Música nas ruas num palco a céu aberto
Dupla musical traz cultura latina ao centro de Londrina em meio ao isolamento e recebe aplausos que vêm dos prédios e dos transeuntes
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segunda-feira, 31 de agosto de 2020
Dupla musical traz cultura latina ao centro de Londrina em meio ao isolamento e recebe aplausos que vêm dos prédios e dos transeuntes
Lara Bridi/ Estagiária 
Eis que de dentro de um fusca vermelho saem as duas figuras: Alejandro com seu trompete e Gabriel com seu violão. Após montar os equipamentos ali na calçada, estão prontos para começar o que vieram fazer: tocar e trazer um pouco de cultura para aqueles que estão em casa ou que brevemente passam pelas vias da cidade. Embalados em ritmos hispânicos, a dupla entoa canções tradicionais latinas além de clássicos como La Vie em Rose e What a Wonderful World. Abaixo dos prédios, é possível ouvir os aplausos vindos das janelas. Os carros passam mais devagar para poder apreciar com um pouco mais de atenção. Dos pedestres que param para ver, a dupla recebe elogios, pedidos de suas músicas favoritas, contribuições no chapéu – que aqui é a maleta do trompete – e, quando pouco, uma torcida de pescoço daqueles que não param, mas acompanham com os olhos e ouvidos.

Eles são um duo improvável. Gabriel Sampaio Strauss, 30, é professor de música em Londrina, mas criado no Rio de Janeiro. Já Alejandro Zapata, 40, trabalha com astrologia e terapias curativas. Veio da Argentina há alguns anos e foi parar em Maringá, onde conheceu seu parceiro musical em 2016. Passaram alguns anos sem se ver até que a pandemia da Covid-19 despertou uma ideia nos dois: se reunir para um projeto que une os repertórios latino-americanos em resgate às origens desvalorizadas dessa cultura.
E que lugar melhor do que as ruas para isso? Com o isolamento, os músicos não podem ocupar palcos em bares. Mas a rua, que sempre havia sido o espaço dos artistas, ainda está aí, e com a grande vantagem de não restringir o público ouvinte, alegra-se Strauss: “A música é o que a gente gosta de fazer mas também é o nosso trabalho, e eu acho que a rua é o melhor palco para mostrar para o povo em geral”.
E foi assim que o violonista clássico e o trompetista autodidata entraram em uníssono para ritmos tão distintos. Entre tantos, o samba, o tango e até o jazz viram trilha sonora nas tardes urbanas. Os músicos apontam a importância de trazer esses ritmos à tona, uma vez que já não se encontram tantos lugares dedicados à cultura a que o próprio povo deu origem, que foi, não por acaso, substituída por um mercado global.
Mas, nas ruas, os ritmos nacionais têm um quê de artesanal, num processo que não apenas os resgata mas também integra culturas de países que parecem diferentes, mas são mais semelhantes do que se imagina. “Se a gente parar para escutar com atenção os ritmos latinos, a gente vê que todos eles têm o princípio em comum, que é a batida africana” – explica Gabriel, completado por Alejandro: “De modo espontâneo, em todas as partes da América Latina, todos falavam das mesmas temáticas, mas sem comunicação. É interessante que usam os mesmos recursos, porém cada um em seu lugar”.

Entretanto, há muitos problemas que se colocam no caminho de espalhar essa mensagem. Em contrapartida à democracia das ruas, elas também mostram seus empecilhos. Há lugares que não têm tomada, há momentos em que o barulho dos carros é muito alto ou que o tempo escuro e úmido – recorrente na última semana - afasta o povo da rua e dificulta a captação do som dos instrumentos. A aparelhagem técnica da dupla é limitada, e eles ainda tentam arrumar dinheiro para novos microfones e caixas de som que os permitam alcançar mais ouvidos. Montaram perfis nas redes sociais e até começaram uma “vaquinha” online para chegar lá, pois “às vezes temos que fazer acontecer com o que tem e com o que não tem”, encoraja Zapata.
E assim continuam, de forma quase itinerante, a espalhar som pelos cantos da cidade. A esperança é entreter o povo além de incentivar que demais artistas encontrem outros meios de se expor. Eles mesmos já planejam entrar no mundo das lives, tão populares desde o início da pandemia.
Para a dupla, o importante é fazer a música tocar as pessoas. Nas palavras de Alejandro, “a música salva... A cultura é a amálgama, é o que une todas as coisas.” E, certamente, mesmo em um dia cinzento de isolamento, ao ouvir a essas melodias pela janela, alguém pode ver razão nas palavras do ícone musical Louis Armstrong quando disse “Que mundo maravilhoso”.
Supervisão: Célia Musilli
Editora da Folha 2
Para colaborar com a Vaquinha Virtual acesse: http://vaka.me/1289114
Confira o vídeo com as apresentações da dupla:


