Maestro, arranjador, pianista e compositor, o mineiro Wagner Tiso desdenha preconceitos. É admirador da quebra de paradigmas na música e do envolvimento do popular com o clássico. É assim que ele sempre trabalhou, desde que começou em meados da década de 1960. E é o que poderão notar aqueles que tiverem oportunidade de adquirir o luxuoso box ''Da Sanfona à Sinfônica'' (Universal), onde ele resgata, ainda que parcialmente, sua intensa produção no mundo dos arranjos. E nesses 40 anos de carreira não foram poucas consagrações neste meio.
O box, que contou com patrocínio da Petrobras, traz quatro CDs divididos em blocos temáticos - e muitos sucessos. ''Cada um conta uma história diferente'', aponta o músico. Em ''Manto das Estrelas'' aparecem orquestrações sinfônicas produzidas por Tiso para canções como ''Corsário'', para João Bosco. Em ''Na Batuta do Sucesso'', como o título sugere, estão arranjos e sinfonias para hits, entre outros, de Djavan (''Meu Bem Querer''), Milton Nascimento (''Encontros e Despedidas''), Gonzaguinha (''Começaria tudo outra vez'') e até mesmo sua parceria com Milton, que se tornaria hino de movimentos estudantis - ''Coração de Estudante''. No terceiro disco da caixa, intitulado ''Futuro do Pretérito'', estão novas versões para grandes sucessos, como ''Sonífera Ilha'', dos Titãs, transformada em bossa nova por Adriana Calcanhotto, ou o mix para ''Se todos fossem iguais a você'' (Tom e Vinicius), que surge aqui de uma forma curiosa. Este clássico vem com uma versão ''tripla'' na voz de três cantoras - Maysa, Simone e Nana Caymmi - registradas em diferentes gravações e épocas. Por fim, ''Veredas'' mostra projetos especiais e homenagens promovidas por Tiso ao longo desses 40 anos.
Entre algumas consideradas hoje mais bregas, como ''Escrito nas Estrelas'', consagrada nos anos de 1980 com Tetê Espíndola, e grandes jóias da MPB, fica evidente na rica caixinha como o mineiro de fato passeia com desenvoltura pelas distintas vertentes da música popular brasileira, desde que, frisa ele, tenha qualidade. ''Essa é a minha vida, fazer de tudo um pouco. Sempre foi assim. Não tenho preconceito desde que na minha concepção seja belo'', afirma. ''Pode ser uma congada mineira, um choro, uma moda de viola. Tendo qualidade já valeu.''
Nestes 40 anos, Tiso pouco se lembra de fatos que tenham lhe incomodado. Não gostou, por exemplo, quando ''Coração de Estudante'', marco das manifestações contra a ditadura e a favor das Diretas, se tornou hino da nova República. ''Fiquei de mal com a música'', recorda. Outra coisa que tem levado o músico a se afastar das gravadoras é a descrença por parte delas em novos talentos. ''Antigamente, quando as gravadoras achavam que um artista poderia dar certo, investia-se muito. Hoje, talentos iguais não têm mais esse espaço. As gravadoras lançam um disco, se não der certo acabou.''
Ainda sobre este cenário, Tiso avalia também como ponto negativo o distanciamento entre a produção do arranjo e o artista. Para ele, a ligação neste trabalho é primordial para que se obtenha um bom resultado. ''De repente passaram a me convidar para fazer arranjo e aí quando via estava quase tudo pronto, feito a várias mãos, sem sequer ter envolvimento com o artista. Aí resolvi abandonar um pouco o mercado de discos'', conta.

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