Música guarda apenas a memória da elite
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de janeiro de 1999
Elisa Marilia Carneiro 
Os arquivos de música em todo o Brasil privilegiam a produção da elite, principalmente do século passado. O que foi produzido pelas classes populares não está arquivado. A informação é de Paulo Castanha, coordenador do 3º Simpósio Latino-Americano de Musicologia, Paulo Castagna que aconteceu dentro da 17ª Oficina de Música de Curitiba. O que foi produzido pela elite não é representativo da sociedade da época, mas específico de uma classe social. afirma o pesquisador.
Este é um fato comum em todos os lugares, uma vez que a música popular não utiliza a linguagem escrita, mas é transmitida oralmente. Não se pode falar, por exemplo, da música de uma época. Podemos, sim, nos referir à música da elite de um período. E isso é bem diferente, diz Castagna.
Outra diferença importante é que a música folclórica não tem autoria. É atribuída à história oral, transmitida de geração em geração. Nas composições eruditas, primeiro se escreve para depois executar e nas composições populares as músicas são executadas para, depois, serem escritas. E de qualquer forma, apenas o que foi escrito recentemente, a partir da década de 40, é que tem registro escrito, aqui no Brasil. Os arquivos ainda precisam trabalhar muito para poder resgatar esses conteúdos, ressaltou Castagna.
Centenas de compositores brasileiros e também estrangeiros que viveram em diversos lugares do País, no final do século XVIII e século XIX, ainda são praticamente desconheciods. Castagna cita, por exemplo, os compositores Manoel Dias de Oliveira, de Minas Gerais; André da Silva Gomes, português que viveu em São Paulo; e José Maurício Nunes Garcia, mestre de capela no Rio de Janeiro.
A grande maioria das composições é de música religiosa e orquestral escrita para piano e canto, conta. Castagna disse ainda que este ano o simpósio foi estruturado de forma a dar ênfase maior à produção latino-americana. O trabalho de muitos dos conferencistas tem sido o de resgatar em arquivos históricos de igrejas, mosteiros e outras instituições, partituras antigas e praticamente inéditas, demonstrando que a produção musical do período colonial do Brasil e de outros países era intensa, apenas não conhecida.
O maestro Lutero Rodrigues, que também coordena o evento, destacou que esse movimento em prol da música latino-americana tem de continuar, especialmente agora, embalado pelos interesses comerciais do Mercosul, para que ela seja reconhecida mundialmente e conquiste o seu devido lugar na história da música universal.
Aberto oficialmente pela presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Margarita Sansone, o simpósio conta com as presenças dos historiadores Mirian Escudero, de Cuba; Aurélio Tello, do México; Walter Guido, da Venezuela; Victor Rondón, do Chile; Leonardo Waisman e Waldemar Axel Roldán, da Argentina; além de pesquisadores de várias universidades brasileiras.
Os temas abordados pelos pesquisadores foram: preservação e catalogação de acervos históricos; aspectos metodológicos; compositores e tendências: documentação musical: futuro da memória e da investigação musical; e necessidades e propostas metodológicas.


