Os traços de seu rosto, o jeitinho tímido e o sotaque ''nipo-carioca'', além da suavidade ao tocar flauta, não negam evidências sobre sua origem. Mas, ao executar clássicos do choro, Naomi Kumamoto, 43 anos, revela alma tupiniquim e paixão pelo Brasil, sua nova casa desde 2004, quando a artista deixou o Japão para morar no Rio de Janeiro e se entregar de vez à música popular brasileira.
Naomi se especializou em flauta pela Universidade de Osaka. Trabalhou em orquestras sinfônicas executando música erudita e gravando como componente de estúdios. O contato com a música brasileira veio, de acordo com a artista, com a busca por sua própria musicalidade. ''Não estava satisfeita tocando música erudita. Queria tocar uma música popular, só que no Japão não achava uma música popular que pudesse ser tocada com flauta.''
O choro não foi a primeira opção de Naomi, mas foi a definitiva. ''Um amigo me emprestou um disco do Altamiro Carrilho, um dos grandes flautistas do Brasil, e quando escutei achei o que estava procurando. Era aquilo que eu queria tocar''.
Naomi tentou encontrar músicos para tocar choro no Japão, mas era uma tarefa díficil. A flautista ouvia os discos e tirava as canções de ouvido. A grande virada aconteceu em 2000, quando ela conheceu Maurício Carrilho e sua banda, 'Arranca Toco', durante uma apresentação em Tóquio.
''Fui apresentada ao Maurício, que perguntou onde estava minha flauta. Toquei quatro ou cinco choros, bem clássicos...e meu repertório acabou. O Maurício pegou as partituras dele e perguntou se eu sabia ler. Eu disse que sim e então ele foi falando, toca isso, toca essa outra aqui...''.
A parceria inusitada acabou ganhando fôlego e o convite para vir ao Brasil foi feito, adequadamente, em forma de música. ''Ele me deu um choro composto por ele mesmo, com o título ''Naomi vai para o Rio''. Fiquei muito feliz, nunca tinha recebido uma música que tivesse meu nome''.
De flauta e cuia para o Brasil
O agradecimento também foi em forma de choro. ''Decidi fazer uma música, mas eu nunca tinha composto. Entreguei para ele, tocamos a música juntos no camarim''.
Daí saiu a idéia para a gravação de seus dois registros sonoros até agora, ''Naomi Vai Para o Rio'' e ''Cinco Para o Choro''.''Ele (Maurício) falou: ''Vai continuando a compor, essas músicas vão para o Brasil porque vamos gravar seu disco''. Achei que ele estava brincando. Aí comecei a pensar seriamente em vir pra cá''.
Inicialmente, Naomi tinha receio de largar o trabalho e juntar dinheiro para viver em um país completamente desconhecido. ''Não sabia que aqui falavam português, não sabia nada. Mas comecei a pensar em vir por causa da paixão pela música'', diz.
Em 2001, a flautista ficou três meses no Brasil para estudar e gravar a primeira metade de ''Naomi Vai Para o Rio''. Seu estilo, uma mistura de choro nipo-brasileiro, agradou. ''Dizem que eu toco com delicadeza japonesa''. Em seguida, retornou ao Japão e esteve novamente por aqui pouco tempo depois para terminar o álbum.
Em 2003, Naomi resolveu tentar tocar choro no Japão. ''Um ano e meio depois, de volta da segunda viagem, o Época de Ouro (tradicional grupo nacional de choro) viajou pelo Japão. Encontrei com eles e a paixão pelo Rio, pela música brasileira, voltou no meu coração. Vim para o Rio, aproveitei para fazer o lançamento do meu disco. Fiquei muito feliz tocando, no palco, e ali mesmo decidi morar aqui. Estavam todos aqueles músicos do Época de Ouro, apareceu também o Yamandu Costa... Esse carinho, gostei muito das pessoas'', confessa.
Deixar de ser japonesa para se tornar brasileira, de acordo com Naomi, foi fácil. ''Aprendi a tomar caipirinha, muita cerveja e a feijoada, que nunca tinha comido, adorei. Comecei a ver futebol também, torço para o Flamengo'', diverte-se.
Aprender a falar português e viver um pouco mais ''despreocupada'' foi mais difícil. ''Falar português não é fácil. Demorei bastante para aprender. O mais difícil foram os horários e a forma de viver. O Japão é muito sério, as pessoas são muito sérias, trabalham muito. O jeito de gastar o tempo é diferente. No Rio, principalmente, me parece que as pessoas só vivem para se divertir (risos).''
Atualmente, Naomi dá aulas no Rio, na Escola Portátil de Música e pensa em gravar mais um disco. Recentemente, participou da Semana do Choro de Curitiba e em breve terá um compromisso muito especial. ''O príncipe do Japão vai vir para o Brasil em junho e vou tocar um pouquinho de choro para ele. Foi um convite muito honroso do Consulado do Japão no Rio de Janeiro'', orgulha-se.
Perguntada sobre qual seria sua melhor definição para o choro, Naomi sequer pensou duas vezes. ''Choro é espírito. Musical e pessoas''.

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