Eles mantêm um roteiro de shows em duos, separadamente, mas é a primeira vez que se apresentam em trio num mesmo palco. O compositor, pianista e arranjador Wagner Tiso não só toca há um bocado de tempo com o guitarrista e violonista Victor Biglione como já gravou um CD em parceria trazendo o registro ao vivo dos shows.
Paralelamente, Biglione costuma se apresentar com a cantora Ithamara Koorax em concertos para voz e guitarra. Desta vez, a convite dos organizadores do Festival de Jazz de Londrina, eles resolveram montar um espetáculo coletivo, com os três juntos sob os holofotes. O show é hoje, a partir de 21 horas, no Teatro Marista (R. Cristiano Machado, 241).
O repertório reúne clássicos da música popular brasileira, standards do jazz americano e gemas do cancioneiro internacional como ''Saudade da Bahia'' (Dorival Caymmi), ''Cadência do Samba'' (Ataulfo Alves), ''Vento Bravo'' (Edu Lobo), ''Cravo e Canela'' (Milton Nascimento), ''Frevo'' (Egberto Gismonti), ''Fica Mal com Deus'' (Geraldo Vandré), ''Fly Me To The Moon'' (Bart Howard) e ''Bye Bye Blackbird'' (Miles Davis).
Ithamara nunca se apresentou em Londrina. Mas Tiso e Biglione estiveram na cidade em 1996 apresentando-se como solistas num concerto da Orquestra de Tatuí. A cantora de Niterói (RJ) não alcançou popularidade no Brasil, mas tem prestígio elevado entre amantes e críticos de jazz. Há dez anos, faturou o prêmio Sharp na categoria ''Revelação MPB'', com seu disco de estréia ''Ao Vivo''.
Recentemente, foi eleita uma das cinco melhores vozes femininas do gênero pela respeitável revista norte-americana Down Beat. Misturando inglês e português nas gravações, ela interpreta estilos variados com afinação exemplar e performance visceral. Viaja com frequência ao exterior, particularmente ao Japão, onde seus discos contabilizam expressivas vendagens.
Seu último disco, ''Love Dance The Ballad Album'', saiu no ano passado pela gravadora Som Livre reunindo canções românticas de sabor jazzístico e participações especiais de Marcos Valle, Dom Um Romão, Mario Castro Neves, Nelson Ângelo e grupo Azymuth todos, como a anfitriã, desenvolvendo carreira no exterior.
O CD traz músicas como ''Lígia'', de Tom Jobim; ''Olha Maria'', parceira de Chico Burque e Vinícius de Moraes; ''Absolut Lee'', de Tom Jobim; ''Man Alone'', de Luiz Bonfá; e ''O Amor é Chama'', sucesso de 1967 dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. Talvez, seu próximo trabalho seja um álbum ao vivo captado durante os shows que tem feito com Victor Biglione.
''Estamos pensando nesse projeto. Já temos um bom repertório'' diz o guitarrista e violonista em entrevista por telefone à Folha Dois. Biglione aproveita para anunciar o projeto de outro disco, ''Splendid Brazil'', gravado em parceria com Andy Summers, ex-guitarrista da banda inglesa The Police. O repertório, dedicado à música brasileira, traz faixas de compositores como Hermeto Pascoal, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
''Nesse trabalho, eu toco violão de aço'' conta ele. ''Quero valorizá-lo. Já o usei nos dois últimos discos indo na contramão dos músicos brasileiros, que preferem usar o violão de nylon relegando o de aço ao acompanhamento de baladas pop''. A guitarra, com a qual se consagrou como um dos virtuoses do País, deixou de reinar sozinha em seus braços.
''Deixei a guitarra um pouco de lado porque ela está sendo muito maltratada. Hoje em dia, qualquer sujeito acha que pode tocá-la. Por isso, tem 500 mil bandas por aí. O cara entra numa butique, compra uma roupa, bota um piercing e acha que é roqueiro'' lamenta. Entre os guitarristas novos que ele admira, cita o canadense Jeff Hailey e o carioca Bernardo Bosisio.
