MÚSICA ERUDITA/ENTREVISTA - Prima-dona por excelência
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de janeiro de 2007
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Prestes a fazer 30 anos, seria natural que a música pop e bandas de sucesso dos anos 80 fizessem parte da formação musical da paranaense Marília Vargas. Mas não foi isso que aconteceu. Desde cedo, a ópera e gêneros eruditos eram os repertórios escolhidos por ela. Filha de um casal donos de um tradicional sebo em Curitiba, o Fígaro, Marília nasceu em Ponta Grossa, morou em Brasília e radicou-se na capital paranaense aos oito anos. Nessa época, apesar da pouca idade, já tocava violino e se apresentava em orquestra. A precocidade não parou por aí. Aos 12 anos foi convidada a integrar o elenco da Ópera ''Tosca'', de Giacomo Puccini, uma superprodução do Centro Cultural Teatro Guaíra.
Aos 19, depois de cursar um ano de Canto, na Faculdades de Belas Artes de Curitiba, fez uma audição em Barsel, na Suíça. Passou e desde então vem desenvolvendo uma brilhante carreira no exterior. Em 2001 ela recebeu o prêmio Talento Artístico do Paraná e foi vencedora do segundo lugar no II Concurso Internacional de Canto Bidu Sayão. Em 2002, recebeu uma bolsa de estudos da fundação suíça Fridl Wald-Stifftung e em 2003 foi vencedora do terceiro lugar no VI Concurso Nacional de Canto Maria Callas.
Dividida entre o Brasil e a Suíça, onde mora atualmente, ela tem uma intensa atividade como concertista e professora em diversos festivais de música. Depois de passar a infância como aluna da Oficina de Música de Curitiba, a soprano retorna ao evento, pela primeira vez, como professora do curso de Música Barroca. O resultado foi um incremento na procura pelo curso. Da média de 10, 15 alunos, o curso que ela está ministrando este ano está com quase 40 alunos. O motivo, certamente, é o sucesso - e a competência - da soprano. Sobre sua carreira e seus planos futuros, ela falou à Folha2.
Como foi o seu primeiro contato com a ópera?
Meus pais são amantes da música e sempre incentivaram. Aos cinco anos comecei a estudar violino, mas eu sempre gostei de cantar e sempre dizia que queira ser cantora lírica. Muito cedo comecei com técnica vocal e quando eu tinha 12 anos, a Neyde Thomas (soprano brasileira) voltou para Curitiba e aí meu pai me levou até ela para ver se eu podia ter aulas. E foi sorte porque justamente naquela época eles estavam procurando uma criança para fazer o papel de pastor na Ópera ''Tosca''. E a partir dessa audição eu fui chamada para fazer o pastorzinho. Foi quando eu decidi que eu iria ser cantora.
Você já tinha assistido uma ópera antes dessa experiência?
Já, mas dessa vez foi diferente. Eu estava dentro da produção e era uma super produção. Foram três meses de ensaio praticamente e realmente eu descobri que aquele era meu mundo. Foi a partir daí que eu comeceu a estudar com a Neyde e aos 15 eu larguei o violino e fiquei me dedicando inteiramente ao canto. Quando eu tinha 19 anos eu fui para a Europa. Passei na Escola Schola Cantoro Basilienses, em Basel, na Suíça e depois de cinco anos tirei meu diploma de solista em música barroca, especialista em renascença e barroca. Eu já estava trabalhando nessa época.
Só com a música?
Sim, paralelamente aos estudos eu trabalhava com grupos de músicas antigas. Mas eu percebi que não podia parar de estudar. Eu estava cantando em Barcelona e um cantor muito famoso, Christoph Pregardien, estava fazendo um recital. Quando eu escutei ele cantar, eu disse: 'É ele. É com ele que eu tenho que continuar estudando.' Por sorte minha, ele era professor no conservatório de Zurique, que fica a 100 quilômetros de Basel e eu fiz mestrado com ele. Foram mais três anos de estudo e eu terminei o mestrado há um ano.
