma dor – mas é obrigado a dançar – você frequentemente passa por cima disso e simplesmente não a percebe. Foram poucas vezes em que não senti dor enquanto estava dançando. Esses espetáculos foram justamente os que dancei pior. O artista sempre tem alguma coisa que está doendo, a perna, o dedo, a mão, as costas e, talvez, esta própria dor seja um controle, faça com que você dance de uma forma mais pura. Pelo menos no meu caso é assim. É possível esperar uma ruptura, uma inovação na dança nesse final de milênio? Acredito que vai haver um revolução no teatro, principalmente na cenografia, e isso vai influenciar principalmente na direção cênica dos espetáculos. A dança vai se desenvolver e assimilar tudo que está acontecendo em torno dela. Mas este é um processo descontínuo, sem lógica. A extensão da Escola do Teatro Bolshoi para o Brasil pode contribuir alguma coisa para o grande patrimônio que a Rússia tem na dança? Isso só o tempo vai dizer. Ninguém pode dizer agora com toda certeza. Estamos começando a contagem de um novo período que, talvez, possa criar um estilo brasileiro de dança clássica. Se não acreditássemos nisso, não daríamos início a este projeto. Tudo agora depende de quem vai tocar este projeto, e como a imprensa vai ajudar em seu desenvolvimento. Que lembranças tem da única vez em que o senhor dançou no Brasil, em Curitiba, em 1978? Dancei ‘‘O Quebra-Nozes’’ no Teatro Guaíra numa montagem de um português (Carlos Trincheiras). Na época vim de Moscou para o Rio de Janeiro e de lá para Curitiba. Estava acompanhado de Maximova e ficamos simplesmente perplexos com o Rio de Janeiro. Ela teve uma dor de dente terrível em Curitiba. Passou seis horas no hospital antes de dançar. Deram tanta anestesia que ela estava zonza no palco. Dentro dessa sua visão tão pragmática da arte... Não é pragmatismo, acontece que já vivi muitos anos. ...Perguntaria para que serve a arte? Não sei. Trabalho com ela e não sei para que serve. Talvez não sirva para nada, mas eu não sei como viver sem ela, igual a muitas outras pessoas. Muitos não entendem uma frase do Dostoiévski, que diz assim: ‘‘a beleza será salvadora do mundo. Na verdade, arte e beleza são sinônimos’’. A arte também não é uma busca da liberdade? Na arte você nunca conquista a liberdade, tudo é misturado com a vontade de se libertar. O artista nunca está livre das imagens, dos personagens que quer ou tenta representar. Mesmo que tudo em torno dele esteja bem, ele nunca vai estar livre de suas próprias insatisfações. Deus queira que eu nunca consiga me libertar das minhas insatisfações.

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