Argentino radicado no Brasil, Biglione lançou seu primeiro disco individual em 1986. Despontou como integrante do grupo A Cor do Som, que fez sucesso entre o final dos anos 70 e começo dos 80. Além da carreira-solo, tocou em discos e shows de diversos artistas de renome. ''O mercado de música instrumental é uma batalha permanente'' salienta ele.
''Para ouví-la, é preciso um nível cultural X. E a massa da população está ligada em novelas e músicas de fácil digestão. É difícil. Mesmo assim, procuramos manter a integridade artística''. Segundo ele, os festivais de jazz do interior do País estão valorizando mais os músicos brasileiros do que os festivais realizados nas grandes capitais. ''No eixo Rio-SP, 80% das atrações vem do exterior, o que não ocorre em cidades menores'' diz.
Wagner Tiso, um de seus parceiros mais frequentes, está há mais tempo atuando nesse meio tão exigente quanto quase invisível ao cidadão comum. Começou a carreira em Minas Gerais tocando com Milton Nascimento. Ainda nos anos 60, mudou-se para o Rio de Janeiro integrando várias bandas (entre elas a lendária Som Imaginário) e atuando como músico de apoio para artistas como Maysa, Marcos Valle e Cauby Peixoto.
Lançou seu primeiro disco-solo, ''Wagner Tiso'', em 1978. De lá para cá, gravou mais de 30 discos, além de compor diversas trilhas sonoras para cinema, teatro e televisão. Seu trabalho mais recente é o álbum ''Cenas Brasileiras'', laureado o ano passado com o Prêmio BR na categoria ''Melhor Disco'' e com o Prêmio Tim na categoria ''Melhor Disco Instrumental''. ''Eu gravei esse disco com a Orquestra Petrobrás Pró-Música (OPPM), com a qual desenvolvo vários projetos, entre eles uma série de cinco concertos anuais. Já tocamos com o Paulinho da Viola, Yamandú Costa e com grupos de choro'' conta ele.
Atualmente está trabalhando na trilha sonora do filme ''Os Desafiados'', de Walter Hugo Khouri. Está à frente também de uma campanha que prevê a criação de orquestras nas escolas públicas. ''Vou desenvolver o piloto do projeto em Belo Horizonte'' anuncia. Em 2005, será um dos representantes do país na França, que vai festejar a cultura brasileira na próxima temporada. ''Serei o responsável pela parte de orquestras e solistas'' revela.
Além do show de Tiso, Biglione e Ithamara no Teatro Marista, o Festival de Jazz de Londrina oferece um outro concerto nesta quinta-feira: às 20h30, o grupo local Manifesto Instrumental se apresenta no bar Valentino (Av. Bandeirantes, 61). No palco, Mateus Gonsales (piano), Paganani (bateria), Paulo Camelo (sax) e Ricardo Penha (baixo) mostram o repertório de seu recém-lançado CD ''Acertando o Passo''.


O pianista e arranjador Wagner Tiso, o guitarrista e violonista Victor Biglione e a cantora Ithamara Koorax: trio jazzístico se reúne, pela primeira vez, a convite dos organizadores do festival de Londrina


Serviço:
- Hoje: show com Ithamara Koorax, Wagner Tiso e Victor Biglione. Horário: 21 horas. Local: Teatro Marista (R. Cristiano Machado, 241). Ingressos: R$ 10,00 + 1 kg de alimento não-perecível (estudantes e aposentados pagam meia-entrada + 1 kg de alimento não perecível). Ponto de venda: loja Sonkey Videosom (Rua Souza Naves, 09, tel. 43/3321-4004).
- Hoje: show com o grupo Manifesto Instrumental. Horário: 20h30. Local: bar Valentino (Av. Bandeirantes, 61). A entrada é franca, mas os convites deverão ser retirados antecipadamente na loja Sonkey Videosom mediante a doação de 1 kg de alimento não-perecível.

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