É mais fácil seguir carreira na música erudita aqui no Brasil ou no exterior?
Acho que fora você tem muito mais chance de trabalho. A demanda é maior. É claro que você tem que cair nas graças de maestros e de grupos que te apreciem e te chamem. Mas você geralmente tem mais espaço. Agora eu acho possível uma carreira no Brasil e tenho visto que, devagarinho, tenho feito muita coisa aqui. Não pretendo voltar imediatamente, mas um dia, por que não? É meu País e gosto muito de estar aqui, se a coisa melhorar em nível profissional...
Hoje em dia existe uma atenção voltada para ópera.Você acredita que sempre haverá um espaço para esse gênero?
Acho que sempre vai ter um espaço para música clássica em geral. Eu não faço só ópera, faço concertos, música de câmara e recitais com orquestra e pianista e vejo que sempre tem espaço. É muito interessante perceber como o público aprecia. Mesmo o público mais leigo, se ele tem oportunidade ele vai. Eu fiz um recital em Fortaleza no ano passado e o Teatro José de Alencar estava lotadíssimo. Tinha gente em pé e era um recital de ópera. A hora que você mostra, as pessoas apreciam. Talvez falte mostrar mais aqui no Brasil.
E agora, quais são seus planos?
Agora que me formei não tenho mais a obrigação de bater ponto na escola e estou livre para viajar mais. Estou sempre viajando e dando cursos. Tenho dado cursos em Brasília, Belo Horizonte, Goiânia, Fortaleza. A minha residência fixa é na Europa, mas tenho vindo bastante ao Brasil. Quando terminar a Oficina, volto para Europa e em abril estarei novamente em Curitiba para cantar com a Camerara Antiqua.
Você já foi aluna da Oficina de Música e agora volta pela primeira vez como professora, como está sendo essa experiência?
Desde os oito anos eu fiz cursos na oficina, principalmente de coral infantil. É uma sensação gostosa porque você se vê no lugar do aluno e entende a avidez para aprender. Sabe o que o aluno quer e o que ele sente. E a minha turma está enorme, o que é uma novidade. O curso tem 37 alunos, mas normalmente é mais discreto, menos procurado. Este ano tivemos esse boom, talvez pelo fato de eu ter dado cursos em várias cidades do Brasil.
Qual o perfil dos alunos que procuram esse curso?
Tem de tudo, desde o cantor mais iniciante, que é apaixonado por música antiga e que acha que vai aproveitar melhor com o curso, até o cantor profissional quer aprender a abordar o canto barroco. Eu procuro atender as necessidades de cada um. Por isso trabalho individualmente com cada aluno.
E o que você diria para quem está começando e não tem oportunidade de viajar para fora. O que fazer e o que procurar aqui no Brasil?
Eu acho que tem que estudar um instrumento como piano ou violino. É muito importante para o ouvido e para musicalidade. Eu tive a chance de tocar em orquestra e isso me deu uma abertura para trabalhar com outros instrumentos e com música em conjunto. E também procurar um bom professor de canto, fazer bastante técnica e participar dos festivais. É importante viajar e conhecer gente diferente. Cada professor vai te dar alguma coisa. Mesmo que você não concorde com tudo.
E o que você escuta no seu iPod?
Boa pergunta. Quando eu quero relaxar eu não escuto cantores. Eu gosto de escutar música instrumental antiga, como o norueguês Rolf Lieslevant. Ele tem uns discos maravilhosos de alaúde com instrumentos de percussão. Faz uns arranjos maravilhosos. Vamos dizer que são os meus discos preferidos. Tenho todos dele. Já cantores e música vocal escuto mais a título de estudo. De vez em quando curto um pop, não conheço nada, mas arrisco. E aqui do Brasil, não saberia te dizer uma pessoa. Tenho discos de Chico Buarque, do Caetano e da Elis, que adoro. Tem até um do Martinho da Vila que eu gosto bastante. Se estou em casa sem compromisso, é bom escutar.


