Música à luz do dia
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terça-feira, 05 de agosto de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Clayton Biaggi/divulgaçãoAlbino Pinheiro: ...a população está traumatizada com os problemas de segurançaDepois de criar o Projeto Seis e Meia - série de shows de música popular a preços populares, que empolgou as platéias brasileiras quando surgiu em 1976 - o produtor e agitador cultural Albino Pinheiro está centrando forças num novo trabalho. Vem aí o Projeto Meio-Dia e Meia, para estrear em breve no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Seria uma saída honrosa para o sufoco que o Seis e Meia vem enfrentando atualmente, seja pelo temor do público em ir ao teatro, na outrora zona boêmia e de lazer do Rio, como pela tendência cada vez mais acentuada das produções noturnas começarem os espetáculos mais cedo, na tentativa de atrair fatias da platéia que evita circular à noite pela cidade.
O Meio-Dia e Meia terá os mesmos moldes do Seis e Meia, ocupando o palco do Teatro João Caetano, no Rio, e um cinema da Galeria Paulista, localizada na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, lugar nobilíssimo de São Paulo, segundo Pinheiro. Neste endereço algumas adaptações serão necessárias: a construção de palco e camarins.
Embora as datas para as estréias não tenham sido adiantadas, elas ocorrerão dentro de poucas semanas, garantiu o produtor à Folha2. No Rio de Janeiro pode acontecer ainda neste mês e na capital paulista não deve passar de setembro. Tenho a impressão que vai ser um estouro nas duas cidades, imagina Albino.
Invasão cariocaNa terra paulistana o produtor conta com o apoio valioso de Fernando Faro, presidente da Fundação da Imagem e do Som. Para não dar a impressão de promover uma invasão carioca, o criador do Meio-Dia e Meia usará a mão-de-obra local, inclusive colocando no palco artistas radicados na cidade.
A agenda dos cartazes também não foi divulgada. Albino Pinheiro chegou a pensar, inicialmente, em inaugurar a nova série trazendo ao palco os cartazes que movimentaram o primeiro mês do Seis e Meia. Cada espetáculo colocava em cena dois músicos de renome. Reabilitar as duplas hoje é impossível.
Clementina de Jesus, a pianista Tia Amélia e o flautista Abel Ferreira, que se apresentaram respectivamente com João Bosco, João Nogueira e Ademilde Fonseca, respectivamente, já morreram. O saxofonista Moacir Silva, que dividiu o show com Marisa Gata Mansa, sofreu derrame e não toca mais. Moreira da Silva, parceiro de Macalé em 1976, aos 96 anos não tem condições de seguir um roteiro previamente estabelecido.
Programa alternativoO Teatro João Caetano, construído no século passado, na região boêmia do Rio, fixou-se como o berço do Projeto Seis e Meia. Há 20 anos, seus 1.800 lugares, divididos em três andares, eram disputados a cada fim de tarde de segunda a sexta-feira por um público entusiasmado com os artistas que ali se apresentavam.
Nomes da nova safra, como João Bosco e Ivan Lins, harmonizavam-se com a velha guarda, como no caso de Jamelão, Jorge Veiga, Nora Ney. Discos gravados ao vivo nessas temporadas mostram o clima de euforia da platéia: Agnaldo Thimóteo e Carmen Costa, Luiz Gonzaga e Carmélia Alves, Sivuca e Rosinha de Valença entre outros.
O projeto estreou em agosto de 1976 graças ao inconformismo de Albino Pinheiro, que não admitia ver o Teatro João Caetano abrir suas portas somente às 9 da noite. Ao assumir o posto de diretor da casa, passou a estudar propostas alternativas para movimentar a sala. Com Hermínio Bello de Carvalho chegou à conclusão que o melhor a fazer era conquistar um espaço para a música brasileira.
Num formato de pocket-show o Seis e Meia caiu como uma luva no gosto do carioca. Milhares de pessoas passaram a evitar os lotações superlotados e o trânsito infernal da hora do rush, assistindo a espetáculos da boa música brasileira, a preços irrisórios. Antes das 20h o palco estava liberado para as produções da noite.
Sem charmeO romantismo que cercou o projeto nos seus primeiros anos - reproduzido nas sessões do Pixinguinha, em várias capitais brasileiras -, não resistiu ao tempo. A cidade não permite mais aquele charme que tinha, concorda Albino Pinheiro. Na época, além do João Caetano, o único espaço para a música era o então recém-construído Canecão. Não havia o Metropolitan, Rio-Sampa e outros mega-espaços encontrados hoje.
Outro motivo decisivo para minar a saúde do Projeto Seis e Meia é o fator segurança. O Teatro João Caetano está numa zona que o público considera de alto risco. Se você não for de carro, vai se arriscar a andar por umas ruas muito menos perigosas do que se pensa, mas a população está traumatizada com os problemas de segurança. Então quem vai, pensa duas vezes antes de sair de casa, conta Albino.
Dessa realidade decorre outra, de imediato: os espetáculos nobres deixaram o tradicional horário das 21h para começar mais cedo durante a semana. É o que está acontecendo com Paulo Autran que recentemente estreou Para Sempre no João Caetano.
Se fosse em época normal, ele começaria a sessão às 9 da noite. Acontece que na quinta e sexta-feira ele está fazendo às 7 da noite, conta o produtor. Como o Projeto Seis e Meia é alternativo, ele tem que ceder ao programa nobre, ficando reduzido a segunda, terça e quarta-feira. Desde o ano passado está ficando cada vez mais caracterizada a tendência das grandes produções começarem na quinta e sexta às 7 da noite.


