"Música do Brasil' recupera ritmos e música de raiz
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domingo, 19 de março de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 20 (AE) - O antropólogo Hermano Vianna conta que todo DJ a quem mostrou a gravação de "Boa Tarde Povo", feita pelas Baianas Mensageiras de Santa Luzia, declarou-se imediatamente tentado a samplear. O motivo é simples: a batida da zabumba é semelhante à batida do jungle e do drumnbass e impõe um ritmo dance ao canto das alagoanas. Só que elas fazem isso desde o século passado.
O canto das Baianas Mensageiras de Santa Luzia é apenas uma entre as inúmeras faixas dos quatro CDs do projeto "Música do Brasil", a versão ano 2000 da antiga Missão Folclórica de Mário de Andrade, viagem de pesquisa e catalogação empreendida nos anos 30. A diferença, além de tecnológica, é a abordagem. Mário de Andrade foi em busca da pureza e da originalidade. Hermano Vianna e sua trupe foram em busca da contaminação.
A equipe liderada pelo antropólogo percorreu mais de 80 mil quilômetros e registrou a atuação de mais de cem grupos musicais de estilos diferentes. O resultado da pesquisa é um material multimídia com 15 programas para TV, a caixa com os quatro CDs, um livro com 132 fotografias (magnífico registro visual de Ernesto Baldan) e um site na Internet. Os programas para TV começam a ser exibidos a partir desta sexta-feira na MTV brasileira - o material está sendo negociado também com a TV Cultura e a Rede Pública de Televisão para exibição em abril.
"As tentativas preservacionistas pecam por pensar que têm de isolar essas manifestações culturais", diz Vianna. "É preciso considerar, no entanto, que nunca existiu uma pureza original; as coisas foram combinadas desde o princípio e eu penso que preservar é fazer com que essas coisas circulem mais"
afirma.
Um bom exemplo do que ele diz é o mangue beat. Impulsionado pela música de Chico Science, Mundo Livre S/A e outras bandas, o mangue beat deu a conhecer aos próprios jovens nordestinos os ritmos e músicos que estavam ali, do seu lado, mas que não lhes interessava. "Despertou a curiosidade, mas ainda tem muita coisa para ser ouvida", diz o antropólogo.
Apesar de ter ido para a estrada munido de boa dose de informação das viagens que lhe antecederam - como a de Mário de Andrade, a de Luís Heitor Corrêa de Azevedo (anos 40), Marcus Pereira (anos 70) e o projeto Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro (anos 70 e 80, lançado pela Funarte) - Hermano Vianna deu de cara com muita manifestação da qual nunca tinha ouvido falar. É o caso do samba de aboio de Carmópolis, em Sergipe, que possui elementos do coco alagoano, mas com um tambor tocado ao estilo maranhense (deitado).
De barco, ônibus, carro ou avião, a equipe de produção do projeto percorreu mais de 80 cidades brasileiras e gravou mais de cem performances de grupos musicais de estilos diferentes. De Osório (RS) a Curiaú (AP), de Brasiléia (AC) a João Pessoa (PB), passando por Sabará ((MG), Alcântara (MA) e Parintins (AM).
A série de 15 programas para a TV é o primeiro produto do projeto que chega ao público. Gilberto Gil é o apresentador dos filmetes, gravados por meio de imagens captadas em película e áudio digital de 16 canais. Cada programa dura 30 minutos.
Uma amostragem das gravações dos CDs de "Música do Brasil" comprova que a perspectiva da troca de informações e da "contaminação" é um corte interessante. O paraense Mestre Laurentino, ex-funcionário de uma companhia de aviação, surge tocando uma de suas gaitas e misturando forró, choro e dobrado. Laurentino desenha as próprias roupas e amplia a noção de one-man-show com sua performance.
Os CDs levam o nome de "Música dos Homens, das Mulheres e das Umbigadas", "Música dos Mares e da Terra", "Música dos Santos" e Música das Coisas, dos Bichos e dos Vegetais". Já o livro "Música do Brasil" conta com 132 fotografias de Ernesto Baldan e texto de Hermano Vianna. No site www.musicabr.com.br estarão todas as informações recolhidas durante os dois anos de pesquisa.


