Música brasileira é exaltada em "Bahia de Todos os Sambas"
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quarta-feira, 09 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 10 (AE) - "Bahia de Todos os Sambas", de Paulo César Saraceni e Leon Hirszman, é o resultado de uma verdadeira epopéia cinematográfica. Lançado agora em vídeo pela Sagres/RioFilme, é registro de uma excursão de músicos brasileiros na Itália, realizada em 1983. Só chegou a ser montado três anos atrás, em parte porque dois dos seus idealizadores já haviam morrido. Um deles, o próprio Leon Hirszman. O outro, o italiano Gianni Amico, o verdadeiro idealizador da excursão. Sozinho, Saraceni teve de lutar pela montagem do filme, em companhia de Fiorella Amico, viúva de Gianni.
O caso foi o seguinte: Amico, grande apreciador da música brasileira, resolveu fazer um desagravo a Gláuber Rocha, que vira seu último filme, "A Idade da Terra", ser muito mal recebido no Festival de Veneza de 1982. Convenceu o assessor de Cultura de Roma, Renato Nicolini, a promover a excursão dos baianos. Nada menos de 150 músicos e um trio elétrico, a custo total de cerca de US$ 3 milhões. Entre os artistas mais conhecidos, gente como Dorival e Nana Caymmi, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Moraes Moreira, Batatinha e Armandinho. A fina flor da baianidade.
Saraceni viajou para registrar tudo o que pudesse e convidou Hirszman para co-dirigir. Os dois seguiam os músicos noite e dia. Filmavam os shows, mas os acompanhavam também por suas andanças em Roma. Os cineastas trabalhavam de sol a sol e, no fim, podiam contar nada menos que 36 horas de película impressa. Nada mau. Acontece que os diretores dos espetáculos queriam também produzir o filme. Como os cineastas brasileiros se opunham, o caso acabou na Justiça italiana, tão rápida e eficiente quanto a nossa. Resultado: 13 anos de batalha judicial até que o filme pudesse ser montado e apresentado ao público.
O resultado é muito mais que um documentário de evento, daqueles bons para serem apresentados uma única vez na TV. É registro amoroso de uma época, talvez de uma atitude que não existe mais. Dá gosto ver aquela doce invasão de bárbaros, na cidade que de maneira não de todo equivocada se chama "eterna". Há um encontro de afinidades (que aliás, Hirszman queria continuar explorando em filmagens posteriores na Bahia), entre o barroco de Roma e o barroco de Salvador. A dupla de cineastas via as atitudes abertas, efusivas dos músicos, aquele modo de ser que tanto aproxima os baianos dos peninsulares.
Mas não se trata de uma simetria perfeita. O que as lentes de Hirszman e Saraceni registram é uma exuberância maior ainda dos baianos que, como sempre, se sentiam perfeitamente em casa, como se tivessem nascido por ali mesmo, na Piazza Navona. A admiração dos romanos por eles não poderia se limitar à parte musical. Havia algo nos brasileiros que despertava talvez um sentimento próximo da inveja. Como se o velho continente, mesmo em sua geografia mais alegre e meridional, não conseguisse rivalizar com a alegria brasileira. Enfim, causa certa nostalgia quando se vê o filme. Talvez a sensação de certo suingue perdido
ou coisa que o valha.
Quando à parte musical propriamente dita, o que se vê é uma verdadeira celebração, próxima da epifania. Gil, Gal, Caetano, Dorival, todos eles estavam em sua melhor forma. Encantavam a platéia, da mesma forma que o fazia o menos conhecido Batatinha, com sua elegância e jeito suave de cantar. Há momentos maiores, como João Gilberto, fotografado em close por um Luiz Carlos Saldanha inspirado, cantando em italiano a música "Estate" (Verão). Depois da música, sussurrada no idioma de Dante, mas regada a dendê, alguns hits do seu repertório, solenemente acompanhados pela Orquestra Sinfônica de Roma.
O efeito de contraste vem com Naná Vasconcelos, percussionista genial, em tudo o oposto a João Gilberto. João é cool, introspectivo, quase imóvel, a não ser pela expressão facial às vezes torturada de quem luta para encontrar a nota justa, a expressividade adequada, a entonação sublime. Naná mexe-se pelo palco, transforma o próprio corpo em bateria de escola de samba, incendeia a galera.
Há, entre todos, um momento lindo e inesquecível de "Bahia de Todos os Sambas", quando Gal Costa começa sua apresentação cantando "Índia", guarânia brega que se transfigura em sua interpretação. Prossegue depois com "Canta Brasil", de Alcir Pires Vermelho, e emenda com alguns outros sucessos. A voz é privilegiada, a boca parece pintada por um artista da Renascença e o corpo vem esculpido em um vestido de arrasar. A câmera parece adorá-la. Gal exala sensualidade pura. Uma apresentação mágica.
Serviço - "Bahia de Todos os Sambas". Direção de Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, com Gal Costa, João Gilberto, Naná Vasconcelos e outros. Sagres/RioFilme


