O cenário é o seguinte: estão em um grande teatro dezenas de crianças, algumas pintadas como bichos, transitando pra lá e pra cá, tocando instrumentos, dançando, observando. É o que chamam, na extensa programação do 6º Festival de Música de Santa Catarina (Femusc), realizado entre os dias 20 de janeiro e 5 de fevereiro deste ano, de ''Zoológico Musical''. E é algo que representa o evento todo: viver música erudita com liberdade para aprender.
''Gosto de guitarra e de harpa'', diz, de forma tímida, o pequeno Luan Stoinski, de 6 anos. Assim como ele, outras crianças estiveram no salão observando os ''bichos'' tocando cada tipo de instrumento. E ali foram matando a curiosidade sobre cada um deles.
''Acho legal isso porque desperta o interesse pela música e pela cultura, ele tem o interesse em conhecer os instrumentos. Antes de vir pra cá a gente teve que parar numa loja de instrumentos musicais porque toda vez que ele passa na frente pede pra entrar'', diverte-se Luciane de Conti, de 28 anos, mãe de Luan.
O ''Zoológico Musical'' é um exemplo de como fazer da música erudita uma experiência didática importante na formação de uma criança. O maestro Norberto Garcia, idealizador do projeto, que reuniu 134 aprendizes este ano, explica a melhor forma de incentivar os pequeninos. ''O importante é deixar que eles gostem de música, sem pressão, que eles se interessem normalmente. Quando uma criança está livre, tem a tendência a dançar com a música e a tocar os instrumentos. Só tem que ficar de olho para ela não quebrar.''
''No começo, é preciso prestar atenção a que tipo de música ela gosta mais. A partir de quatro anos a criança já pode começar com um teclado e fazer uma improvisação. Depois ela já pode partir para a percussão e a flauta. Aos seis e sete anos ela pode até começar no violino'', ensina Norberto.
Intercâmbio musical - Este ano foram 1.380 inscrições, com 67 cursos e 73 docentes, num total de 39.374 horas/aula e 1.200 participantes, de 22 nacionalidades, de 15 estados brasileiros. Toda essa gente de tudo quanto é lugar ajuda a promover uma grande troca de experiências. É o que mais comemora a maioria dos estudantes.
''Pessoal que não tem conhecimento e acaba vindo pra cá muda de ideia e quer começar'', comenta Alessandra Piazera de Oliveira, de 18 anos, moradora de Jaraguá do Sul, que começou a tocar harpa aos 15 anos, influenciada pelo Femusc.
Para ela, mais importante nem é pensar nisso como uma carreira profissional. E sim aproveitar os benefício do aprendizado musical. ''Não é o meu caso querer começar uma carreira com a música. Acho que o mais legal é que você também começa a ter disciplina porque tem regras a obedecer pra você aprender direito. E você também aprende a vencer desafios.''
Já a londrinense Mônica Bueno, de 23 anos, quer seguir carreira e um dia tocar em uma orquestra em São Paulo. A jovem, que começou a tocar violoncelo há seis anos, com professores na Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina, desembarcou em Santa Catarina pra se aprimorar. ''Meu professor dá aulas no festival. E aqui é bom porque você aprende com mais gente, em Londrina não tem tanto professor bom de violoncelo'', comenta.
O casal de pianistas Daniel Albuquerque Silveira, 23 anos, e Thaissa Andrade Santiago, 26 anos, vieram de mais longe, de João Pessoa. Tudo por causa desse intercâmbio cultural, difícil em locais do interior do Brasil, especialmente no Nordeste. ''É difícil sair de lá e custa caro para ir em todos os festivais. Pra participar daqui não é caro e o custo/benefício é bom'', destaca Daniel.
''Aonde a gente mora não tem isso. Lá a gente toca e chega num nível bom mas fica um pouco isolado. Aqui podemos conhecer muita gente boa, melhor que a gente e com mais experiência, e aprendermos mais'', comemora Thaissa. (O jornalista viajou a convite da organização do Femusc)

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