MÚSICA Dori Caymmi homenageia companheiros de geração
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domingo, 27 de abril de 2003
Mauro Dias<br> Agência Estado 
Acaba de chegar às lojas o novo disco de Dori Caymmi. Chama-se ''Contemporâneos''. É uma homenagem do músico aos companheiros de geração. É uma visita a certa música brasileira que o mercado escondeu. Um aceno para quem ainda acredita que canção popular combina com linguagem articulada.
Mais do que qualquer outro disco de Dori, ''Contemporâneos'' é um manifesto e todos os seus trabalhos são manifestos, busca da tradução musical de brasilidade na linhagem fundadora de Villa-Lobos, sons do sertão de Guimarães Rosa e acordes do velho Caymmi, família sonora que o une a Tom Jobim e Edu Lobo. Manifesto: essa expressão existe e num tempo de mídia menos mesquinha foi até e muito popular.
''Contemporâneos'' não é, naturalmente, uma produção brasileira. O selo original é o norte-americano Horipro Inc., e a distribuição brasileira, da gravadora Universal. Foi gravado e mixado entre novembro de 2001 e o janeiro seguinte, entre estúdios do Rio e de Los Angeles, onde Dori mora.
O disco traz alguns dos contemporâneos como convidados especiais: Caetano Veloso, Chico Buarque, Edu Lobo; os irmãos do titular, Nana e Danilo Caymmi; e o novato Renato Braz, que no ano passado venceu a edição de intérpretes vocais do Prêmio Visa. ''Renato Braz é minha esperança num Brasil mais brasileiro'', escreve Dori, num texto do encarte do CD.
O encarte traz um pequeno texto de Dori sobre cada canção. No que se refere a ''Coisas do Mundo, Minha Nega'', obra-prima de Paulinho da Viola, Dori escreve, modestamente erradamente que cantar nunca foi o seu forte. Samba, menos ainda o que também não é verdade. Numa ordem que talvez não tenha sido proposital, Dori põe Caetano Veloso cantando ''Januária'', samba do primeiro disco de Chico Buarque. Dori sempre foi muito crítico com Caetano e com Gilberto Gil. Jamais concordou com a maneira como eles permitiram que modismos, ditames de mercado, influenciassem a criação.
Se Caetano canta Chico, Chico canta Caetano: a música seguinte é ''Sampa''. O disco segue com ''Ponta de Areia'', de Milton Nascimento e Fernando Brant, participação de Danilo Caymmi; ''Lembra de Mim'', de Ivan Lins e Vitor Martins, participação de Nana Caymmi; ''Choro Bandido'', de Edu Lobo e Chico Buarque, participação de Edu; ''Viola Enluarada'', de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle; ''Essa Mulher'', de Joyce e Ana Terra; ''Bala com Bala'', de João Bosco e Aldir Blanc; ''Cão sem Dono'', de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro, ''Procissão'', de Gilberto Gil; e fecha com ''Flor das Estradas'' a única das 12 músicas do disco que é de Dori com letra de Paulo César Pinheiro).
Milton Nascimento certamente só agora irá saber da grandeza de ''Ponta de Areia''. Foram necessárias quase três décadas para que o cantochão mostrasse, pelas vozes de Dori e Danilo, seu absoluto esplendor por que não? contemporâneo.


