São Paulo, 19 (AE) - Na recente rebelião na Febem do Tatuapé, em São Paulo, os garotos queimaram e destruíram quase tudo que apareceu pela frente. Apenas uma sala não foi nem sequer arranhada. Trata-se do depósito de instrumentos musicais do Projeto Guri, que ensina música e promove apresentações de meninos carentes no Estado de São Paulo. Os violoncelos, violinos, violas, violões, trompetes, flautas, baterias e outros instrumentos saíram ilesos da batalha campal.
Foi um pacto firmado silenciosamente entre os menores infratores da instituição - um pacto que se repetiu pela terceira vez. Na primeira rebelião, os menores (cerca de 300 deles estudavam então no projeto) esconderam os instrumentos no forro do casarão do Tatuapé.
Depois da rebelião, o número de inscritos no projeto cresceu de 300 para 507. "O mais curioso é que nós não os procuramos: eles é que procuram o Guri", diz a coordenadora-geral do projeto, Beth Parro, uma contadora que diz ter tomado gosto pela causa dos meninos carentes quando era primeira-dama de Osasco (foi casada com o ex-prefeito Humberto Parro).
"Nós descobrimos que a música trabalha a auto-estima das crianças", diz Beth. O Projeto Guri já é bem conhecido, mas sua extensão ainda é pouco compreendida. Começou timidamente, em 1995, na Oficina Amácio Mazaroppi, no Brás, e hoje já mobiliza 6.907 garotos com idades entre 8 e 18 anos, em 27 pólos no Estado.
Custa ao todo R$ 100 mil mensais ao Estado - não há um único empresário investindo no programa, embora ele seja aprovado por lei de renúncia fiscal e possibilite dedução do investimento no Imposto de Renda (pessoa física também pode investir). O custo por aluno é irrisório: em média, R$ 18 por mês.
"Quando tinha 1 ano, fui jogado fora pelos meus pais; aos 9 anos, eu vivia nas ruas e roubava para comer", conta o menor A.L.F., que hoje cumpre regime semi-aberto e estuda na Universidade Livre de Música, após passar pelo Projeto Guri. E.S.S., também menor, viveu uma infância traumática com pais alcoólatras em Vila Formosa e hoje é monitor do Pólo Febem do programa.
"Muitos encaram como se essa fosse a última oportunidade que têm na vida", conta Beth Parro. "Ou encaram a sério ou saem dali para o Carandiru", diz. Tanto os professores quanto a coordenadora espantam-se com pelo menos uma das características do pólo da Febem: os menores infratores aprendem com uma facilidade espantosa. "São os que aprendem primeiro", diz Beth.
Em nenhum dos pólos é exigido que o postulante ao projeto saiba qualquer coisa de música. Os resultados dessa heróica aventura musical puderam ser vistos recentemente na mais solene cerimônia erudita do público paulista, a abertura do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Apresentaram-se, antes da Sinfônica do Estado, a orquestra do Pólo Amácio Mazaroppi, do Brás, e o coral da Febem. O coro emocionou ao interpretar o Hino Nacional Brasileiro - um dos garotos do conjunto o fez com a mão no peito todo o tempo.
"Tenho 35 anos de profissão e posso dizer que esse é um dos trabalhos que mais me dá prazer", diz o maestro Walter Azevedo, que regeu a orquestra na ocasião.

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