Música instrumental brasileira
Nelson Sato
De Londrina
Virou um clichê saudar a música instrumental brasileira como sinônimo de resistência aos ditames do mercado. Os artistas do gênero, no entanto, estão deixando cada vez mais a lengalenga lamuriante de lado para impulsionar com a ajuda da Internet suas carreiras no exterior através de intercâmbios com seus pares e selos europeus e norte-americanos.
Costuma-se dizer que o público para a música não-cantada é pequeno mas fiel, quando na verdade seu nicho de mercado é ainda uma incógnita. Há quem diga que os consumidores de música instrumental seriam os próprios músicos, reproduzindo um fenômeno que ocorreria na área da poesia, supostamente consumida apenas pelos próprios poetas.
Controvérsias à parte, três novos títulos estão chegando às lojas: Sanfonemas (Pau Brasil) de Toninho Ferraguti, Cinema Acústico (Vison) de Victor Biglione; e Saculeja (Elo Music) de Paulo Lepetit. Os três músicos fazem parte da elite instrumental do País, ostentando prêmios e participações em festivais internacionais e em trabalhos dos grandes nomes da MPB.
Dos três, o disco de Toninho Ferraguti desponta como o trabalho mais refinado, capaz de surpreender quem vincula o acordeom apenas a ritmos regionais sacolejantes. Em seu primeiro álbum-solo, Ferraguti assina doze de 14 composições. As exceções ficam por conta de Alfonsina y el Mar, da dupla Ariel Ramirez e Felix César Luna; e o tango Merceditas, de Ramon Sixtorios, com participação especial da cantora Marlui Miranda.
Outro convidado ilustre é Dominguinhos, homenageado na faixa Dominguinhos no Parque. O repertório mantém uma unidade espantosa, apesar da abrangência de gêneros. Abre com o forró O Bento Levou e fecha com a sonoridade dos pampas Olímpico. Entre uma e outra, sobressaem a bela faixa-título (em que o acordeom dialoga com a flauta de Toninho Carrasqueira e o teclado de Lelo Nazário), a valsa Victoria (na qual é acompanhado pelo sax-soprano de Nailor Proveta e o violão de sete cordas de Edmilson Capelupi) e a melancólica Meia Saudade (com a presença dos dois citados acima e mais o baixo de Rodolfo Stroeter, produtor do disco).
Se a palavra moderno ainda preserva algum sentido, a acepção mais rigorosa do termo pode ser detectada aqui, em cada sequência de notas gravada em Sanfonemas. Menos deslumbrantes, os CDs de Victor Biglione e Paulo Lepetit também oferecem fragmentos aqui e ali da potência da música instrumental brazuca. Em Cinema Acústico, Biglione mostra seu talento como violonista, guitarrista e arranjador reunindo versões de temas compostos para a tela.
Com vários prêmios no currículo, o músico tem vasta experiência de estúdio e palco. Já gravou com Chico Buarque, Gal Costa, João Bosco, Elis Regina, Djavan, Ivan Lins, Manhattan Transfer, Lee Konitz, John Patitucci e outros não menos famosos. Há dois anos, lançou o álbum Strings of Desire em parceria com Andy Summers, ex-guitarrista da banda The Police.
Vale lembrar que sua relação com o cinema não nasceu com a gestação de seu novo trabalho. Ele é do metiê. Já assinou trilhas sonoras para os longas Faca de Dois Gumes e Como Nascem os Anjos (ambos dirigidos por Murilo Sales), além de Dayse das Almas deste Mundo (de Lúcia Murat). No novo disco, homenageia tanto Hollywood quanto o cinema nacional.
O tributo inclui desde My Favourite Things, valsa de Rogers e Hammerstein para o filme The Sound of Music (que Roberto Wise dirigiu em 1965) a Insensatez, canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes para o filme Garota de Ipanema (dirigido por Leon Hirszman em 1967) passando ainda por Tommy, da banda The Who para a opéra-rock homônina de 1975.
Os pontos altos do disco, contudo, são outros: Manhã de Carnaval, música de Luiz Bonfá e Antonio Maria para o filme Orfeu Negro, de Albert Camus; e Moon River composta para Breakfast at Tiffanys, dirigido por Black Edwards em 1961. Enquanto na primeira faixa destaca-se o cello de Hugo Pilger, nesta última é o violão-solo de Biglione que reverencia a canção de Henry Mancini e Johnny Mercer.
Também de disco novo, o baixista e tecladista Paulo Lepetit recheia seu Saculeja com convidados especiais tais como Chico César, Zeca Baleiro, Bocato, Alzira Espíndola e Vange Milliet. Definindo seu trabalho como música plural brasileira, Lepetit alterna arranjos acústicos e eletrônicos em 10 faixas, cuja influência maior parece vir do jazz-fusion.
A referência quase põe o disco a pique. Mas, ao abandoná-la, seu trabalho deslancha seja enveredando pela latinidade em Fela ou optando pela abordagem acústica em Kid Pipoca (na qual Lepetit completa um duo de violões com Luiz Waack) e Palomares (que traz o músico tocando uma orquestra de bandolins).
Besteira procurar os três discos nas lojas convencionais. Para achá-los, só vasculhando as casas especializadas em MPB e música instrumental. Os contatos das gravadoras são os seguintes: Pau Brasil: telefone (11) 814 9404 e 870 2777. www.paubrasil.com. Vison: telefone (21) 493-7312. Elo Music: telefone (11) 573-9423 ou 887-7430.





