Música é terreno fértil para a pirataria
A música é pródiga em episódios envolvendo plágio. Vez ou outra, algum cantor famoso cai na berlinda, acusado de roubar uma melodia ou uma letra alheia.
A dupla Roberto e Erasmo Carlos, por exemplo, está sendo processada pelo advogado Sebastião Braga que acusa os dois de terem feito a melodia de O Careta (1987) a partir da música Loucuras de Amor gravada por Braga num compacto de 1983.
Outro caso recente envolve a banda Skank, vítima da perseguição judicial do poeta baiano Ajax Jorge da Silva, cujos versos teriam servido de fonte para os rapazes de Minas comporem as letras de suas canções entre elas, o hit Garota Nacional.
Uma polêmica do gênero pegou desprevenido o Padre Marcelo Rossi no final de 1998, quando os compositores Vavá Rodrigues e Haryson Guanas Lima comprovaram a autoria da música A Alegria (conhecida como a Aeróbica do Senhor), até então creditada no encarte do disco de Rossi a domínio público e ao próprio Rossi como responsável pelo arranjo e adaptação.
Neste caso, as semelhanças entre as gravações eram gritantes. Mas muitas vezes, as sutilezas da cópias deixam os peritos em dúvida. Difícil de ser definido, a atual legislação caracteriza o plágio pela apropriação parcial ou integral de composições de outros artistas sem lhes dar o devido crédito. Existe infração quando são identificados pelo menos sete acordes semelhantes.
Hoje, com a tecnologia disponível, é possível examinar a cópia da melodia fazendo a demonstração impressa através da apresentação gráfica da partitura. Nos anos de ouro das marchinhas carnavalescas, choviam plágios como confetes nos concursos e programas de rádio. Acreditem, mas Cidade Maravilhosa pode não ser fruto da inspiração de André Filho, e sim uma bela tungada do terceiro ato de La Boheme de Puccini.
O mesmo se pode dizer de Ride Palhaço, cuja musicalidade Lamartine Babo teria emprestado sem aviso da ópera II Pagliacci. Surpreendente também é saber que Está Chegando a Hora, atribuída a Henricão e Rubens Campos e gravada por Carmen Costa em 1942, foi na verdade pirateada de Aelito Lindo, dos mexicanos Sedas e Tutela.
Descobriu-se ainda que o célebre Pelo Telefone, de Donga e Mário de Almeida, lançado em 1917 e considerado por muito tempo o primeiro registro de samba em disco, era na verdade uma compilação de sambas de roda com refrão do sertão nordestino. A tentação do plágio não poupou Sinhô, Francisco Alves, Herivelto Martins, Ary Barroso, Orlando Silva, Baden Powell e nem mesmo Luiz Gonzaga cuja Asa Branca teria sido ouvida pelo rei do baião da boca de seu pai Januário.
Gostou tanto que decidiu tocá-la na sanfona para Humberto Teixeira cobrí-la de versos. Adoniran Barbosa é outro suspeito de aderir à prática. Se Samba do Ernesto seria de um compositor conhecido como Alocim, Saudosa Maloca traria na origem a autoria de um compositor de apelido Nicola. Jorge Benjor, famoso por ganhar o processo em cima do cantor pop inglês Rod Stewart que xerocou seu Taj Mahal, também abusava de criações alheias.
Consta que a segunda parte de Que Pena seria idêntica ao tema de Summer Place de Max Steirner. Notória é a fama que começou a pesar sobre Tom Jobim depois que o crítico José Ramos Tinhorão passou a infernizá-lo notando supostos plágios aqui e ali em sua obra. Insensatez teria como fonte uma valsa de Chopin. Sabiá seria um decalque de Ballin the Jack, de Jack Leonard. Samba de uma Nota Só deveria os créditos às notas de abertura de Night and Day de Cole Porter. Nuvens Douradas chuparia Prece de Vadico e Marino Pinto. E por aí vai.
Na música popular brasileira, a lista de acusados de plágio rechearia páginas. Raimundo Fagner, Zé Ramalho, É O Tchan!, Titirica e Lenine foram outros artistas que enfrentaram o vexame nos últimos anos. Nesta temporada, até o Hino Nacional Brasileiro virou motivo de desconfiança dos musicólogos. A suspeita é de que a única obra respeitável de Francisco Manuel da Silva seja na verdade cópia de um tema do padre José Maurício Nunes Garcia. Era só o que faltava.





