São Paulo, 26 (AE) - A primeira coisa que se descobre, quando se assiste a "Dois Córregos", é que, em seu novo longa-metragem, Carlos Reichenbach faz um belo exercício de ritmo. Como se recusasse alguns modismos, como a montagem em paralelo a Tarantino ou a velocidade frenética que supostamente prende a atenção de um espectador já tido de antemão por dispersivo. O diretor quer fazer um exercício rememorativo e dá a ele a amplitude de ondas longas exigida pelo trabalho da recordação. Tem ressonâncias proustianas.
A constatação seguinte é de que a música dá concretude a esse ritmo. Não por acaso Reichenbach prestou atenção especial a esse aspecto. A música não é um elemento do filme - é seu corpo e alma, a partir do tema composto por Ivan Lins, mas também pela trilha escolhida, de César Frank, Scriabin, entre outros. A história fala de três mulheres (Ingra Liberato, Vanessa Goulart, Luciana Brasil) que gravitam em torno de um homem maduro, o ex-guerrilheiro vivido por Carlos Alberto Riccelli. Não é à-toa que boa parte das cenas se desenvolva na sala de estar onde fica o piano. Ali, em torno da música, tocada por Luciana Brasil (que é pianista profissional), se medem e se desenvolvem as tensões da trama.
Tensões pessoais, políticas e eróticas, porque Reichenbach pretende pôr várias dimensões em contato. A trama parte de um longo flash-back de Ana Paula (Beth Goulart, que faz a personagem adulta), que se lembra das férias passadas em companhia de Lydia (Luciana Brasil) e Teresa (Ingra Liberato) na cidadezinha de Dois Córregos. O tio, Hermes (Riccelli), é um foragido da polícia política. A luta armada aparece em pano de fundo e dá sentido a tudo o que acontece em primeiro plano.
Lydia é filha de um militar violento e ela mesma é muito agressiva. Mas a música vai aproximá-la de Hermes. Este vem da luta armada, na qual atuou sem nenhuma vocação, pois não é suficientemente agressivo para um personagem que quer depor um governo pela via das armas. O diretor desfaz assim alguns estereótipos, como o do militante durão, o da artista frágil, etc. A doçura sincera, equilibrada, fica por conta de Teresa, composta com sensibilidade por Ingra Liberato. Ela é o fiel da balança desse filme terno, profundo, desequilibrado aqui e ali por alguns diálogos pouco inspirados e alguns personagens dispensáveis.

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