Música para lavar a alma
Um publicitário e um aficionado do rock lembram como foi o impacto de Woodstock no Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de agosto de 2019
Um publicitário e um aficionado do rock lembram como foi o impacto de Woodstock no Brasil
Walkiria Vieira - Grupo Folha 
Cada vez que alguém liga para o celular do produtor cultural Paulo Cesar Troiano, o Paulão Rock'n'Roll, tem o prazer de ouvir Johnny Winter, guitarrista que se apresentou no Festival de Woodstock e é, até os dias de hoje, referência de música de qualidade.
Para o megafestival, verdadeiro sonho de consumo, Paulão reuniu uma caravana com seus amigos. “Fomos em um Camaro e mais um grupo de motociclistas. Só conseguimos chegar até o Paraguai”, recorda rindo. Ver Jimmy Hendrix, Jannis Joplin, por exemplo, estava entre os planos que a turma não conseguiu realizar.

"Dali pra frente outras revoluções puderam ser vividas, como a luta contra o racismo”
Em um período em que a informação não era instantânea como nos dias de hoje, o produtor se abastecia pela mídia impressa. O jornal “O Pasquim”, revistas “Cruzeiro”, “Manchete” e a “Rolling Stones eram suas fontes. “Entendo que esses três dias formam mais do que um festival. Foi algo tão sério, tão histórico e importante para o planeta Terra que dali pra frente outras revoluções puderam ser vividas, como a luta contra o racismo”, cita.
Woodstock, para Paulão é sinônimo de paz, amor e também deu origem a um movimento. “A uma nação atuante até os dias de hoje. Se na época o alvo principal era a Guerra no Vietnã, a reunião de pessoas em prol do bem gera uma energia positiva por meio da música. Temos outros exemplos que deram certo e se consolidaram, como o festival Lollapalooza e Rock in Rio”, destaca. “A música tem esse poder, independentemente de ser de rock, jazz ou heavy metal, a necessidade de cultura é urgente”, pensa. “É para lavar a alma. Dos artistas e dos participantes”.
Comprar um disco era uma festa

O publicitário Renato Bastos Jr. tem em seu repertório pessoal e profissional a noção de quanto foi rico o festival de música e sua essência. Os artistas preferidos de Bastos eram Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Santana e The Who. “Era uma época em que a televisão era preto e branco e para se ter uma ideia, só no ano seguinte, em 1970, fomos ter acesso aos discos do festival. Quando alguém comprava um disco, era uma festa a reunião para todos ouvirmos juntos. Depois, gravávamos em fita cassete”, relembra. Dos artistas que estiveram no festival, Joe Cocker esteve diante dos olhos de Renato Bastos em 1977. “Foi em São Paulo, um grande momento.” Jethro Tull, Rolling Stones e Grateful Dead também são reconhecidos pelo publicitário como grandes músicos.
Acerca dos ideais mais difundidos no evento - paz, amor e liberdade - Bastos explica que não houve um imediatismo. “Do manifesto contra a Guerra do Vietnã e do período de ditadura mais truculento que vivemos aqui no Brasil, o que houve foi a definição de um movimento de toda uma geração que já sabia o que queria. Houve sim influência nas artes como a música e até na propaganda, mas o festival em si veio como uma confirmação de tudo aquilo que já desejávamos". E cita a Tropicália, de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Novos Baianos, que veio na sequência aqui no Brasil.
"Houve mudança de conceitos nesse movimento de contracultura, sim."
Na memória do publicitário ficou uma publicação da agência DPZ, de Roberto Duailibi, que servia de alerta contra a alienação. “Houve mudança de conceitos nesse movimento de contracultura, sim. Tínhamos o desejo de viver de modo livre, sem padrões que não agregavam e, de certa forma, nossos pais se incomodavam com nossos cabelos longos ou o modo de vestir”.
A praia de Boiçucanga, no litoral norte de São Paulo, era um dos pontos de encontro de quem se identificava com uma filosofia de vida simples. “Já mais velho, pegava a mochila, viajava de carona em turma e chegava a ficar 20 dias acampado e sem dinheiro,” conta Bastos.


