Sessenta e quarenta. Redondos. O primeiro, diz respeito à idade que será completada em 31 de dezembro. As quatro décadas, indicam o tempo de carreira. Ela, que foi responsável por hits referentes ao escurinho do cinema, sombra e água fresca, lança-perfume, banheira de espuma, surge, agora, na série de DVDs ''Biografitti'' (gravadora Biscoito Fino), mostrando não apenas a vida e obra dessa tal de Rita Lee, mas a evolução de um rock'n'roll brasileiro feito com ''útero e ovários'', segundo suas próprias palavras.
''Ovelha Negra'', ''Baila Comigo'' e ''Cor de Rosa Choque'' compõem a primeira caixa de documentários munida de imagens de shows recentes - gravados em Limeira em 2006, no réveillon da Paulista, e na Praia de Copacabana -, programas de TV - algumas raridades, como por exemplo, Rita cantando com João Gilberto, em 1980, ''Joujoux et Balangandans'', de Lamartine Babo - e depoimentos ilustres de Tom Zé e Caetano Veloso, este, autor da música cujos versos fizeram de Rita a mais completa tradução de São Paulo. Tom Zé, por sua vez, se desmancha em elogios à companheira, afirmando que suas letras são ''sexopedagógicas''.
Entre os inúmeros musicais, um registro da década de 60 no qual a ex-Mutante canta ''Panis et Circense''. E por falar em Mutantes, ela comenta sobre o belo dia em que resolveram expulsá-la do grupo. Rita canta ''Mamãe Natureza'' e ''Pé-de-meia'', ao lado do extinto Tuti-Frutti; e também ''Eu sou Terrível'', ''A Hard Day's Night'', em aparições mais contemporâneas. Todo este conteúdo integra o vídeo ''Ovelha Negra'', que também mostra a cantora passeando de carro por sua São Paulo natal, histórias de sua infância e família, o furor que causava no colégio no qual estudava (Liceu Pasteur), e as primeiras apresentações musicais, quando ainda integrava o grupo ''Teeneage Singers''. Há espaço para reflexões de Rita sobre as influências primordiais de Caetano e Gil, companheiros que lhe ensinaram com o tropicalismo que era proibido proibir. ''Que ditadura que nada. Eu não me misturava com nada e eu era tudo. Eu nunca me senti tão livre'', discorreu a cantora sobre a época em que começou a usar drogas.
''Baila Comigo'', enfatiza a vida de palcos - e muito pouco de estradas, já que Rita está pagando para não sair de casa e enfrentar viagens, hotéis, etc. Mas, quando em cima de um deles, eis que surge uma nova mulher: ''Quando eu entro no palco, eu deixo todos os piriris para fora; as dores de cabeça, TPMs, problemas caseiros, emocionais. É um santo que baixou em mim'', desabafou. Basicamente, as faixas musicais foram extraídas do show realizado em Copacabana, em janeiro de 2007, incluindo ''Orra Meu'', ''Flagra'', ''Saúde'', ''Papai me Empresta o Carro''. Um dos - muitos - pontos engraçados do programa se dá quando ela conta a história de ''Mania de Você'', composta em cinco minutos, logo após ela e Roberto de Carvalho terem se amado ''feitos loucos''. Neste vídeo, a cantora ressalta o gosto pela composição: ''O que eu mais gosto na música é compor. É uma coisa que eu nunca parei. É um vício, um tesão''. Falando em vício, a relação atual com as drogas é outra: ''Faz dez anos que eu tenho controle total das drogas proibidas. Agora estou com uma neta, não há mais espaço'', refletiu, deixando evidente sua paixão por Izabella (Zazá), filha do primogênito Beto Lee.
A relação com o universo feminino está em ''Cor de Rosa Choque''. Nascida e criada em uma família composta majoritariamente por mulheres (mãe, madrinha, tias, primas e irmãs), Rita é categórica: ''Me diziam que para fazer rock era preciso ter culhões. Eu, sendo mulher, desacatando a autoridade masculina, achava o máximo.'', provocou. Para ela, toda mulher é louca e chata, e todo homem é bobo. ''Detesto mulher que reclama. Tem que agir. Apanhou? Sai de casa, dá uma porrada nele, mas não fica chorando''. Ilustrando o cenário rosa choque, o vídeo mostra músicas como ''Pagu'', ''Todas as Mulheres do Mundo'', ''Luz Del Fuego'', com Cássia Eller, e ''Doce Pimenta'', com participação de Elis Regina. Aliás, Rita fala da carta escrita a ela por Elis, durante o período em que ficou presa por porte ilegal de maconha, em 1976.
Outra história que soa engraçada diz respeito à ''sapata'', conhecida como Macedão, que a artista conheceu na cadeia: ''Foi de um cavalheirismo comigo, até fez com que eu ficasse com a cama dela'', lembrou. Há, também, imagens do belíssimo passeio panorâmico que Rita e Roberto fizeram de helicóptero pelo Rio de Janeiro.
E para quem acha que a avó de Zazá é figura que alimenta-se do passado, a artista mostra em estúdio, ao lado do marido, músicas que possivelmente estarão no próximo CD, com letras bem sacadas e melodias com cara de hits radiofônicos: ''Tão'', segundo o casal, foi inspirada em uma 'persona non grata' da vida real, com ''carisma de maçaneta de porta'', ou seja, ''uma grandissíssima super-hiper-mega-mala''; ''Eu era feliz'', uma bossa nostálgica que relembra ícones das décadas de 50 e 60, em versos como ''Eu sou daquele tempo que rock era pecado/ do Let me sing do Raul/ do cogumelo de zebu/ e da Leila Diniz/ ah, eu era feliz''; e ''Dinheiro'', com balada pop-rock, Rita canta ''O ano inteiro/ sempre fazendo das tripas dinheiro/ grana, bufunfa, dindin/ O resto tá bacana pra mim''. Abençoada loucura feminina!

Serviço
- Biografitti - série de DVDs sobre a vida e obra de Rita Lee. Gravadora: Biscoito Fino (www.biscoitofino.com.br). Preço sugerido: R$ 130,00 (caixa completa) e R$ 50,00 (individuais).

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