Música faz bem para a saúde
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 1998
Cleide Cavalcante Agência Estado 
Os benefícios da musicoterapia, ou terapia através da música, começaram a ser pesquisados no antigo Egito, pelos sacerdotes. Para o grego Pitágoras, a música representava o ritmo da vida, promovendo total harmonização com as atividades praticadas pelo homem saudável. E Hipócrates, o pai da medicina, tratava doentes com problemas mentais através da música. O método ficou esquecido por muito tempo, tanto é que só chegou ao Brasil há cerca de 25 anos. Neurologistas de vários países usam técnicas modernas para estudar como o cérebro processa a música e qual sua influência sobre o desenvolvimento emocional e criativo da mente humana.
Alguns cientistas acreditam que a música está diretamente relacionada à linguagem e à emoção. Assim, eles tentam decifrar, por exemplo, o mistério que faz com que uma pessoa fique absolutamente sensibilizada quando ouve determinada música. Um mapeamento cerebral, realizado no Hospital e Instituto Neurológico de Montreal, no Canadá, indica que as redes musicais também se estendem pelos circuitos emocionais do cérebro, no sistema límbico. Outro fator destacado por especialistas é o poder da música na organização de pensamentos.
A musicoterapia trabalha justamente estes pontos da psiquê humana, dando ao paciente as chaves que liberam plenamente as potencialidades individuais. A musicoterapia permite, antes de tudo, o resgate da identidade do indivíduo, através da busca do autoconhecimento. Pois se eu tenho uma melhor consciência do meu eu, aprendo mais facilmente a direcionar a minha vida, explica Marília Schembri, presidente da Associação Mineira de Musicoterapia. Ela frisa que a auto-escuta para o resgate do nosso tempo interno, do sensível, da dimensão do que toca o ser, promove, essencialmente, saúde. A musicoterapia consegue ordenar tudo isso na mente. Ela ensina a ser como as aves, que voam com as duas asas abertas, em perfeito equilíbrio, indica. Reequilibrando nossas asas internas, estamos organizando o sentimento e o pensamento, a emoção e a razão. Isso é imprescindível para a total harmonização.
A música, verifica Marília, chega de forma integral e intensa no campo interno do ser humano, onde estão guardadas todas as experiências psíquicas de vida, traumáticas ou não, no setor físico ou mental. Muitas vezes, um problema não tem como ser expresso por palavras. Como acontece com pessoas que sofreram algum tipo de lesão neurológica ou deficientes físicos e mentais, destaca. A música nada mais é do que um canal facilitador desse campo sensível. Com a música o indivíduo aprende a expressar para si e para o mundo toda a bagagem traumática represada. É por isso que volto a afirmar que a musicoterapia é um rápido caminho para o resgate da saúde integral do indivíduo, afirma. Para Marília, a grande dificuldade neste fim de século é o resgate da própria história, da autopercepção, de saber quais são as necessidades individuais e essenciais. Muitas vezes, as pessoas se perdem com o excesso de estímulos externos, o que resulta no desequilíbrio.
Numa primeira sessão, a musicoterapeuta procura entrar em contato com as identidades individual e rítmica do paciente e com sua história familiar. Num segundo momento, parto para o estudo da família, fazendo, assim, a leitura rítmica do tempo interno do indivíduo, comenta. Várias técnicas são utilizadas, conforme Marília, facilitando o processo de interação paciente-terapeuta. Cada paciente, reage de uma forma diferente. Por isso, a necessidade de diversas formas de abordagens.
Entre as técnicas comuns nos acompanhamentos musicoterápicos, estão a improvisação, a visualização interna, a audição e o trabalho com mandalas. São processos facilitadores para que o indivíduo traduza com música o que há dentro dele, promovendo a autocura. Marília diz que também trabalha com gestantes, recém-nascidos e doentes em estágio terminal. Nesse estágio, a musicoterapia ajuda a pessoa a perceber como se distanciou tanto de si mesma ao longo da vida, até o ponto que o levou a uma doença, em estágio terminal. Esse resgate da identidade rítmica, geralmente, faz com que a pessoa tenha uma passagem mais tranquila. Chegar ao mundo e sair dele são momentos extremamente solitários, que devem ser passados com dignidade, frisa.


