''Garota de Ipanema'', de Tom Jobim e Vinícius de Morais, e ''Aquarela do Brasil'', só de Ari Barroso, são as duas músicas brasileiras mais tocadas no mundo. Estão, ambas, entre as canções mais gravadas e executadas da história da fonografia e do rádio. ''Aquarela'' é conhecida internacionalmente como ''Brazil''. Sob essa forma, deu nome ao filme orwelliano de Terry Gilliam, de 1985. Serve de fundo musical para os vôos delirantes do protagonista.
O que não tem nada a ver com a intenção original do autor. Ari Barroso abraçou com paixão a política ufanista e nacionalista de Getúlio Vargas e inventou, com sua ''Aquarela'', um subgênero que acabou conhecido como samba-exaltação. Foi composto, no fim dos anos 1930, para a revista musical ''Entra na Faixa'', estrelada por Araci Cortes, e quase simultaneamente entrou para a trilha sonora de outra revista, ''Joujoux e Balangandans'', de Henrique Pongetti.
''Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro'' - os versos chegaram ao disco em 1939 pela voz de Francisco Alves. Cinco anos depois, a canção serviu, uma vez mais, a propósitos políticos, tendo lançamento suntuoso nos Estados Unidos promovido pela política de aproximação da América Latina de Roosevelt.
Pois ''Aquarela'' é composição tão formidável que sobreviveu ao uso político, à fobia antiamericanista dos anos 1960 e sobreviverá, provavelmente, como uma das grandes criações da música popular internacional.
Mas não há análise que aponte exatamente o porquê dessa longevidade. Embora tenha derivado em subgênero, ''Aquarela'' tem estrutura convencional e nem ao menos é a melhor composição de Ari. Mas carrega a marca de seu gênio, uma impressionante fluidez narrativa (falamos de notas, não de palavras) que a torna conhecida - nos faz íntimos dela - à primeira audição.
Ari Barroso, embora nem sempre se diga isso, é um dos pilares da música brasileira, ao lado de Pixinguinha, Cartola, Caymmi e Jobim. Como os dois últimos, compôs quase sempre letra e música. Pianista, é pelo menos co-autor dos arranjos vestidos pelos quais suas canções se consagraram (mas aquele tcham-tcham-tcham da introdução da ''Aquarela'' foi escrito por Radamés Gnattali).
Compôs marchas, marchas-rancho, boleros, sambas-canção, sambões, valsas e valsinhas, música para carnaval, jongo, foxtrote, hino para colégio, música junina, charleston e o que mais se queira de gêneros e modalidades. Sempre magistralmente. Embora assine letra e música da maior parte da obra, foi parceiro de Noel Rosa (''De Qualquer Maneira'', 1932) a Vinícius de Morais (na obra-prima ''Rancho das Namoradas'', 1962).
A obra é enorme. Vale uma breve relação de preciosidades: ''Na Batucada da Vida'', ''Maria'' (aquela de ''O seu nome principia na palma da minha mão), ''Na Baixa do Sapateiro'', ''Folha Morta'' (...''que a corrente transporta...''), ''Risque'', ''No Rancho Fundo'', ''Por Causa Desta Cabocla'', ''Três Lágrimas'' (''Eu chorei pela primeira vez na minha vida...''), ''É Luxo só'', ''Terra Seca'' (...''trabalha, trabalha, nego''), ''Canta, Maria'' e ''Camisa Amarela''.
Qualquer uma dessas músicas, uma só, transformaria o autor em totem. Ari tem dezenas de outras e não custa lembrar que quando Aldir Blanc, o mais cáustico dos poetas da canção brasileira, escreveu (com música de Maurício Tapajós) um manifesto contra o Brasil bárbaro dos anos 1970, voltou a Ari e batizou o protesto de ''Querelas do Brasil''.

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