Jim Morrison descansa na paz de seu bem cuidado túmulo, no cemitério francês de Père Lachaise, em Paris, enquanto um homem branco de cabelos negros faz sua lista de exigências. ''Nas horas vagas, quero conhecer a badalação da noite carioca. No camarim, sucos de frutas naturais e orgânicos.'' Seus novos amigos, Ray Manzarek e Robby Krieger, também têm pedidos a fazer. Ray, o tecladista, não quer ácido lisérgico. ''Quero jogar golfe.'' Robby, o guitarrista, não faz questão de mulheres de programa no camarim. ''Quero conhecer e experimentar as comidas típicas do Brasil.''
Sem Jim Morrison, os Doors são meninos bem comportados e exorcizados do espírito de porco que baixava em seus camarins nos anos 60. No entanto, assim que subirem ao palco do Credicard Hall (6846-6010), hoje, para um único show em São Paulo, um público de sete a oito mil pessoas vai clamar por fogo. Foram necessários mais de 40 anos, o líder morrer, o baterista original sair. Mas enfim, uma das bandas mais polêmicas e incendiárias dos anos 60 vem ao Brasil. E chega experimentada em uma turnê que já passou por EUA, Japão, Europa e América Latina. Só no México, foram 12 mil ingressos vendidos em três dias.
O show de São Paulo está com lotação esgotada. A única saída é correr para ver o show no Rio de Janeiro, amanhã, que conta com ingressos para todos os setores da casa Claro Hall. Em São Paulo, o show contará com a participação de oito integrantes da bateria da escola de samba Vai Vai. No Rio, aparecerão no palco percussionistas da Mangueira
Quem assume o front do grupo é Ian Astbury, vocalista do The Cult. Seu esforço em evitar comparações com Jim Morrison é tão louvável quanto inútil. ''Eu não estou substituindo Jim Morrison. Não estou preenchendo o espaço dele. O espaço que ele deixou não pode ser preenchido e eu não estou tentando fazer uma versão teatral e diluída de Jim Morrison. Só estou sendo eu mesmo'', disse em recente entrevista. Sobre o fato de ter se juntado aos Doors, afirmou ter recebido uma oferta que não pôde recusar. ''Tive a impressão de que eles acharam que eu era o cara ideal para o trabalho.''
A banda esticou o nome para The Doors of the 21st. Century, algo como Os Doors do Século 21. O baterista John Densmore, fundador do grupo, viu e desejou dividir o túmulo com Jim Morrison. Densmore processou o grupo e pediu o cancelamento das atividades da banda. Ele alegou que os ex-companheiros quebraram um contrato com ele quando reformaram a banda sem o seu consentimento. O juiz Gregory W. Alacorn, no entanto, julgou a ação do baterista improcedente e alegou: ''O público sabe que Jim Morrison, vocalista original do grupo, já morreu há muito tempo. Ninguém irá aos shows pensando em encontrá-lo no palco.''
Será que não? ''Claro que vale a pena ir ao show dos caras'', diz a roqueira Pitty. Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, vai por outro rumo. ''O show para mim terá dois sabores. Adoro o Cult e os Doors.'' Nasi, do Ira!, solta seu rojão ao contrário. ''Musicalmente, os Doors não contribuíram em nada para o rock & roll. O que eles vêm fazer é um som cover. O que era bacana era a voz de Jim Morrison, a poesia do grupo. Qualquer banda cover do Bexiga pode fazer um show como este.''
Fãs dos Doors não pensam bem assim. Quem viu Ian cantando ''Light My Fire'', ''L.A. Woman'' ou ''Love me Two Times'' jura que o homem tem a força de Morrison. Se não tiver, o ingresso terá sido pago por uma imagem com a qual Jim Morrison nunca sonhou: uma bateria de escola de samba tocando ''Break On Through'' com The Doors.

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