MÚSICA - Sons do Minuano em paragens londrinenses
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segunda-feira, 12 de março de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Gaúcho não nasce de botas e esporas, mas o pêlo amaciado na milonga, arma um laço de poesia, que prende para sempre o coração à identidade riograndense, principalmente entre os que foram atrás da vida longe dos pampas, não suportando a saudade, abrem uma sanga de cultura.
Ventos cortantes do Minuano, a tradição gaúcha sopra em todas as direções do Brasil, pegando admiradores, como o advogado de Londrina, Elizandro Pellin, vice-presidente da Ordem dos Advogados (OAB - Londrina).
Apesar de ter nascido em Santo Antônio do Sudoeste (97 quilômetros a oeste de Francisco Beltrão), na fronteira com a Argentina, ele tem a alma gaúcha, daqueles que ''não tem cova, nem ninho'', como diz José Hernandez, autor da Bíblia gaúcha ''Martin Fierro''.
Pellin é um sucesso de audiência da programação da Rádio Universidade FM (107,9 MHZ), com o programa ''Sons do Minuano'' aos domingos das 11 ao meio-dia, reapresentado as quintas-feiras, a partir das 20 horas.
A atração é muito mais que um programa gaúcho. Pellin reúne os ouvintes para uma conversa ao pé do rádio sobre o Movimento Nativista, que começou em 1971, em Uruguaiana, com o Festival Califórnia da Canção Nativa.
Um lírio nos campos gaúchos, o Nativismo floresceu uma geração de poetas e músicos, que criou obras com temáticas campeiras e arranjos modernos, sem perder o olhar da tradição.
O auge do movimento foi entre 1970 e 1980, período em que foram produzidos os melhores trabalhos, sendo que o festival de Uruguaiana já ultrapassou os 35 anos. Poucos eventos desse tipo no Brasil são tão representativos.
A cultura gaúcha nasceu ao redor das brasas quentes dos costumes dos portugueses, espanhóis e índios e que as imigrações alemã e italiana, a partir de 1875, deram um novo cozimento ao riograndense, assimilando e repassando tradições.
O poeta Jaime Caetano Braun, um legítimo gaúcho, filho de índio, pêlo duro, e alemães, foi cozido sobre esse fogo. Os seus versos de improviso, e que falam de problemas sociais, são universais.
''Braun era um autodidata mas detentor de uma cultura fortíssima'', lembra Pellin, acrescentando que, a sensibilidade do riograndense não calça botas e esporas.
''Essa diferença existente na cultura riograndense faz as pessoas acreditarem que o gaúcho é um sujeito grosseiro, tomador de chimarrão, quando na verdade, a maioria dos que se autodenominam gaúchos está fantasiada de gaúcho, sem compromisso com a história e a cultura. Obras como 'O Tempo e o Vento', trilogia de Érico Veríssimo, e outros autores clássicos da literatura dos pampas, como João Simões Lopes Neto e Apolinário Porto Alegre, estão aí para os que quiserem conhecer um pouco mais do Sul'', comenta Pellin.
Nessa defesa regionalista, o programa dá ouvidos à milonga, ritmo indolente e que, por excelência, é o maior representante dos pampas.
Galopando no improviso, o pajador, uma espécie de andejo e gaudério da música, arreia o coração da gente com o som da guitarra e o repente. ''Quando se fala em música gaúcha sempre lembram do vanerão e outros ritmos dos fadangos. O programa tenta mostrar outras músicas, que não são tão populares, como a milonga, chamarrita, o rasguido-doblê e chamamé'', ressalta o apresentador.
Em ''Sons do Minuano'', Pellin costuma preparar os ouvidos do público, que não está acostumado à linguagem do campeiro, antecipando o significado das letras e alguns comentários históricos.
''Cantores como Pirisca Grego representam essa nova maneira de cantar o Rio Grande do Sul, sem perder as origens do campeiro. Infelizmente, hoje, existe a che music, notoriamente comercial, com letras banais, feita apenas para consumo de massa. Uma música extremamente urbana nascida na região de Porto Alegre. Já na milonga temos nomes que extrapolaram a América do Sul, como Atahualpa Yupanqui, argentino, que morreu em 1992'', destaca o apresentador.
Apesar de não tocar em seu programa gaúchos como Teixeirinha, Gildo de Freitas e José Mendes, Pellin tem grande respeito pelo que representam na música popular, afinal, todos os riograndenses são filhos de Teiniaguá, princesa moura das lendas gaúchas, transformada em lagartixa pelo diabo vermelho dos índios Anhangá-Pitã.
Teiniaguá é aquilo que não sabe o que é, mas o destino mudou essa história, quando um moço sacristão se apaixonou pela princesa. O casal se tornou os pais dos gaúchos e das histórias, que vêm com os sons do Minuano.


