MÚSICA Maestro de primeira classe
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domingo, 08 de dezembro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Não é uma história comum. A trajetória do maestro húngaro, radicado na Itália, Janos Acs, daria um belo romance. Mas por enquanto a literatura não está nos seus planos e ele prefere se dedicar ao que mais sabe e gosta de fazer: regência. Está no Brasil para uma experiência, relâmpago diga-se de passagem, com a Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP).
Regente dos três mais populares tenores do mundo Luciano Pavarotti, Plácido Domingos e José Carreras Acs está em Curitiba a convite do amigo pessoal, diretor e regente titular da orquestra, Alessandro Sangiorgi, para reger o penúltimo concerto do grupo para o ano. O espetáculo acontece hoje, no Teatro Guaíra, a preços populares.
No programa, três peças de compositores europeus: o húngaro Zoltán Kodály, com ''Danças de Galanta''; o italiano Ottorino Respighi, com ''Fontes de Roma''; e o tcheco Leopold Antonín Dvorák, com ''Sinfonia nº 5, Novo Mundo''. É um repertório difícil, segundo Acs, mas a orquestra está respondendo bem à sua peculiar maneira de reger e ele promete um bom espetáculo para a manhã de hoje. ''Para ser um maestro é preciso ter personalidade forte'', diz o regente.
Personalidade, postura, conhecimento. É uma trilogia que não falta ao maestro. Criado por uma família de músicos em um regime ainda comunista na Hungria, Acs foi para a Itália para estudar música aos 22 anos. Escolheu o país porque a ''Itália é a pátria do canto''. Quando criança, aliás, chegou a cogitar a hipótese de cantar profissionalmente, mas desistiu porque não era muito bom, na sua opinião. ''Ser mais um não adianta, o meu canto era medíocre'', disse durante entrevista à Folha no saguão do Hotel Deville, onde está hospedado com a filha de 16 anos.
A opção pela regência aconteceu no final da década de 70, quando se inscreveu, e ganhou, um concurso para ser diretor da Orquestra de Florença. Desde então uma série dessas boas coincidências do destino elevou Acs para uma posição bastante respeitada no restrito mundo da regência. Como por exemplo, uma agente teatral em comum com Pavarotti, que fez com que os dois se encontrassem pela primeira vez num concerto. ''Pavarotti me viu trabalhando e gostou'', lembra Acs.
O primeiro contato do tenor e regente aconteceu em 1990. No ano seguinte, Acs voltava à Hungria, onde responde a um processo por não ter retornado ao país depois de ter terminado os estudos na Itália, para reger o que considera um dos mais emocionantes concertos de sua trajetória. ''Foi a primeira e última vez que meu pai me viu reger Pavarotti'', disse. Músico e intelectual perseguido pelo regime comunista, o pai de Acs morreu meses depois, mas teve uma grande influência na escolha de sua carreira.
Como convidado, Acs já regeu orquestras da Itália e Hungria. Sobre a experiência costuma parodiar um ditado italiano que diz ''que não existem orquestras ruins, mas sim maestros ruins''. Quanto à sua experiência à frente da Orquestra Sinfônica do Paraná, Acs não esconde uma certa decepção quanto às condições oferecidas. Acha que precisava de mais tempo para o ensaio. ''Somente o período da manhã é pouco e também seria preciso mais do que uma apresentação, o ideal seriam três'', opina. No entanto, desmancha-se em elogios para falar sobre os músicos: ''são muito competentes e gentis''.
Sobre os compositores escolhidos para o programa, o maestro lembra que Dvorák mostra em suas obras as influências da música folclórica, em especial a tcheca, características da ''furiant e da dumka'', ritmos de polca, e ainda outras que podem ser caracterizadas como norte-americanas. Dvorák também admirava Mozart, Haydn, Beethoven e Schubert, além da harmonia de Wagner e de ser amigo íntimo de Brahms. Como Jano Acs, o compositor também tinha fascínio pela ópera.
Do húngaro Zoltán Kódaly, o maestro destaca a sua infância no campo, o que lhe deu enorme conhecimento da música folclórica. Com poucos ensinamentos, Kódaly aprendeu a tocar piano, instrumentos de corda e a compor. Talento que desenvolveu mais tarde em diversas academias de música de Budapeste, Paris e de outros grandes centros culturais. Tinha enorme admiração por Debussy. ''As suas Danças de Galanta têm inspiração na música folclórica magiar e ultrapassaram as fronteiras de seu país, sendo conhecidas no mundo inteiro'', revela Acs.
O compositor italiano Respighi sofreu as influências dos grandes músicos de sua época, como Torchi e Martucci. Mas, estudou também com Rimsky-Korsakov, na Rússia. Suas composições remetem a aspectos mais brilhantes de Rimsky-Korsakov, Ravel e Strauss, que podem ser observados em sua obra ''Fontes de Roma'', entre outras.
Para retribuir o convite ao amigo Sangiorgi, regente titular da orquestra paranaense, Acs convidou o colega para tocar num concerto de músicas brasileiras, previsto para acontecer no próximo ano, na Hungria.
Serviço: Concerto da Orquestra Sinfônica do Paraná, hoje às 10h30 no Teatro Guaíra. Ingressos a R$ 5,00.


